{"id":19497,"date":"2023-09-14T08:00:00","date_gmt":"2023-09-14T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19497"},"modified":"2023-09-13T18:36:15","modified_gmt":"2023-09-13T21:36:15","slug":"o-estranho-caso-dos-9000-mortos-desaparecidos-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-estranho-caso-dos-9000-mortos-desaparecidos-em-cuba\/","title":{"rendered":"O estranho caso dos 9.000 mortos desaparecidos em Cuba"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 25 de janeiro, a conta do X do Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edstica e Informa\u00e7\u00e3o de Cuba (ONEI) informou sobre uma entrevista que Andrea Rodr\u00edguez, correspondente da AP no pa\u00eds, fez ao vice-diretor dessa institui\u00e7\u00e3o, Juan Carlos Alfonso Fraga. Dentre as cifras reveladas na referida entrevista, a jornalista usou tr\u00eas para um artigo que publicou em 22 de fevereiro sobre a atual situa\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica cubana. Essas cifras s\u00e3o a da popula\u00e7\u00e3o de Cuba em 31 de dezembro de 2022: 11.089.500; a do n\u00famero de pessoas falecidas nesse ano: 129.049; e a dos nascimentos: 95.402.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quatro meses depois, em 19 de maio, a institui\u00e7\u00e3o de estat\u00edstica oficial cubana apresentou seu relat\u00f3rio demogr\u00e1fico de 2022: <em>Indicadores Demogr\u00e1ficos de Cuba e seus Territ\u00f3rios 2022<\/em>. Nele, enquanto que em compara\u00e7\u00e3o com o que Alfonso Fraga revelou \u00e0 AP, o n\u00famero de nascimentos aumentou em um (para 95.403) e o de habitantes em 11 (para 11.089.511), no caso dos falecimentos a varia\u00e7\u00e3o foi em compara\u00e7\u00e3o desproporcional, e para baixo. Dos 129.049 falecidos revelados em janeiro pelo vice-diretor da ONEI, o n\u00famero caiu para 120.098, ou seja,<a href=\"https:\/\/www.cubaencuentro.com\/cuba\/articulos\/desaparecen-9-000-muertos-en-cuba-342524\"> uma queda de 8.951 falecimentos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida, as cifras podem e devem variar \u00e0 medida que as informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o ampliadas e refinadas, como, por exemplo, a varia\u00e7\u00e3o do n\u00famero de nascimentos. No entanto, em primeiro lugar, \u00e9 muito improv\u00e1vel uma varia\u00e7\u00e3o de tal magnitude, como a que vemos no caso dos falecimentos &#8211; que despencaram cerca de 7% &#8211; e, em segundo lugar, embora seja compreens\u00edvel que os registros possam aumentar, j\u00e1 que os nascimentos e falecimentos que n\u00e3o foram registrados a tempo s\u00e3o gradualmente contabilizados, n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel que eles diminuam. N\u00e3o h\u00e1, portanto, nenhuma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para um erro estat\u00edstico como esse &#8211; o dem\u00f3grafo Juan Carlos Albizu-Campos Espi\u00f1eira o chamou de &#8220;horror estat\u00edstico&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse sobre-registro inicial poderia ser atribu\u00eddo, por exemplo, ao fato de que as pessoas falecidas fora de seu local de resid\u00eancia foram contabilizadas em dois lugares ao mesmo tempo, e somente um pouco mais tarde o erro poderia ter sido corrigido pela compara\u00e7\u00e3o das respectivas listas. Mas isso \u00e9 imposs\u00edvel em Cuba, onde todos os cidad\u00e3os t\u00eam uma carteira de identidade e o procedimento para certificar as mortes \u00e9 claro: onde quer que ocorram, os falecimentos s\u00e3o registrados no munic\u00edpio de resid\u00eancia que aparece na carteira de identidade do falecido, portanto n\u00e3o h\u00e1 como um n\u00famero t\u00e3o grande de mortes ter sido contabilizado em dois lugares ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Cuba, todas as pessoas que nascem ou morrem s\u00e3o registradas de acordo com um procedimento legal expedito, portanto, \u00e9 imposs\u00edvel acreditar em um erro t\u00e3o massivo. Estamos falando de um pa\u00eds em que o Estado, do qual a ONEI \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o estat\u00edstica oficial, administra todas as maternidades, bem como as funer\u00e1rias e cemit\u00e9rios. Cuba n\u00e3o \u00e9 a \u00cdndia, nem mesmo os Estados Unidos: aqui nenhum cidad\u00e3o anda inteiramente por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>O evidente \u00e9 que, com um excesso de mortes de cerca de 52.000 em 2021 (j\u00e1 que o n\u00famero de mortes aumentou de 112.441 em 2020 para 167.645), o governo de Miguel D\u00edaz-Canel