{"id":19376,"date":"2023-09-08T08:00:00","date_gmt":"2023-09-08T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19376"},"modified":"2023-09-07T12:47:29","modified_gmt":"2023-09-07T15:47:29","slug":"a-expansao-dos-brics","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-expansao-dos-brics\/","title":{"rendered":"A expans\u00e3o dos BRICS"},"content":{"rendered":"\n<p>Hoje o grupo <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/brics\/\">BRICS<\/a> \u2013 originalmente, Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul &#8211; passa por um momento pol\u00edtico de grande relev\u00e2ncia. Na recente<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/brics-expandido-e-agora-novos-desafios-para-a-politica-externa-brasileira\/\"> c\u00fapula na \u00c1frica do Sul<\/a>, o grupo formalizou o convite \u00e0 entrada de seis novos membros: Argentina, Ar\u00e1bia Saudita, Egito, Emirados \u00c1rabes Unidos, Eti\u00f3pia e Ir\u00e3.&nbsp; Consolidou-se, assim, o car\u00e1ter geopol\u00edtico dos BRICS, uma vez que foram inclu\u00eddos, de um lado, um aliado hist\u00f3rico dos EUA no Oriente M\u00e9dico, a Ar\u00e1bia Saudita, de outro, o Ir\u00e3, que sofre san\u00e7\u00f5es dos norte-americanos. A China havia, recentemente, mediado a retomada das rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre ambos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os BRICS se constitu\u00edram como uma plataforma pol\u00edtica e econ\u00f4mica desde o final dos anos 2000. Sua ascens\u00e3o refor\u00e7ou o imagin\u00e1rio profundamente enraizado de &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;desenvolvimento&#8221; no <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/dos-brics-ao-g7-e-a-otan-os-dilemas-do-sul-global\/\">Sul Global<\/a>, dando origem a um otimismo quanto \u00e0 capacidade desses pa\u00edses de se tornarem uma alternativa \u00e0 hegemonia ocidental. Atualmente, as tens\u00f5es &#8211; e expectativas &#8211; sobre o papel internacional dos BRICS cresceram no \u00e2mbito geopol\u00edtico. Do ponto de vista hist\u00f3rico, \u00e9 importante, para a Am\u00e9rica Latina e a \u00c1frica, apoiar a diversifica\u00e7\u00e3o de parcerias econ\u00f4micas que potencialmente contrabalancem a onipresen\u00e7a dos EUA e da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos analisar os BRICS a partir de, ao menos, tr\u00eas dimens\u00f5es. O primeiro \u00e9 o olhar \u201cdesde cima\u201d, quando analisamos o sistema internacional como ambiente composto por Estados nacionais relativamente coesos, dotados de um interesse nacional, que buscam preservar ou aumentar poder num ambiente de competi\u00e7\u00e3o entre si. Esta abordagem, t\u00edpica do realismo na discuss\u00e3o te\u00f3rica das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, se confunde com as an\u00e1lises geopol\u00edticas dos BRICS. Nessa perspectiva, os BRICS buscam acumular capacidades econ\u00f4micas, pol\u00edticas e militares frente \u00e0s pot\u00eancias tradicionais, em particular EUA e Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu in\u00edcio, no contexto da crise financeira de 2008, os BRICS buscaram atuar de forma coordenada em foros multilaterais para pleitear a reforma nas institui\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica mundial, especialmente no Fundo Monet\u00e1rio Internacional e no Banco Mundial, mas tamb\u00e9m (por parte do Brasil e da \u00cdndia) no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Essa agenda reformista foi um ponto de tens\u00e3o com a pot\u00eancias ocidentais, que procuram retardar ou mesmo impedir tais reformas em institui\u00e7\u00f5es criadas no per\u00edodo p\u00f3s-Guerra, despertando as<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2013\/apr\/02\/brics-challenge-western-supremacy\"> expectativas<\/a> de alguns segmentos sociais sobre o potencial \u201ccontra-hegem\u00f4nico\u201d dos BRICS.