{"id":194,"date":"2019-05-23T19:18:54","date_gmt":"2019-05-23T22:18:54","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=194"},"modified":"2023-01-26T22:44:01","modified_gmt":"2023-01-27T01:44:01","slug":"heranca-e-pessimismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/heranca-e-pessimismo\/","title":{"rendered":"Heran\u00e7a e pessimismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Passam os caudilhos milagreiros, os militares no poder, as democracias (mais ou menos ap\u00f3crifas), as ditaduras modernizadoras, mas o atraso continua a dominar a vida de sociedades que n\u00e3o conseguem encurtar as dist\u00e2ncias (de produtividade e bem-estar) que as separam dos pa\u00edses que costumamos chamar de &#8220;desenvolvidos&#8221;. Houve algumas exce\u00e7\u00f5es de pa\u00edses atrasados que deram o salto para o desenvolvimento no final do s\u00e9culo 19 (no norte da Europa e Jap\u00e3o) e no final do s\u00e9culo 20 (no leste da \u00c1sia), mas na maior parte do mundo o atraso continua a ser uma maldi\u00e7\u00e3o capaz de amargar a exist\u00eancia de boa parte da humanidade, apesar da passagem do tempo, das diferentes pol\u00edticas econ\u00f4micas, das boas inten\u00e7\u00f5es de um e outro governante, ou das ocasionais bonan\u00e7as propiciadas pelo com\u00e9rcio de mat\u00e9rias-primas. Essa hist\u00f3ria est\u00e1 a ponto de se concluir? Quem pode afirmar que esse legado, como heran\u00e7a, n\u00e3o se prolongar\u00e1 pelas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es ou mesmo s\u00e9culos? <\/p>\n\n\n\n<p>Supondo que exista alguma for\u00e7a hist\u00f3rica destinada a conduzir os pa\u00edses para al\u00e9m do atraso (uma esp\u00e9cie de m\u00e3o invis\u00edvel mundial), seria preciso reconhecer que sua decolagem vem sendo na melhor das hip\u00f3teses lenta, se n\u00e3o err\u00e1tica, nos \u00faltimos s\u00e9culos. Os estigmas persistem apesar do tempo e da mudan\u00e7a das formas: institui\u00e7\u00f5es de baixa qualidade, pobreza generalizada e alta segmenta\u00e7\u00e3o social, al\u00e9m de atraso t\u00e9cnico e baixa competitividade. Nas sociedades avan\u00e7adas, hoje mais do que no passado, acontece que pessoas nascidas em fam\u00edlias pobres tenham alta probabilidade de continuar a s\u00ea-lo. E o mesmo vale para pa\u00edses inteiros. Por conta disso, o espa\u00e7o para o otimismo quanto ao futuro n\u00e3o \u00e9 muito amplo, digamos. O aforismo de Gramsci sobre o pessimismo da intelig\u00eancia e o otimismo da vontade se tornou famoso. Devemos acrescentar que, nos &#8220;Cadernos do C\u00e1rcere&#8221; (uma obra desordenada, tumultuosa e exuberante de ideias), ele insistia na necessidade de prote\u00e7\u00e3o contra aqueles que prometem, entre m\u00faltiplas patranhas, a abund\u00e2ncia iminente e solu\u00e7\u00f5es simples para todos os problemas existentes e que possam surgir. O otimismo pode ser uma forma de autoilus\u00e3o (um sedativo para a raz\u00e3o) t\u00e3o daninha quanto o pessimismo disfar\u00e7ado em sabedoria paciente. <\/p>\n\n\n\n<p>O atraso foi explicado de muitas formas \u2013pela baixa produtividade, pelo esp\u00edrito empreendedor escasso, pela lentid\u00e3o tecnol\u00f3gica, pela conex\u00e3o inadequada com o mercado internacional, pelo clima e pela localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica dos pa\u00edses. E tudo isso certamente tem algum grau de verdade, em combina\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis a depender dos momentos e dos pa\u00edses em quest\u00e3o. Ainda assim, como se o cen\u00e1rio n\u00e3o fosse suficientemente sombrio, existem outras circunst\u00e2ncias que tendem a amarrar os pa\u00edses &#8220;em vias de desenvolvimento&#8221; a um passado do qual n\u00e3o conseguem se emancipar plenamente, inclusive quando antenas parab\u00f3licas surgem nos telhados dos barracos marginais, ou shopping