{"id":19534,"date":"2023-09-17T08:00:00","date_gmt":"2023-09-17T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19534"},"modified":"2023-09-16T11:48:50","modified_gmt":"2023-09-16T14:48:50","slug":"o-brics-e-a-politica-externa-do-governo-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-brics-e-a-politica-externa-do-governo-lula\/","title":{"rendered":"O BRICS e a pol\u00edtica externa do Governo Lula"},"content":{"rendered":"\n<p>O BRICS tem funcionado como uma das plataformas centrais para o governo Lula. Nela, ele busca avan\u00e7ar a ideia de maior participa\u00e7\u00e3o e representatividade dos pa\u00edses do Sul global no processo decis\u00f3rio internacional. O<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-expansao-dos-brics\/\"> convite para que seis pa\u00edses se juntassem aos BRICS<\/a>, feito na XV C\u00fapula na \u00c1frica do Sul que chegou ao fim no dia 24 de agosto, deve ser entendido no marco desse movimento de busca de maior representatividade econ\u00f4mica, pol\u00edtica e geogr\u00e1fica por parte do agrupamento. Afinal, se o convite for aceito, a partir de janeiro o agrupamento passar\u00e1 a contar com mais um pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina, a Argentina, mais dois pa\u00edses do continente africano, o Egito e a Eti\u00f3pia, e tr\u00eas pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio, grandes produtores de petr\u00f3leo, Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita e Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Embora a amplia\u00e7\u00e3o se projetasse como um caminho previs\u00edvel dos BRICS, <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/articulos\/2014-el-acuerdo-de-los-brics-tomando-el-toro-por-las-astas\">a aprova\u00e7\u00e3o dos 6 pa\u00edses<\/a> antes mesmo da defini\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios surpreendeu. A surpresa pode ser atribu\u00edda, em grande medida, \u00e0<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/ucrania-um-ano-depois-perspectivas-do-conflito\/\"> Guerra na Ucr\u00e2nia<\/a>, um evento que apesar de determinante para o ingresso dos novos membros, acabou funcionando como uma agenda invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo que o presidente russo, Vladimir Putin, n\u00e3o p\u00f4de comparecer \u00e0 C\u00fapula devido ao risco de ser preso pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra, o conflito na Ucr\u00e2nia estava presente e ausente ao mesmo tempo.&nbsp; Ausente porque foi um tema evitado devido ao fato da R\u00fassia, pot\u00eancia que violou a soberania da Ucr\u00e2nia, integrar os BRICS. E presente, porque em fun\u00e7\u00e3o do conflito que levou ao relativo insulamento diplom\u00e1tico da R\u00fassia e ao acirramento das rivalidades entre China e Estados Unidos, esses dois pa\u00edses precisam de aliados geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos para balancear o poder dos Estados Unidos e do bloco ocidental.<\/p>\n\n\n\n<p>A assimetria de poder no interior dos BRICS em favor da R\u00fassia e, principalmente, da China, por sua vez, criou as condi\u00e7\u00f5es para que ambas as pot\u00eancias impusessem sua agenda sobre pa\u00edses como o Brasil que, se por um lado, defendia por princ\u00edpio um bloco cada vez mais inclusivo, via com hesita\u00e7\u00e3o uma inclus\u00e3o alargada e desordenada de membros que pudesse n\u00e3o apenas faz\u00ea-lo desfazer seu protagonismo como gerar problemas de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ao mesmo tempo, a Guerra na Ucr\u00e2nia vem impulsionando as ambi\u00e7\u00f5es, operacionalmente complexas, de desdolariza\u00e7\u00e3o da economia, uma reivindica\u00e7\u00e3o do governo Lula. As san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas \u00e0 R\u00fassia, incluindo o acesso do Banco Central russo \u00e0s reservas em d\u00f3lar e sua expuls\u00e3o do sistema de pagamentos Swift, vem demonstrando a disposi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos para transformar o d\u00f3lar e o sistema financeiro internacional em armas de guerra. Essa securitiza\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar pode ter um efeito boomerang contra a pr\u00f3pria hegemonia desfrutada pelo