{"id":2002,"date":"2020-08-06T08:17:27","date_gmt":"2020-08-06T11:17:27","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2002"},"modified":"2023-04-21T18:35:48","modified_gmt":"2023-04-21T21:35:48","slug":"nem-tudo-e-sobre-dinheiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/nem-tudo-e-sobre-dinheiro\/","title":{"rendered":"Brasil: Nem tudo \u00e9 sobre dinheiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Com a queda no \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do governo Bolsonaro no Brasil entre os mais ricos e o pequeno aumento de aprova\u00e7\u00e3o do governo entre os mais pobres no \u00faltimo Datafolha, muitos analistas correram para anunciar uma suposta transforma\u00e7\u00e3o da base do que vem sendo chamado por alguns especialistas de \u201cBolsonarismo\u201d. O aux\u00edlio emergencial, benef\u00edcio financeiro criado para auxiliar os trabalhadores informais durante a pandemia, teria sido o grande respons\u00e1vel pela migra\u00e7\u00e3o dos mais pobres para a base de Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate criado em torno da rela\u00e7\u00e3o entre o apoio dos eleitores de baixa renda ao governo Bolsonaro e o aux\u00edlio emergencial pode ser novo, mas ele reproduz uma velha leitura da academia, da imprensa, e do senso comum sobre o comportamento eleitoral dos mais pobres no Brasil. De acordo com essa vis\u00e3o, o apoio dos eleitores mais pobres \u00e9 \u00fanica e exclusivamente determinado pela pol\u00edtica de transfer\u00eancia de renda da vez. Ao recorrerem a essa leitura sobre o comportamento eleitoral das pessoas de baixa renda, refor\u00e7ando apenas a import\u00e2ncia das pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda do momento, a academia e a imprensa acabam, ainda que n\u00e3o intencionalmente, reproduzindo a vis\u00e3o do senso-comum de que os eleitores mais pobres trocam seu voto por dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema de essa conversa girar apenas em torno de pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 somente reproduzir preconceitos de classe e regionais, mas tamb\u00e9m simplificar o comportamento eleitoral de apenas uma camada da popula\u00e7\u00e3o. Ao construirmos modelos estat\u00edsticos que visam medir a influencia apenas do aux\u00edlio emergencial ou do <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mds\/pt-br\/bolsa-familia\">Bolsa Fam\u00edlia<\/a> no comportamento eleitoral dos mais pobres, n\u00e3o consideramos que talvez esses eleitores pensem sobre seu voto em outros termos. Afinal: podemos afirmar categoricamente que tais pol\u00edticas s\u00e3o, de fato, a \u00fanica medida com que os eleitores de baixa renda medem o seu bem-estar material? Tem a pobreza um papel t\u00e3o determinante a ponto de n\u00e3o possibilitar que os eleitores mais pobres pensem seu voto para al\u00e9m da quest\u00e3o da renda? Em outras palavras: s\u00e3o os eleitores mais pobres t\u00e3o distintos assim dos eleitores de outras faixas de renda a ponto de seu comportamento pol\u00edtico n\u00e3o ser tamb\u00e9m influenciado pelos outros temas que ocupam o debate nacional, como corrup\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas de cunho qualitativo mostram que os eleitores de baixa renda definem seu bem-estar material de uma forma muito mais complexa do que pressup\u00f5em as an\u00e1lises que apenas focam em pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda. Realizando minha pesquisa etnogr\u00e1fica sobre os eleitores de baixa renda em uma cidade do interior da Bahia, aprendi que os eleitores de baixa renda usavam um repert\u00f3rio de experi\u00eancias pessoais, para avaliarem a performance do Governo Federal, o qual ia muito al\u00e9m do fato de serem ou n\u00e3o benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia no Brasil. Era comum, entre esses eleitores, avaliar se um governo havia, em suas pr\u00f3prias palavras, \u201colhado para a pobreza\u201d. E o Bolsa Fam\u00edlia figurava apenas como um entre outros fatores que essas pessoas mobilizavam para justificar sua vis\u00e3o de que um governo havia ou n\u00e3o \u201colhado para a pobreza\u201d. Al\u00e9m do Bolsa Fam\u00edlia, os eleitores de baixa renda citavam tanto pol\u00edticas em que eles haviam sido diretamente beneficiados, como o programa habitacional Minha Casa Minha Vida, quanto mencionavam outras pol\u00edticas que afetavam indiretamente a sua realidade cotidiana, como compara\u00e7\u00f5es sobre seu poder de compra, acesso a bens de consumo, ou at\u00e9 mesmo sobre regularidade da merenda escolar em sua comunidade. Fica evidente que as a\u00e7\u00f5es de um governo tocam o cotidiano dos eleitores em diversas dimens\u00f5es, e os de baixa renda usam uma mir\u00edade de viv\u00eancias para avaliar o impacto de um governo em rela\u00e7\u00e3o ao seu bem-estar material. Ainda que as pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda sejam importantes para os eleitores mais pobres, elas cobrem apenas uma dimens\u00e3o de sua vida material. