{"id":19346,"date":"2023-09-05T08:00:00","date_gmt":"2023-09-05T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19346"},"modified":"2023-09-05T11:49:04","modified_gmt":"2023-09-05T14:49:04","slug":"meio-seculo-apos-o-golpe-as-divisoes-no-chile-persistem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/meio-seculo-apos-o-golpe-as-divisoes-no-chile-persistem\/","title":{"rendered":"Meio s\u00e9culo ap\u00f3s o golpe, as divis\u00f5es no Chile persistem"},"content":{"rendered":"\n<p>A poucos dias de comemorar <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/uma-reflexao-sobre-os-50-anos-do-golpe-militar-no-chile\/\">meio s\u00e9culo ap\u00f3s o golpe de estado no Chile<\/a> de 1973, as divis\u00f5es hist\u00f3ricas vinculadas \u00e0 data seguem presentes e palp\u00e1veis. Dados de pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica revelam um contexto de antagonismo que dificulta o aproveitamento dessa comemora\u00e7\u00e3o para forjar acordos amplos que fortale\u00e7am a democracia no futuro. Esses abismos tendem a se tornar bastante vis\u00edveis no Chile na forma de crises institucionais, como a que ocorreu recentemente em torno do plebiscito constitucional. As antinomias da d\u00e9cada de 1970 se projetam, portanto, nas profundas discrep\u00e2ncias que revelaram \u2013 cinquenta anos depois \u2013 os fatos ao redor da vota\u00e7\u00e3o da reforma constitucional?<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/datavoz.cl\/a-50-anos-del-golpe-ni-tan-lejos-ni-tan-cerca\/\">pesquisa do GPS Ciudadano produzida pela ag\u00eancia de pesquisa Datavoz<\/a>, com sede em Santiago, realizada mais de um m\u00eas antes do anivers\u00e1rio do golpe, indica que as ant\u00edteses seguem vigentes. Analisando quem votou a favor ou contra no plebiscito de 4 de setembro de 2022, onde \u2013 lembremos \u2013 prevaleceu o recha\u00e7o \u00e0 proposta constitucional da Conven\u00e7\u00e3o Constituinte 2021-2022 (54,1%), os cidad\u00e3os revelam percep\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es radicalmente contrastantes dos eventos cinquenten\u00e1rios. Diante da pergunta \u201cQual \u00e9 a primeira palavra ou ideia que vem \u00e0 sua mente?\u201d, frente a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/sylvia-colombo\/2023\/09\/50-anos-do-golpe-no-chile-coincidem-com-ascensao-da-ultradireita.shtml\">comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos do golpe<\/a>, quem aprovou a reforma constitucional e, portanto, tende a ter uma posi\u00e7\u00e3o mais progressistas, associa a violenta ruptura democr\u00e1tica pelos militares aos termos <em>justi\u00e7a, ditadura, morte e dor<\/em>, o que reflete a persistente como\u00e7\u00e3o e o trauma relacionados a esse per\u00edodo da hist\u00f3ria chilena. Por outro lado, quem votou pelo \u201crecha\u00e7o\u201d \u00e0 emenda \u00e0 carta magna conectam o golpe de 73 a conceitos como <em>liberdade, divis\u00e3o, passado, resist\u00eancia ao comunismo<\/em> e palavras de gratid\u00e3o a Pinochet. Em ambos os grupos, as ideias associadas \u00e0 necessidade de reconcilia\u00e7\u00e3o ou de encerrar essa etapa com atos de justi\u00e7a aparecem com muito pouca for\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as entre os dois grupos se aprofundam quando se avalia a import\u00e2ncia de comemorar os 50 anos do golpe. Quatro em cada dez cidad\u00e3os consideram pouco ou nada importante o comemorar, refor\u00e7ando uma atitude mais distante. Ao desagregar essa opini\u00e3o por voto, as divis\u00f5es voltam a surgir claramente: a maioria (51%) dos favor\u00e1veis \u00e0 reforma constitucional entende que lembrar os eventos \u00e9 muito importante, como forma de cultivar a mem\u00f3ria hist\u00f3rica da ruptura da democracia. Em contraste com essa postura, uma ampla pluralidade (45%) dos que rejeitaram a reforma constitucional desconsiderou como relevante qualquer celebra\u00e7\u00e3o ou ato que lembre a trag\u00e9dia de 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de consenso sobre o passado \u00e9 muito not\u00e1vel. Mais de \u00be dos que se opuseram \u00e0 reforma constitucional limitam a condena\u00e7\u00e3o \u00e0s viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos ap\u00f3s o golpe, mas sem questionar a legitimidade dessa ruptura da ordem republicana e democr\u00e1tica pelos militares. Por outro lado, 2\/3 de quem aprovou a reforma opinam que tanto o golpe quanto as viola\u00e7\u00f5es s\u00e3o injustific\u00e1veis. Esses antagonismos est\u00e3o longe de ser modismos ou influ\u00eancias imediatistas de for\u00e7as ou l\u00edderes partid\u00e1rios e \u2013 gravemente \u2013 parecem estar ancorados em processos de socializa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica alojados no interior de cada fam\u00edlia ou n\u00facleo de refer\u00eancia. Quando perguntados sobre a rea\u00e7\u00e3o de sua fam\u00edlia imediata (pais dos entrevistados) na \u00e9poca do golpe, o resultado \u00e9 que quem votou pelo \u201cN\u00e3o\u201d \u00e0 nova constitui\u00e7\u00e3o tende a ter antecedentes familiares mais favor\u00e1veis ao golpe, enquanto quem votou pelo \u201cSim\u201d t\u00eam antecedentes contr\u00e1rios. As diferen\u00e7as pol\u00edticas, portanto, remontam \u00e0s hist\u00f3rias familiares daquela \u00e9poca, prolongando o cisma vivido cinquenta anos antes.<\/p>\n\n\n\n<p>Meio s\u00e9culo ap\u00f3s o golpe de Estado no Chile, as divis\u00f5es sobre como interpretar o passado persistem, conspirando n\u00e3o s\u00f3 contra a converg\u00eancia em um relato comum sobre o passado, mas tamb\u00e9m projetando um vi\u00e9s contra um modus operandi consensual frente \u00e0s crises institucionais recentes e futuras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica revelam um contexto de antagonismo que dificulta que essa comemora\u00e7\u00e3o seja usada para forjar acordos amplos para fortalecer a democracia.<\/p>\n","protected":false},"author":479,"featured_media":19339,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16873,16765,16719,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19346","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-golpe-de-estado-pt-br","9":"category-chile-es-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/479"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19346\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19346"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}