{"id":19571,"date":"2023-09-18T08:00:00","date_gmt":"2023-09-18T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=19571"},"modified":"2023-09-18T12:08:29","modified_gmt":"2023-09-18T15:08:29","slug":"a-propaganda-golpista-volta-a-campanha-eleitoral-na-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-propaganda-golpista-volta-a-campanha-eleitoral-na-argentina\/","title":{"rendered":"A propaganda golpista volta \u00e0 campanha eleitoral na Argentina"},"content":{"rendered":"\n<p>Na Argentina, o discurso da ditadura substitui a hist\u00f3ria. \u00c0s v\u00e9speras do que parecia ser uma das elei\u00e7\u00f5es presidenciais mais relevantes desde a volta da democracia em 1983, vemos uma novidade: <a href=\"https:\/\/es.ara.cat\/internacional\/america\/ultraderecha-favorita-inicio-campana-electoral-argentina_1_4791018.html\">a propaganda da velha ditadura militar<\/a> se repete na campanha e o debate hist\u00f3rico \u00e9 relegado ao esquecimento. Volta-se \u00e0 ideia de \u201cexcessos\u201d, que nega concretamente a realidade do passado: o plano sistem\u00e1tico de exterm\u00ednio e seus crimes lesa humanidade que desencadearam os julgamentos dos militares a partir de 1985. N\u00e3o h\u00e1 nada original nisso e, em vez disso, representa uma nova tend\u00eancia latino-americana de negacionismo hist\u00f3rico. Jair Bolsonaro, no Brasil, e Jos\u00e9 Antonio Kast, no Chile, fizeram o mesmo ao justificar suas respectivas ditaduras.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual candidata argentina \u00e0 vice-presid\u00eancia de La Libertad Avanza e futura encarregada das \u00e1reas de defesa e seguran\u00e7a interna, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2023\/09\/manifestantes-criticam-vice-de-milei-por-ato-negacionista-da-ditadura-na-argentina.shtml\">Victoria Villarruel, est\u00e1 tentando reformular a viol\u00eancia n\u00e3o estatal dos anos 1970, revitalizando o papel da ditadura<\/a>. Essa n\u00e3o interpreta\u00e7\u00e3o da Junta n\u00e3o \u00e9 exclusiva de Villarruel, mas tamb\u00e9m de seu companheiro de chapa, Javier Milei, que disse ao <em>The Economist<\/em>: \u201cHouve uma guerra entre um grupo de subversivos que queriam impor uma ditadura comunista e, do outro lado, estavam as for\u00e7as de seguran\u00e7a, que se excederam em suas a\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na realidade, a chamada \u201cguerra suja\u201d n\u00e3o foi uma guerra de verdade, mas uma militariza\u00e7\u00e3o ilegal da repress\u00e3o estatal. Trata-se de uma express\u00e3o popularizada que precisa ser explicada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 genealogia fascista do pa\u00eds. A Guerra Suja n\u00e3o teve dois combatentes como protagonistas, mas v\u00edtimas e perpetradores. O Estado travou a \u201cguerra\u201d contra seus cidad\u00e3os. Esse terror autorizado pelo Estado teve suas ra\u00edzes nos movimentos fascistas dos anos entre guerras. Os historiadores falam de terrorismo de Estado, enquanto Villaruel afirma que \u201cO terrorismo de Estado n\u00e3o existe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Villaruel e Milei afirmam que a viol\u00eancia estatal, embora excessiva, foi justificada e seus efeitos salvaram o pa\u00eds de uma ditadura comunista. Repetem os argumentos dos ditadores e a ideologia do fascismo na Argentina. Negar o desaparecimento sistem\u00e1tico de dezenas de milhares de pessoas; o homic\u00eddio, sequestro, deten\u00e7\u00e3o indefinida, tortura e estupro de outros milhares; o roubo e a pilhagem da propriedade privada dos desaparecidos, sequestrados e seus familiares; o sequestro, a reten\u00e7\u00e3o e a comercializa\u00e7\u00e3o de beb\u00eas e crian\u00e7as dos desaparecidos e a constru\u00e7\u00e3o, a n\u00edvel nacional, de uma rede clandestina de campos de concentra\u00e7\u00e3o e classifica-lo como \u201ca\u00e7\u00e3o excessiva\u201d \u00e9, no melhor dos casos, ignor\u00e2ncia e, no pior, encobrimento. \u00c9 a mesma l\u00f3gica de Trump nos EUA e de Bolsonaro no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, a viol\u00eancia pol\u00edtica n\u00e3o estatal na Argentina fazia parte de um processo sociopol\u00edtico global e n\u00e3o era protagonizada s\u00f3 por guerrilheiros ou organiza\u00e7\u00f5es de esquerda\/comunistas. Villarruel e Milei n\u00e3o mencionam a rela\u00e7\u00e3o entre a ditadura militar e os herdeiros do grupo cat\u00f3lico antissemita Tacuara e, sobretudo, a organiza\u00e7\u00e3o terrorista mais violenta da Argentina, a Triple A, que foi autora de mais de 900 assassinatos em dois anos e funcionou como um bra\u00e7o parapolicial do governo de Juan Domingo Per\u00f3n e, depois, de Isabel Per\u00f3n.