{"id":2022,"date":"2020-08-10T17:59:15","date_gmt":"2020-08-10T20:59:15","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2022"},"modified":"2023-04-18T16:54:43","modified_gmt":"2023-04-18T19:54:43","slug":"a-descarbonizacao-para-a-recuperacao-da-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-descarbonizacao-para-a-recuperacao-da-economia\/","title":{"rendered":"Recupera\u00e7\u00e3o: descarbonizar a economia"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos meses, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (ALC) se tornaram um dos <em>hotspots <\/em>da pandemia mundial, superando a marca de 4 milh\u00f5es de infectados e 170 mil mortes. Esses n\u00fameros ajudaram a acentuar as j\u00e1 conhecidas fragilidades estruturais da regi\u00e3o, incluindo a economia, redimensionando seu espa\u00e7o no debate p\u00fablico. As acentuadas dificuldades que esses pa\u00edses ora enfrentam poderiam ser menores caso a desigualdade social, o d\u00e9ficit das infraestruturas econ\u00f4mica e social e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental n\u00e3o fossem marcas t\u00e3o presentes no cotidiano das terras ao sul do rioBravo del Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 busca por uma vacina e ao receio de novas ondas de cont\u00e1gio, o mundo avan\u00e7a as discuss\u00f5es sobre o p\u00f3s-pandemia, notadamente os caminhos para recupera\u00e7\u00e3o global. De certeza o que se sabe \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 tarefa f\u00e1cil superar a mais grave crise desde a II Grande Guerra que deve nos legar forte retra\u00e7\u00e3o do PIB mundial (-5,2%) e amplia\u00e7\u00e3o da pobreza extrema. De modo geral, as a\u00e7\u00f5es anunciadas e os discursos apresentados prometem a busca por um mundo mais seguro, menos desigual e mais resiliente. Ap\u00f3s ultrapassarmos os 16 milh\u00f5es de infectados e quase 700 mil mortes, mostra-se necess\u00e1rio criar mecanismos de prote\u00e7\u00e3o a futuras crises (sanit\u00e1rias, clim\u00e1ticas ou econ\u00f4micas) e assim reduzir o risco de novos choques sist\u00eamicos. Tamb\u00e9m come\u00e7a a se formar o consenso de que a n\u00e3o-tomada de a\u00e7\u00f5es resultaria em custos (financeiros e \u00e0 vida) ainda maiores que sua tomada.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro desse contexto, a Dinamarca revelou o intento de reduzir at\u00e9 2035 suas emiss\u00f5es de CO2 em 70% do n\u00edvel alcan\u00e7ado em 1990. Fran\u00e7a, por sua vez, planeja investir 1,5 bilh\u00e3o de Euros para tornar sua poderosa ind\u00fastria aeroespacial neutra na emiss\u00e3o de carbono. Mais ambiciosa, a Alemanha recentemente anunciou pacote de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da ordem de 130 bilh\u00f5es de Euro, dos quais 50 bilh\u00f5es para as \u201ca\u00e7\u00f5es verde\u201d. O pa\u00eds surpreendeu ao n\u00e3o sucumbir ao poderosa lobby de sua ind\u00fastria de motores e prop\u00f4s medidas de convers\u00e3o energ\u00e9tica, apostando alto no chamado hidrog\u00eanio verde. Mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s, nos EUA, o candidato \u00e0 presid\u00eancia pelo Partido Democrata (Joe Biden) prometeu investir 2 trilh\u00f5es de d\u00f3lares para, at\u00e9 2035, descarbonizar a matriz energ\u00e9tica do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E o como esse debate vem se dando na Am\u00e9rica Latina e o Caribe?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em raz\u00e3o do grande n\u00famero de infectados e mortos, grande parte dos nossos pa\u00edses est\u00e3o ainda mais concentrados em a\u00e7\u00f5es sobre o hoje que medidas sobre o amanh\u00e3. A covid-19 agrava em muito um cen\u00e1rio econ\u00f4mico e social que j\u00e1 era desolador, marcado por baixo crescimento e instabilidade pol\u00edtica por quase todo o territ\u00f3rio <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/colombia-a-ausencia-em-tempos-de-pandemia\/\">latino-americano<\/a> e caribenho. A nossa atual crise \u00e9, de fato, uma sobreposi\u00e7\u00e3o de crises que nos levar\u00e3o a resultados mais cr\u00edticos que a m\u00e9dia mundial. A CEPAL, por exemplo, estima que o PIB regional cair\u00e1 9,1%, ao passo que a taxa de pobreza chegar\u00e1 aos 37,3%.