<\/p>\n\n\n\n<p>Quest\u00f5es relativas \u00e0 seguran\u00e7a internacional j\u00e1 vinham ganhando mais espa\u00e7o a cada c\u00fapula dos pa\u00edses BRICS. Por\u00e9m, as tens\u00f5es geopol\u00edticas se tornaram protagonistas a partir da elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos EUA em 2017, quando os EUA voltaram-se \u00e0 conten\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o tecnol\u00f3gica da China. Em 2022, com a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia pela R\u00fassia, o mundo passou a ser representado como, novamente, como \u201cOcidente versus Oriente\u201d, e a alian\u00e7a China-R\u00fassia dentro dos BRICS d\u00e1 definitivamente o tom geopol\u00edtico, mais que econ\u00f4mico, do agrupamento. Esse olhar permite constatar<strong> <\/strong>que o grupo se torna cada vez mais uma alian\u00e7a geopol\u00edtica, mais do que econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra forma de analisar os BRICS \u00e9 a partir de um olhar \u201chorizontal\u201d (ou para os lados), ou seja, analisando as rela\u00e7\u00f5es intra-bloco, buscando identificar converg\u00eancias e assimetrias entre os pa\u00edses. Na \u00e1rea de sa\u00fade, por exemplo, os BRICS buscaram adensar a coopera\u00e7\u00e3o entre si, estabelecendo grupos de trabalho e memorandos de entendimentos. Ao mesmo tempo, a<a href=\"http:\/\/periodicos.pucminas.br\/index.php\/conjuntura\/article\/view\/23913\"> pandemia<\/a> desafiou a coopera\u00e7\u00e3o, e os pa\u00edses BRICS n\u00e3o coordenaram uma posi\u00e7\u00e3o conjunta sobre a flexibiliza\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria das patentes de vacinas em debates no \u00e2mbito da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Com\u00e9rcio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/biblioteca.pacs.org.br\/publicacao\/investimentos-da-china-no-brasil-africa-do-sul-e-india-arranjos-institucionais-atores-e-impactos\/\">Em pesquisas anteriores<\/a>, mostramos as assimetrias econ\u00f4micas entre os pa\u00edses, tendo em vista a preponder\u00e2ncia econ\u00f4mica da China. Nas rela\u00e7\u00f5es comerciais, por exemplo, tr\u00eas dos BRICS \u2013 Brasil, R\u00fassia e \u00c1frica do Sul \u2013 mant\u00eam super\u00e1vits comerciais com a China, por\u00e9m suas pautas de exporta\u00e7\u00e3o s\u00e3o compostas, majoritariamente, por produtos prim\u00e1rios agr\u00edcolas e minerais: soja em gr\u00e3o, min\u00e9rio de ferro, \u00f3leo bruto e refinado, carv\u00e3o, mangan\u00eas e outros hidrocarbonetos. A \u00cdndia, \u00fanico BRICS com d\u00e9ficit comercial com a China, tamb\u00e9m exporta, em geral, produtos prim\u00e1rios ao parceiro asi\u00e1tico, al\u00e9m de medicamentos em dose. Por sua vez, as exporta\u00e7\u00f5es intrabloco da China s\u00e3o compostas por pe\u00e7as de aparelhos telef\u00f4nicos, m\u00e1quinas de processamento de dados e semicondutores.&nbsp; Neste sentido, as rela\u00e7\u00f5es<a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/revistas\/index.php\/rtm\/article\/view\/240\"> comerciais intra-BRICS<\/a> remontam a tradicional divis\u00e3o internacional do trabalho, tendo a China em seu centro. Essa interdepend\u00eancia assim\u00e9trica tende a perpetuar a desindustrializa\u00e7\u00e3o da economia brasileira no m\u00e9dio prazo, j\u00e1 que o<a href=\"https:\/\/bricspolicycenter.org\/publicacoes\/chinese-investments-in-brazil-investment-data-public-policies-for-investment-facilitation-and-the-case-of-the-manaus-industrial-pole\/\"> Brasil perdeu seu lugar para a China<\/a> como principal exportador de produtos manufaturados para outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma terceira forma de analisar os BRICS \u00e9 a partir das suas rela\u00e7\u00f5es com outros pa\u00edses e regi\u00f5es em desenvolvimento, na \u00c1frica, \u00c1sia e Am\u00e9rica Latina. Esse seria um olhar \u201cvertical\u201d (ou <em>bottom-up<\/em>), uma vez que cada pa\u00eds BRICS atua como uma pot\u00eancia regional, que busca influenciar e acumular poder econ\u00f4mico junto a outros na \u201cperiferia\u201d. Por vezes, a atua\u00e7\u00e3o