{"id":1940,"date":"2020-07-16T06:26:50","date_gmt":"2020-07-16T09:26:50","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1940"},"modified":"2024-06-24T09:20:03","modified_gmt":"2024-06-24T12:20:03","slug":"o-racha-no-mercosul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-racha-no-mercosul\/","title":{"rendered":"O racha no Mercosul"},"content":{"rendered":"\n<p>Al\u00e9m dos efeitos da Covid-19 sobre as economias do Mercosul, os pa\u00edses membros do bloco comercial se encontram em um momento cr\u00edtico de seu relacionamento, no momento em que o Uruguai inicia seu per\u00edodo na presid\u00eancia da organiza\u00e7\u00e3o. O Brasil, pa\u00eds l\u00edder do bloco, desenvolveu uma pol\u00edtica externa contradit\u00f3ria. Por um lado, se mostra advers\u00e1rio da globaliza\u00e7\u00e3o em muitos temas da agenda internacional e, por outro, partid\u00e1rio de uma liberaliza\u00e7\u00e3o comercial ampla em um momento de protecionismo mundial. Em termos de pol\u00edtica comercial, o Brasil de Bolsonaro insinuou estar mais interessado no relacionamento bilateral com pa\u00edses desenvolvidos do que em trabalhar pela integra\u00e7\u00e3o regional. No caso do Mercosul, o Brasil pleiteia por uma abertura comercial ampla como \u201ccondi\u00e7\u00e3o\u201d para se manter como integrante ativo do grupo, posi\u00e7\u00e3o que o conduziu a um confronto com o novo governo argentino de Alberto Fern\u00e1ndez, que n\u00e3o baseia sua pol\u00edtica econ\u00f4mica na \u201cmagia\u201d do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ser ou n\u00e3o ser sul-americano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As inten\u00e7\u00f5es declaradas do atual governo brasileiro em termos de prefer\u00eancia pelo bilateralismo ante o regionalismo reconduzem a pol\u00edtica externa e comercial do Brasil ao tempo dos governos autorit\u00e1rios do pa\u00eds. E de fato Bolsonaro chegou a considerar seriamente a possibilidade de deixar o Mercosul, apesar do sucesso obtido no ano passado \u2013 depois de 20 anos de conversa\u00e7\u00f5es \u2013 nas negocia\u00e7\u00f5es para um acordo entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o governo de Bolsonaro se inclina por um alinhamento pol\u00edtico com os Estados Unidos apesar da pol\u00edtica comercial altamente protecionista do governo Trump, que afeta at\u00e9 mesmo as exporta\u00e7\u00f5es de mercadorias importantes para o Brasil, como o a\u00e7o. Um paradoxo nesse alinhamento pol\u00edtico (conservador) com a pot\u00eancia do norte \u00e9 que ele n\u00e3o \u00e9 necessariamente favor\u00e1vel \u00e0 pol\u00edtica de maior liberdade comercial defendida pelo governo Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Maior ou menor abertura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito regional, a pol\u00edtica comercial adotada pelas autoridades econ\u00f4micas do Brasil se defronta com um governo argentino que caminha em sentido contr\u00e1rio, depois de quase 10 anos de estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e dos efeitos negativos que isso exerceu sobre o setor industrial.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo de Fern\u00e1ndez na Argentina adotou uma postura cr\u00edtica com rela\u00e7\u00e3o a certas concess\u00f5es feitas pelo Mercosul \u2013 no setor industrial e de servi\u00e7os \u2013 para a conclus\u00e3o do acordo no ano passado. E embora tenha por fim aceitado o acordo, o atual governo n\u00e3o est\u00e1 disposto a manter a mesma linha durante as negocia\u00e7\u00f5es que o Mercosul est\u00e1 realizando com pa\u00edses como o Canad\u00e1, Coreia do Sul, Cingapura e outros. A retirada da Argentina dessas negocia\u00e7\u00f5es foi um claro sinal ao Brasil de que o momento n\u00e3o favorece uma continua\u00e7\u00e3o da abertura das economias do Mercosul a pa\u00edses mais desenvolvidos, porque Buenos Aires considera que os termos de com\u00e9rcio n\u00e3o ser\u00e3o favor\u00e1veis aos pa\u00edses do Mercosul.