{"id":1948,"date":"2020-07-17T07:21:13","date_gmt":"2020-07-17T10:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=1948"},"modified":"2024-06-21T07:49:47","modified_gmt":"2024-06-21T10:49:47","slug":"fukuyama-modelo-2020-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/fukuyama-modelo-2020-2\/","title":{"rendered":"Fukuyama, modelo 2020"},"content":{"rendered":"\n<p><em>H\u00e1 75 anos, ela deu origem \u00e0 Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, um pilar da ordem internacional liberal contempor\u00e2nea que muitos analistas e l\u00edderes &#8211; incluindo os pr\u00f3prios Estados Unidos &#8211; agora consideram esgotada. A evoca\u00e7\u00e3o daquela Confer\u00eancia de S\u00e3o Francisco da qual surgiu o mundo do p\u00f3s-guerra nos encontrou imersos na pior pandemia dos \u00faltimos cem anos, e seus impactos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos globais ainda n\u00e3o podem ser devidamente avaliados. Ser\u00e1 que entramos em uma ordem internacional p\u00f3s-liberal, ou em mera anarquia pura, sem regras e normas universalmente reconhecidas pelos estados e governos? Que impacto a pandemia tem sobre este cen\u00e1rio de transi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O cientista pol\u00edtico Francis Fukuyama, especialista em estabelecer pontos de virada na hist\u00f3ria, nos guia atrav\u00e9s do impacto da pandemia no sistema internacional e na ordem pol\u00edtica na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Foreign Affairs, a revista de rela\u00e7\u00f5es internacionais publicada em Nova Iorque, onde escreve sobre &#8220;A pandemia e a ordem pol\u00edtica&#8221;. O subt\u00edtulo em quatro palavras o resume: \u00e9 necess\u00e1rio um Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O Fukuyama do &#8220;fim da hist\u00f3ria&#8221; de 30 anos atr\u00e1s j\u00e1 se foi h\u00e1 muito tempo. Ele pr\u00f3prio tomou para si a tarefa de repensar suas hip\u00f3teses e negar suas implica\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 1990, quando se partiu do princ\u00edpio de que as batalhas ideol\u00f3gicas tinham terminado e o capitalismo liberal foi entronizado como o est\u00e1gio superior do progresso mundial e da globaliza\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, ele argumentou que a constru\u00e7\u00e3o de capacidade estatal seria uma das chaves para o mundo do futuro. Ele tomou o exemplo da epidemia de AIDS na \u00c1frica para ver que o problema n\u00e3o era tanto a falta de recursos como a aus\u00eancia de uma infra-estrutura s\u00f3lida para a sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e conhecimento da epidemiologia da doen\u00e7a em regi\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, Fukuyama nos d\u00e1 seu &#8220;modelo 2020&#8221;, atualizando esse diagn\u00f3stico nesta nova pandemia &#8211; de coronav\u00edrus &#8211; que est\u00e1 varrendo a humanidade. Ser\u00e1 esta a passagem do neoliberalismo para um novo estado de coisas? Ou ser\u00e1 antes uma quest\u00e3o de pensar de forma menos bin\u00e1ria sobre as op\u00e7\u00f5es, percebendo a magnitude da mudan\u00e7a que ser\u00e1 necess\u00e1ria para responder ao desafio da recupera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pand\u00eamica?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As grandes crises t\u00eam grandes consequ\u00eancias, geralmente imprevistas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 o que diz o influente cientista pol\u00edtico americano: &#8220;As grandes crises t\u00eam grandes consequ\u00eancias, geralmente imprevistas. A Grande Depress\u00e3o encorajou o isolacionismo, o nacionalismo, o fascismo e a Segunda Guerra Mundial, mas tamb\u00e9m levou ao New Deal, \u00e0 emerg\u00eancia dos Estados Unidos como uma superpot\u00eancia global e, finalmente, \u00e0 descoloniza\u00e7\u00e3o. Os ataques de 11 de setembro produziram duas interven\u00e7\u00f5es fracassadas dos EUA, a ascens\u00e3o do Ir\u00e3 e novas formas de radicalismo isl\u00e2mico. A crise financeira de 2008 gerou uma onda de populismo <em>anti-establishment<\/em> que substituiu l\u00edderes no todo o mundo. Os historiadores do futuro tra\u00e7ar\u00e3o efeitos relativamente grandes para a atual pandemia de coronav\u00edrus; o desafio \u00e9 resolv\u00ea-los com anteced\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Fukuyama argumenta que alguns pa\u00edses responderam melhor que outros na gest\u00e3o da crise at\u00e9 agora, e que isto n\u00e3o depende necessariamente de seu tipo de regime pol\u00edtico: &#8220;Algumas democracias funcionaram bem, mas outras n\u00e3o, e o mesmo se aplica a autocracias. Os fatores respons\u00e1veis pelo sucesso das respostas \u00e0 pandemia t\u00eam sido a capacidade estatal, a confian\u00e7a social e a lideran\u00e7a. Pa\u00edses com todos os tr\u00eas &#8211; um aparelho estatal competente, um governo no qual os cidad\u00e3os confiam e escutam, e l\u00edderes eficazes -, tiveram um desempenho impressionante, limitando os danos que sofreram. Pa\u00edses com estados disfuncionais, sociedades polarizadas ou lideran\u00e7as pobres t\u00eam se sa\u00eddo mal, deixando seus cidad\u00e3os e economias expostos e vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O mapa das Am\u00e9ricas, onde a pandemia tem se espalhado com f\u00faria nas \u00faltimas semanas, ap\u00f3s ter atingido o continente europeu, mostra essas disparidades. Os dois maiores pa\u00edses do continente &#8211; Estados Unidos e Brasil &#8211; s\u00e3o governados por presidentes que se mostraram incompetentes diante das crises sanit\u00e1rias, o que agita a polariza\u00e7\u00e3o social e agrava os danos. N\u00e3o por acaso, sua ret\u00f3rica nacionalista vai de m\u00e3os dadas com sua pol\u00edtica internacional que \u00e9 refrat\u00e1ria \u00e0 ordem internacional liberal e ao multilateralismo. As consequ\u00eancias est\u00e3o \u00e0 vista de todos. O julgamento de Fukuyama sobre Jair Bolsonaro \u00e9 lapid\u00e1rio: &#8220;Ele esvaziou constantemente as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas de seu pa\u00eds, tentou trabalhar para superar a crise, e agora ele est\u00e1 cambaleando e presidindo um desastre sanit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A an\u00e1lise deixa uma janela de otimismo neste cen\u00e1rio dram\u00e1tico. Ela come\u00e7a reconhecendo que muitas vezes foi necess\u00e1rio um choque externo, t\u00e3o grande ao ponto de tirar os sistemas pol\u00edticos de sua esclerose e estagna\u00e7\u00e3o, e assim criar as condi\u00e7\u00f5es para uma reforma estrutural, e que este padr\u00e3o provavelmente se repetir\u00e1, pelo menos em alguns lugares: &#8220;As realidades pr\u00e1ticas da gest\u00e3o pand\u00eamica favorecem o profissionalismo e a especializa\u00e7\u00e3o; a demagogia e a incompet\u00eancia s\u00e3o facilmente expostas. Em \u00faltima an\u00e1lise, isto deve criar um efeito de sele\u00e7\u00e3o ben\u00e9fico, recompensando pol\u00edticos e governos que se saem bem e penalizando aqueles que se saem mal.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Dimarga em Foter.com \/ CC BY<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;As grandes crises t\u00eam grandes consequ\u00eancias, geralmente imprevistas. 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