centers reluzentes revelam a presen\u00e7a de classes m\u00e9dias sedentas de s\u00edmbolos de seu bem-estar. As vestes mudam mas continuam a encobrir organismos sociais deformados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Os pa\u00edses que, em momentos distintos dos dois \u00faltimos s\u00e9culos, conseguiram dar um salto \u00e0 frente t\u00eam algo em comum: n\u00e3o passaram por per\u00edodos coloniais prolongados&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por que, em meio a um atraso que se metamorfoseia ao longo de gera\u00e7\u00f5es, seus tra\u00e7os prim\u00e1rios continuam inalterados? Registremos uma circunst\u00e2ncia que poderia ser relevante. Os pa\u00edses que, em momentos distintos dos dois \u00faltimos s\u00e9culos, conseguiram dar um salto \u00e0 frente t\u00eam algo em comum: n\u00e3o passaram por per\u00edodos coloniais prolongados. Se isso \u00e9 fato, como parece ser, por que uma experi\u00eancia colonial longa travaria, mesmo s\u00e9culos depois de ter sido superada, a sa\u00edda do atraso, em alguns pa\u00edses? Uma resposta pode estar na fenda de desconfian\u00e7a que a col\u00f4nia deixa na sociedade e institui\u00e7\u00f5es. Ser col\u00f4nia por um per\u00edodo prolongado implica a conforma\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/para-uma-democratizacao-internacional-da-desigualdade\/\">sociedades<\/a> que n\u00e3o podem crer nas institui\u00e7\u00f5es que as dominam, como se fossem um ente externo a elas mesmas. As institui\u00e7\u00f5es, por conseguinte, n\u00e3o podem ser cr\u00edveis aos olhos da sociedade e sobretudo aos olhos de seus setores mais pobres. Institui\u00e7\u00f5es opressivas que se reproduzem com o tempo, mesmo depois da col\u00f4nia, deixando uma cultura arraigada de depreda\u00e7\u00e3o impune contra os cidad\u00e3os que deveriam tutelar. Um componente entr\u00f3pico instalado no seio da sociedade que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o favorece mas frequentemente entorpece a a\u00e7\u00e3o coletiva, pela inefic\u00e1cia derivada do controle social escasso.<\/p>\n\n\n\n<p>A fenda entre sociedade e Estado criada nos s\u00e9culos de <a href=\"http:\/\/www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=5347&amp;Itemid=460\">col\u00f4nia<\/a> tende a persistir em longo prazo, mesmo que o pa\u00eds supere a condi\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia. Uma fenda de m\u00fatua desconfian\u00e7a. Esse sinal de origem forma uma corrente contr\u00e1ria que opera silenciosa e eficazmente ao longo dos s\u00e9culos. E a consequ\u00eancia \u00e9 que uma sociedade que, apesar de descontentamentos e conflitos, n\u00e3o se reconhece em suas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00f3 deixa de confiar em si mesma como tende a crer que o caminho da prosperidade pressup\u00f5e a apropria\u00e7\u00e3o institucional il\u00edcita da riqueza criada socialmente. Os regimes e as formas pol\u00edticas podem variar, mas o legado desagregador deixado por um passado colonial longo tende a se manter, apesar da mudan\u00e7a em suas formas. Uma corrente invis\u00edvel mas eficaz que v\u00ea efic\u00e1cia nas institui\u00e7\u00f5es como agente de desenvolvimento mas mant\u00e9m quanto a elas uma desconfian\u00e7a social persistente. Tendo isso em conta, quantas gera\u00e7\u00f5es ou s\u00e9culos ser\u00e3o necess\u00e1rios para neutralizar essa corrente contr\u00e1ria a todo esfor\u00e7o (por mais bem intencionado ou acertado que possa ser) de emancipar uma sociedade do atraso? Afinal de contas, um caminho firme rumo ao desenvolvimento requer a\u00e7\u00e3o combinada entre a sociedade e as institui\u00e7\u00f5es; a desconex\u00e3o sup\u00f5e inconsist\u00eancia e fragilidade incorporadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, se o afirmado acima procede, qualquer projeto s\u00f3lido de deixar para