n\u00e3o poderia estar muito satisfeito com o fato de que algo semelhante se repetiria em 2022 e, portanto, se refletiria nas estat\u00edsticas demogr\u00e1ficas. Para come\u00e7ar, 129.049 falecimentos em 2022 significariam entre 9.000 e 12.000 mortes a mais do que seria esperado em Cuba se a tend\u00eancia de mortalidade anterior \u00e0 chegada da pandemia tivesse sido mantida. Em outras palavras, estamos falando de um excesso de mortes, que \u00e9 a vari\u00e1vel usada pela OMS para medir o verdadeiro efeito da pandemia (al\u00e9m dos n\u00fameros oficiais sempre duvidosos, especialmente em estados autorit\u00e1rios ou totalit\u00e1rios), entre 44 e 58 vezes maior do que as 207 pessoas oficialmente relatadas pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade P\u00fablica (MINSAP) como tendo falecido de covid em 2022. Portanto, se as 129.049 mortes relatadas por Alfonso Fraga \u00e0 AP em janeiro tivessem sido mantidas nas estat\u00edsticas oficiais, Cuba seria mais uma vez questionada pela enorme diferen\u00e7a entre as cifras oficiais de falecimentos por covid e o excesso de mortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, al\u00e9m da d\u00favida geral sobre a credibilidade das cifras tornadas p\u00fablicas pelo Estado cubano nesse caso espec\u00edfico, havia um problema mais profundo com as 129.049 mortes. O fato \u00e9 que, enquanto em 2021 os estragos da pandemia em Cuba, refletidos no excesso de mortes, podiam ser compreendidos, em 2022 n\u00e3o. Porque, embora durante a maior parte de 2021 a popula\u00e7\u00e3o cubana n\u00e3o tenha sido imunizada, com as vacinas cubanas no in\u00edcio de 2022, a porcentagem de cubanos totalmente imunizados, com todas as muitas doses recomendadas, chegou a mais de 90%. Como ent\u00e3o podemos explicar que em 2022 tenha sido alcan\u00e7ado um excesso de mortes entre 9.000 e 12.000?<\/p>\n\n\n\n<p>Para que se entenda, essa quantidade de mortes acima do que deveria ter sido esperado de acordo com as tend\u00eancias de mortalidade pr\u00e9vias <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/cuba-e-a-pandemia-entre-a-vacina-e-a-miseria\/\">\u00e0 chegada da pandemia<\/a> seria equivalente a entre 81 e 108 mortes por 100.000 habitantes, atribu\u00edveis \u00e0 covid &#8211; diretamente ou em seus efeitos colaterais -, pelo menos de acordo com a metodologia escolhida pela OMS para medir os efeitos da pandemia. Um valor n\u00e3o t\u00e3o alto, mas que um n\u00famero significativo de pa\u00edses, mesmo com uma popula\u00e7\u00e3o t\u00e3o ou mais envelhecida que a cubana, j\u00e1 havia conseguido manter desde antes de iniciar seu processo de imuniza\u00e7\u00e3o artificial.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os 129.049 falecidos em 2022 colocaram em d\u00favida a efic\u00e1cia das vacinas cubanas, algo que n\u00e3o poderia ser permitido por um governo que apostou tudo nelas, inclusive o futuro desenvolvimento de sua ind\u00fastria farmac\u00eautica. N\u00e3o era apenas a credibilidade das vacinas que estava em jogo, mas tamb\u00e9m a do presidente, de seu governo e at\u00e9 mesmo da &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;, porque, no fim das contas, a ind\u00fastria farmac\u00eautica cubana, que teria sido a respons\u00e1vel por uns resultados em todo caso t\u00e3o duvidosos, \u00e9 obra do Comandante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se se queria salvar a cada vez menor credibilidade de tudo isso, teria que mudar a cifra de janeiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio de 2022, a porcentagem de cubanos totalmente imunizados era superior a 90%. Ent\u00e3o, como explicar o excesso de mortes entre 9.000 e 12.000 em 2022?<\/p>\n","protected":false},"author":456,"featured_media":19487,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16899,16773,16794,16719,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19497","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cuba-es-pt-br","8":"category-autoritarismo-pt-br","9":"category-desinformacion-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19497","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/456"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19497"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19497\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19497"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19497"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19497"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19497"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}