<\/p>\n\n\n\n<p>As guerrilhas de Montoneros e ERP n\u00e3o eram organiza\u00e7\u00f5es aliadas. Ambas as guerrilhas cometeram atos criminosos e foram respons\u00e1veis por centenas de mortes durante os governos militares e democr\u00e1ticos, mas nunca chegaram perto de derrotar o Estado e tomar o poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o justifica os atos violentos e assassinos das guerrilhas. Muitas das v\u00edtimas merecem ser lembradas e suas mortes n\u00e3o devem ser enquadradas como o resultado de atos heroicos de resist\u00eancia. Mas h\u00e1 diferen\u00e7as essenciais entre os crimes cometidos por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o estatais e os cometidos por agentes estatais. Quando Villarruel afirma que \u00e9 injusto que militares argentinos sejam investigados e condenados por crimes lesa humanidade, cuja tipifica\u00e7\u00e3o e inaplicabilidade foram legislados ap\u00f3s o cometimento de tais atos, se esquece de que os acusados atuaram em nome do Estado e com o apoio do aparato repressivo estatal. Eles n\u00e3o estavam atuando como cidad\u00e3os privados, aos quais se aplicam os princ\u00edpios do direito penal, mas como o pr\u00f3prio Estado. Isso n\u00e3o \u00e9 injusto, pelo contr\u00e1rio: os legisladores argentinos tipificaram os crimes lesa humanidade dessa forma para ter um Estado mais justo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os v\u00ednculos entre Milei\/Villarruel e a l\u00f3gica fascista v\u00e3o al\u00e9m dos v\u00ednculos pessoais com criminosos. Villarruel levou jovens ao apartamento do ditador Videla, seu tio Ernesto foi um dos altos comandantes do campo de concentra\u00e7\u00e3o El Vesuvio e Milei trabalhou como assessor pessoal do general genocida Antonio Bussi na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, essa nega\u00e7\u00e3o da realidade hist\u00f3rica \u00e9 absolutamente perigosa para a democracia argentina. A Junta Militar tomou o poder ilegalmente em 1976. Se Milei e Villarruel n\u00e3o t\u00eam problemas com isso, est\u00e3o legitimando o papel extraconstitucional que as for\u00e7as armadas tiveram para \u201csalvar\u201d a Argentina de perigos existenciais, reais ou n\u00e3o, e restabelecer a ordem na sociedade. Quem n\u00e3o questiona a legalidade de um golpe de Estado revela suas inten\u00e7\u00f5es antidemocr\u00e1ticas, como Milei fez ao dizer que a tentativa de golpe no Brasil em 8 de janeiro foi organizada por Lula e ao levantar d\u00favidas sobre a legitimidade das elei\u00e7\u00f5es nos EUA e no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Milei acusa Lula e o presidente do Chile, Boric, de serem comunistas, quando culpa o \u201cmarxismo cultural\u201d por todo o decl\u00ednio socioecon\u00f4mico da Argentina e do mundo nos \u00faltimos 40 anos e quando fantasia que, nos anos 1970, um grupo de subversivos tentou impor uma ditadura comunista na Argentina, est\u00e1 definindo quem s\u00e3o os inimigos existenciais do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua vis\u00e3o, ele e sua plataforma pol\u00edtica personificam uma cruzada messi\u00e2nica contra as for\u00e7as comunistas. Esses inimigos n\u00e3o t\u00eam lugar na Argentina de Milei, sua mera exist\u00eancia a p\u00f5e em perigo e, nesse marco ideol\u00f3gico, a repress\u00e3o e a ditadura n\u00e3o podem ser descartadas. A intoler\u00e2ncia e a viol\u00eancia discursiva de Milei e Villarruel devem ser relacionadas \u00e0 sua nega\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias passadas e recentes de golpes e viol\u00eancias autorit\u00e1rias. Essa nega\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u00e9 um aspecto central do <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/argentina-ayn-rand-e-o-romance-de-milei\/\">perigo que Javier Milei representa para a democracia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sup><a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/author\/emmanuel-guerisoli\/\">Emmanuel Guerisoli<\/a> \u00e9 advogado. Doutorando em Sociologia e Hist\u00f3ria na New School for Social Research (Nova York). Especializado em direito penal internacional, direito constitucional e direitos humanos. Mestre em Estudos Internacionais e Sociologia.<\/sup><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautor Emmanuel Guerisoli<br \/>\nEm plena realiza\u00e7\u00e3o de uma das elei\u00e7\u00f5es presidenciais mais relevantes desde a volta da democracia, a propaganda da velha ditadura militar se repete e o debate hist\u00f3rico fica relegado ao esquecimento.<\/p>\n","protected":false},"author":77,"featured_media":19556,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16960,16719,14390,14397,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-19571","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-javier-milei-pt-br","8":"category-debates-pt-br","9":"category-ditadura","10":"category-eleicoes","11":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19571","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/77"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19571"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19571\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19571"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=19571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}