de grandes empresas multinacionais dos BRICS na \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina reproduzem pr\u00e1ticas de explora\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias primas, m\u00e3o de obra e recursos naturais, gerando novos ciclos de acumula\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00f5es. <a href=\"https:\/\/bricspolicycenter.org\/publicacoes\/chinese-investment-loans-and-foreign-direct-investment-in-south-africa-between-2012-and-2022\/\">&nbsp;Thompson et. al. (2023)<\/a> afirmam que a influ\u00eancia econ\u00f4mica da China na \u00c1frica levou a uma reformula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es intra-africanas: no lugar das ideias do pan-africanismo, agora as tais rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o retratadas pelas lentes do &#8220;Sul Global\u201d e da<br>\u201cCoopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul&#8221;, sendo esta uma narrativa que carrega interesses chineses para dentro do continente.&nbsp; Por sua vez,<a href=\"https:\/\/jacobin.com\/2015\/12\/china-south-africa-imperialism-zambia-brics-globalization\"> Carmody (2015)<\/a> sustenta que o capital sul-africano e o chin\u00eas geralmente atuam juntos para explorar os recursos naturais e dominar os mercados na \u00c1frica. Tanto na \u00c1frica, quanto na<a href=\"http:\/\/www.celcuadernos.com.ar\/upload\/pdf\/2.%20Slipak%20y%20Ghiotto.pdf\"> Am\u00e9rica Latina<\/a>, alguns analisam as rela\u00e7\u00f5es com China como desiguais e dependentes de com\u00e9rcio e investimentos, servindo para garantir o abastecimento do pa\u00eds asi\u00e1tico com mat\u00e9rias primas e para promover a abertura de mercados para a venda de produtos de alta tecnologia e servi\u00e7os das empresas chinesas.Para o Brasil, esse \u00e9 um momento de oportunidades e desafios. Um BRICS forte e expandido \u00e9 bom para o Brasil como membro fundador&nbsp; do bloco e uma lideran\u00e7a regional na Am\u00e9rica do Sul. Ao mesmo tempo, o grupo aumenta sua forte base econ\u00f4mica em<a href=\"https:\/\/bricspolicycenter.org\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sumario-Executivo-Ambicao-Climatica-BRICS_WEB.pdf\"> energias f\u00f3sseis<\/a>, al\u00e9m de um maior d\u00e9ficit democr\u00e1tico, representando um desafio para o Brasil que busca, de um lado, ser protagonista nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e impulsionar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa, de outro, difundir ideias de democracia e direitos sociais, tal como pretende o atual governo de Lula. O pa\u00eds deve manter sua relativa autonomia diante das tens\u00f5es internacionais entre as pot\u00eancias, e negociar melhores termos nas rela\u00e7\u00f5es intra-BRICS. A transfer\u00eancia de tecnologia Sul-Sul e a coopera\u00e7\u00e3o efetiva em \u00e1reas como sa\u00fade, meio ambiente, agricultura e energia s\u00e3o fundamentais para alcan\u00e7ar melhores condi\u00e7\u00f5es sociais de vida e trabalho para a maioria de nossas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua recente reuni\u00e3o de C\u00fapula, o grupo formalizou seu convite a seis novos membros: Argentina, Ar\u00e1bia Saudita, Egito, Emirados \u00c1rabes Unidos, Eti\u00f3pia e Ir\u00e3, consolidando assim seu car\u00e1ter geopol\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"author":480,"featured_media":19369,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17012,16728,16762,16719,14507,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19376","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brics-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-relacoes-internacionais","12":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/480"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19376"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19376\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19369"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19376"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}