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferen\u00e7as dentro do bloco se trasladaram tamb\u00e9m \u00e0s discuss\u00f5es em curso sobre a proposta brasileira para uma redu\u00e7\u00e3o unilateral das tarifas externas, com o objetivo de avan\u00e7ar, de acordo com as autoridades econ\u00f4micas do Brasil, de um \u201cregionalismo fechado\u201d a um \u201cregionalismo aberto\u201d. Em outras palavras, o governo brasileiro n\u00e3o est\u00e1 disposto a se limitar ao cronograma de redu\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria acertado para os pa\u00edses com que o Mercosul j\u00e1 assinou acordos de livre com\u00e9rcio, e busca uma maior presen\u00e7a comercial do Mercosul no mundo por meio de um desencargo tarif\u00e1rio unilateral e mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia encontrou forte resist\u00eancia por parte do governo argentino, que conseguiu, durante as negocia\u00e7\u00f5es conduzidas durante o per\u00edodo de presid\u00eancia pelo Paraguai, e ajudado por forte press\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es setoriais da ind\u00fastria argentina e brasileira, evitar que a proposta do Brasil avan\u00e7asse em dire\u00e7\u00e3o a uma decis\u00e3o comum. Mesmo assim, a ideia n\u00e3o foi abandonada e certamente voltar\u00e1 a ser debatida durante a presid\u00eancia do Uruguai. Com isso, antecipa-se para este semestre um confronto aberto entre os dois grandes do Mercosul sobre a abertura comercial regional.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio dessa disputa ficam os dois parceiros menores, cujas posi\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais pr\u00f3ximas da brasileira, porque as economias de ambos, especialmente a do Paraguai, s\u00e3o muito abertas. Ainda assim, um maior n\u00famero de acordos entre o Mercosul e pa\u00edses desenvolvidos e uma pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o tarif\u00e1ria unilateral como a proposta pelo Brasil poderiam gerar perdas para os industriais do Paraguai e do Uruguai n\u00e3o s\u00f3 em seus mercados mas tamb\u00e9m no mercado brasileiro, o principal destino das exporta\u00e7\u00f5es industriais de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>O grande distanciamento que existe entre os governos do Brasil e da Argentina quanto \u00e0 pol\u00edtica comercial e o futuro do Mercosul n\u00e3o tem precedentes desde a assinatura do Tratado de Assun\u00e7\u00e3o em 1991. Os chefes de Estado de ambos os pa\u00edses, totalmente concentrados em seus problemas nacionais, n\u00e3o dialogam sobre temas de interesse regional.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Brasil, Bolsonaro iniciou uma luta contra o Congresso, o Supremo Tribunal e os governos estaduais por conta da Covid-19 e outros temas, o que provocou uma crise em seu gabinete e uma crise de governabilidade. Enquanto isso, na Argentina, o governo, depois de enfrentar a pandemia, est\u00e1 envolvido em complicadas negocia\u00e7\u00f5es para evitar o colapso total das finan\u00e7as p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por quanto tempo persistir\u00e1 o distanciamento entre os grandes do Mercosul? \u00c9 poss\u00edvel continuar avan\u00e7ando nas diversas agendas do Mercosul enquanto o Brasil est\u00e1 debilitado internamente e a Argentina enfrenta graves problemas econ\u00f4micos? Seria preciso avaliar que custos e benef\u00edcios a pol\u00edtica proposta acarretaria. Enquanto isso, as vozes que defendem uma flexibiliza\u00e7\u00e3o comercial e institucional se fazem ouvir com cada vez mais for\u00e7a na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Sedronar Prensa em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m dos efeitos da Covid-19 sobre as economias do Mercosul, os pa\u00edses membros do bloco comercial se encontram em um momento cr\u00edtico de seu relacionamento. 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