d\u00f3lar desde o fim da Segunda Guerra, uma vez que pode contribuir para alavancar a busca de lastros alternativos mais confi\u00e1veis e menos sujeitos \u00e0 chantagem em momentos de instabilidade geopol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, o Brasil se encontra num equil\u00edbrio delicado: de um lado, apoia tanto a amplia\u00e7\u00e3o dos BRICS como a desdolariza\u00e7\u00e3o da economia visando movimentar o sistema de forma centr\u00edfuga para multipolaridade, ou seja, para um sistema onde existiriam v\u00e1rios polos de poder, mas, por outro lado, pode se tornar ref\u00e9m de uma ordem cada vez mais bipolarizada em dois polos antag\u00f4nicos de poder. Assim, o Brasil se v\u00ea diante da dif\u00edcil tarefa de contribuir para abrir um espa\u00e7o dial\u00f3gico, de articula\u00e7\u00e3o multilateral, onde os pa\u00edses do Sul Global possam atuar com relativa autonomia em rela\u00e7\u00e3o aos grandes centros de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil vem demandando coer\u00eancia da China e da R\u00fassia em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios objetivos de democratiza\u00e7\u00e3o do sistema internacional orientadores dos BRICS e abrindo frestas para alavancar algumas das suas agendas hist\u00f3ricas, como \u00e9 caso da reforma do Conselho de Seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrada dos novos membros nos BRICS, por exemplo, foi a deixa encontrada pelo Brasil para conseguir uma declara\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da R\u00fassia e da China, como consta na Declara\u00e7\u00e3o Final da C\u00fapula, em favor da democratiza\u00e7\u00e3o do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU com a entrada do Brasil, mas tamb\u00e9m da \u00cdndia e da \u00c1frica do Sul. Nesse sentido, conv\u00e9m destacar que, a despeito da entrada nos BRICS de uma s\u00e9rie de Estados com hist\u00f3ricos de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e autoritarismo, o Brasil foi bem sucedido em negociar a abertura de um espa\u00e7o na declara\u00e7\u00e3o onde os termos democracia e direitos humanos estivem presentes e que sublinhasse a import\u00e2ncia de implement\u00e1-los tanto no n\u00edvel da governan\u00e7a global como no n\u00edvel nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil conseguiu ainda incluir um aliado regional no agrupamento, a Argentina. Ainda n\u00e3o est\u00e1 claro se a Argentina vai, de fato, aderir ao agrupamento, tendo em vista que Javier Milei, favorito nas prim\u00e1rias argentinas, tem se pronunciado contra a ades\u00e3o do pa\u00eds ao bloco afirmando que n\u00e3o se unir\u00e1 aos \u201ccomunistas\u201d, tem destilado \u00f3dio \u00e0 China e, na contram\u00e3o dos BRICS, vem propondo a dolariza\u00e7\u00e3o da economia do pa\u00eds. Nesse sentido, se for anunciado que a Argentina est\u00e1 aderindo aos BRICS em janeiro, talvez possamos ao mesmo tempo concluir que tivemos uma outra pequena vit\u00f3ria do Brasil. Despolarizar e abrir terreno para o di\u00e1logo e a pol\u00edtica num cen\u00e1rio em que todas as alternativas parecem esgotadas diante da insist\u00eancia dos Estados Unidos e da R\u00fassia em resolver seus conflitos pela via militar parece ser uma das vias produtivas que se abre para o Brasil, para a Am\u00e9rica Latina e para o Sul Global. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O BRICS tem sido uma das plataformas centrais do governo Lula, atrav\u00e9s da qual busca avan\u00e7ar a ideia de maior participa\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do Sul global no processo internacional.<\/p>\n","protected":false},"author":193,"featured_media":19523,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17012,16719,14507,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19534","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brics-pt-br","8":"category-debates-pt-br","9":"category-relacoes-internacionais","10":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/193"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19534\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19523"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19534"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}