tr\u00e1s um longo passado de atraso requer efici\u00eancia e credibilidade das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Sem isso, toda tentativa se provar\u00e1 v\u00e3, mais cedo ou mais tarde. Mas existe outra corrente contr\u00e1ria, tamb\u00e9m secular, que vem da era colonial (e at\u00e9 de antes dela). Uma pesquisadora americana se refere a essa corrente como a falta de empatia social entre os diferentes estratos de uma mesma sociedade. Refiro-me a Judith Teichman, em seu &#8220;Social Forces and States. Poverty and Distributional Outcomes in South Korea, Chile and Mexico&#8221; (2012), onde ela compara Coreia do Sul, Chile e M\u00e9xico e chega \u00e0 conclus\u00e3o de que, nos dois \u00faltimos, a fragmenta\u00e7\u00e3o social deixada pela coloniza\u00e7\u00e3o consolidou uma falta de empatia entre diferentes grupos sociais, legado que impediu e continua impedindo que os setores sociais mais pobres fa\u00e7am valer seus interesses diante das decis\u00f5es das elites governantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outros termos, os pobres n\u00e3o recebem apoio da classe m\u00e9dia a fim de levar adiante suas demandas. A exist\u00eancia que existia no passado entre &#8220;criollos&#8221;, &#8220;mestizos&#8221; e ind\u00edgenas funciona secularmente como um fator de desconex\u00e3o social e, enfim, como obst\u00e1culo ao estabelecimento de mercados nacionais capazes de alimentar uma atividade econ\u00f4mica s\u00f3lida em longo prazo. J\u00e1 a Coreia do Sul, cuja condi\u00e7\u00e3o de col\u00f4nia do Jap\u00e3o durou &#8220;apenas&#8221; meio s\u00e9culo, preservou nexos fortes entre estratos sociais distintos, que conduziram at\u00e9 mesmo governos fortemente conservadores como o de Park Chung Hee a tomar decis\u00f5es orientadas a evitar segmenta\u00e7\u00f5es sociais persistentes e capazes de impedir o desenvolvimento de um mercado nacional integrado e din\u00e2mico, por exemplo no setor agr\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 absurdo dizer que, considerando a situa\u00e7\u00e3o com base em suas consequ\u00eancias de longo prazo, diversos governos conservadores do leste da \u00c1sia foram mais progressistas que muitos governos &#8220;revolucion\u00e1rios&#8221; da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluamos. Se a fenda que separa o Estado e a sociedade \u00e9\nduradoura; se n\u00e3o parecem existir rem\u00e9dios r\u00e1pidos para ela; e se a escassa\nempatia da classe m\u00e9dia e da classe alta pelos pobres rurais e urbanos est\u00e1\ndestinada a continuar sendo um fator que debilita a capacidade social de\npress\u00e3o sobre as institui\u00e7\u00f5es suas pol\u00edticas, estamos em uma situa\u00e7\u00e3o na qual\nas pol\u00edticas econ\u00f4micas, por mais acertadas que possam ser, est\u00e3o destinadas a\ndesempenhar papel menor do que a teoria econ\u00f4mica lhes designa. As sociedades\natrasadas e com um hist\u00f3rico colonial longo herdam fatores entr\u00f3picos que n\u00e3o\nimpedem o progresso mas impedem que o atraso seja deixado para tr\u00e1s. E \u00e9\nexatamente isso que dificulta contemplar o futuro com o otimismo desej\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passam os caudilhos milagreiros, os militares, as democracias (mais ou menos ap\u00f3crifas), as ditaduras modernizadoras, mas o atraso continua a dominar a vida de sociedades que n\u00e3o conseguem encurtar as dist\u00e2ncias com os pa\u00edses &#8220;desenvolvido&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":925,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16947,14382,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-194","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-internet-es-pt-br","8":"category-desenvolvimento","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/925"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}