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer a simplifica\u00e7\u00e3o e afirmar que o aux\u00edlio-emergencial mudou a base bolsonarista no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Eleitores de baixa renda, assim como mais ricos, podem tecer narrativas pol\u00edticas a partir de outras dimens\u00f5es que n\u00e3o sua posi\u00e7\u00e3o de classe&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode pressupor que esses eleitores, por sua car\u00eancia material, votem apenas com o bolso. Limitar a conversa a isso, n\u00e3o apenas trata um grupo diverso de eleitores como um grupo homog\u00eaneo, mas tamb\u00e9m retira a possibilidade de que eles construam narrativas pol\u00edticas que n\u00e3o passem por seu lugar de classe. Em minha pesquisa de campo nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, o discurso do desencanto, diante dos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, j\u00e1 marcava a narrativa pol\u00edtica de determinados eleitores de baixa renda, levando alguns a se absterem de tomar um lado na disputa pol\u00edtica. Em um outro canto do pa\u00eds, a <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/artigo\/7486-da-esperanca-ao-odio-juventude-politica-e-pobreza-do-lulismo-ao-bolsonarismo\">pesquisa<\/a> de Rosana Pinheiro Machado e Lucia Mury Scalco relatou a identifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de jovens de uma periferia de Porto Alegre, imersos em um contexto de crescente viol\u00eancia, com um discurso de endurecimento da seguran\u00e7a p\u00fablica nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. O que esses exemplos demonstram \u00e9 que eleitores de baixa renda, assim como mais ricos, podem tecer narrativas pol\u00edticas a partir de outras dimens\u00f5es que n\u00e3o sua posi\u00e7\u00e3o de classe. Para al\u00e9m disso: essas outras identidades podem pesar na hora do voto mais do que considera\u00e7\u00f5es sobre o seu bem-estar material.<\/p>\n\n\n\n<p>As narrativas e identidades pol\u00edticas que os eleitores tecem n\u00e3o s\u00e3o est\u00e1ticas, mas altamente contextuais. Elas variam de acordo com os diferentes pertencimentos e viv\u00eancias dos eleitores, que s\u00e3o, por natureza, fluidos. Ainda \u00e9 cedo para prever se a pandemia ser\u00e1 um fator que influenciar\u00e1 as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil, mas \u00e9 certo que tem sido um evento marcante para os brasileiros de todas as classes sociais. Isso especialmente para os eleitores de baixa renda, grupo de renda que, de acordo com as \u00faltimas pesquisas do Datafolha, mais relata ter medo de serem infectados pelo coronav\u00edrus, que em maior n\u00famero apoia a implementa\u00e7\u00e3o de medidas restritivas de circula\u00e7\u00e3o, e que mais relata praticar o isolamento social. Atitudes n\u00e3o sem raz\u00e3o diante dos <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1tSU7mV4OPnLRFMMY47JIXZgzkklvkydO\/view\">n\u00fameros<\/a> que apontam que os setores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o morrem desproporcionalmente pelo v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>O tratamento de Bolsonaro ao <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/renegociar-a-divida-para-nao-desfalecer-apos-a-pandemia\/\">coronav\u00edrus<\/a> no Brasil como uma gripezinha e sua continua oposi\u00e7\u00e3o a medidas de isolamento social v\u00e3o, portanto, em dire\u00e7\u00e3o contraria justamente aos anseios dessa popula\u00e7\u00e3o mais pobre. A depender da evolu\u00e7\u00e3o da pandemia no Brasil, o posicionamento do governo frente a essa crise epidemiol\u00f3gica pode virar uma narrativa preponderante entre os eleitores mais pobres; ao que tudo indica, algo que j\u00e1 vem ocorrendo. Pesquisas de opini\u00e3o do Datafolha mostram que a conduta de governadores e prefeitos frente \u00e0 pandemia vem sendo muito mais bem avaliada pelos mais pobres do que a de Bolsonaro, mesmo com o aux\u00edlio-emergencial entendido como um benef\u00edcio do governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso mostra que \u00e9 preciso ampliar esta conversa; n\u00e3o d\u00e1 para simplificar o apoio dos eleitores de baixa renda apenas ao aux\u00edlio-emergencial. O bem-estar dos mais pobres n\u00e3o se define apenas pelas pol\u00edticas de transfer\u00eancia de renda, nem sua vis\u00e3o pol\u00edtica se resume somente ao seu bolso. A pandemia promete ser mais um fator relevante a entrar no radar pol\u00edtico dos mais pobres tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de midianinja em Foter.com \/ CC BY-NC-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O debate criado em torno da rela\u00e7\u00e3o entre o apoio dos eleitores de baixa renda ao governo Bolsonaro e o aux\u00edlio emergencial pode ser novo, mas ele reproduz uma velha leitura da academia, da imprensa, e do senso comum sobre o comportamento eleitoral dos mais pobres no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"author":87,"featured_media":2000,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16468,16708,16471,16711,16487,16728,14538,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2002","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica","8":"category-politica-pt-br","9":"category-elecciones","10":"category-elecciones-pt-br","11":"category-brasil","12":"category-brasil-pt-br","13":"category-voto","14":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/87"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2002"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2002\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2000"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2002"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}