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Brasil busca mais uma vez sa\u00edda para uma complexa situa\u00e7\u00e3o que pode resultar em anos de retrocesso social e produtivo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em grande medida, essas proje\u00e7\u00f5es se devem ao que se espera do Brasil. Com quase 2,2 milh\u00f5es de casos e 70 mil mortes, o pa\u00eds tem se destacado por ocupar a segunda posi\u00e7\u00e3o no ranking mundial &nbsp;de casos de covid-19. Com estimativas que apontam quase 20 milh\u00f5es de desempregados e mais um ano perdido em termos de crescimento, o Brasil busca mais uma vez sa\u00edda para uma complexa situa\u00e7\u00e3o que pode resultar em anos de retrocesso social e produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, muito repercutiu carta publicada dias atr\u00e1s na qual 17 ex-Ministros da Economia e ex-presidentes do Banco Central (BCB) defendem de modo enf\u00e1tico a ado\u00e7\u00e3o de medidas de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica assentadas na sustentabilidade ambiental. O texto aponta quatro eixos de a\u00e7\u00e3o que possibilitariam alcan\u00e7ar esse objetivo: a) alcan\u00e7ar a economia de baixo carbono; b) zerar o desmatamento na Amaz\u00f4nia e no Cerrado; c) aumentar a resili\u00eancia clim\u00e1tica e d) impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sendo o Brasil o pa\u00eds mais populoso e maior dimens\u00e3o territorial, e tamb\u00e9m a maior economia da Am\u00e9rica Latina e o Caribe, seus caminhos t\u00eam grande influ\u00eancia sobre as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas globais e as din\u00e2micas produtivas de seus vizinhos. Seus biomas, dentre os quais o cerrado e o amaz\u00f4nico, e seu vasto litoral, o colocam como pe\u00e7a central da geopol\u00edtica mundial. Sua estrutura produtiva, em especial setores ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o\/explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais e \u00e0 agropecu\u00e1ria, fazem do pa\u00eds estrat\u00e9gico para o completo \u00eaxito de objetivos globalmente pensados e perseguidos. Sendo assim, n\u00e3o h\u00e1 exagero nas preocupa\u00e7\u00f5es acerca das queimadas e desmatamento na Amaz\u00f4nia, como tamb\u00e9m n\u00e3o nas reiteradas advert\u00eancias acerca dos malef\u00edcios da \u201csojiza\u00e7\u00e3o\u201d, que se esparrama rapidamente e j\u00e1 alcan\u00e7a os territ\u00f3rios de Argentina, Paraguai e, mais recentemente, Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando que o pa\u00eds foi duramente atingido pela desarticula\u00e7\u00e3o de alguns importantes mercados globais e pela queda abrupta dos fluxos internacionais de capital (A Unctad estima 80 bilh\u00f5es de d\u00f3lares a menos esse ano), a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica liderada por investimentos em setores baixo-carbono se mostra via interessante quando se pensa em respostas para os m\u00e9dio e longo prazos. Em seu recente relat\u00f3rio (\u201cThe Future of Nature and Business\u201d), o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial destaca que investimentos em solu\u00e7\u00f5es pr\u00f3-clima t\u00eam o potencial de gera\u00e7\u00e3o de 395 milh\u00f5es de emprego nos pr\u00f3ximos, movimento 10 trilh\u00f5es de d\u00f3lares at\u00e9 2030.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, pensando sobre aprendizados trazidos da industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, considero que um processo de descarboniza\u00e7\u00e3o da economia brasileira (e de demais pa\u00edses da ALC) deveria, por princ\u00edpio, ser cooperativo e soberano. Sem essas caracter\u00edsticas corremos o risco de falharmos mais uma vez no alcance de maior patamar de desenvolvimento produtivo e social.<\/p>\n\n\n\n<p>Penso que o processo de descarboniza\u00e7\u00e3o deve ser cooperativo pois alcan\u00e7a-lo demandaria a constante troca de informa\u00e7\u00f5es, de apoio e de conhecimento j\u00e1 existentes e acumulados em escala global. Soberano porque ensejaria, assim, maior liberdade e independ\u00eancia tecnol\u00f3gica, cultural e financeira no longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, medidas isolacionistas n\u00e3o caberiam nesse momento, fazendo do sistema multilateral, com aperfei\u00e7oamentos, pe\u00e7a-chave nesse processo. A descren\u00e7a nas for\u00e7as de coopera\u00e7\u00e3o e governan\u00e7a global e o comportamento refrat\u00e1rio ao entendimento de que a <a href=\"https:\/\/www.acnur.org\/portugues\/2020\/06\/05\/cuidando-do-meio-ambiente-cuidamos-de-nos-mesmos\/\">quest\u00e3o ambiental<\/a>, tal como o da economia, se faz como vasos comunicantes, n\u00e3o apenas dificultariam a tomada de processos, com o adiaria ou mesmo impediria o alcance de seus objetivos, levando a maiores riscos sist\u00eamicos e, por conseguinte, custos globais mais altos.<\/p>\n\n\n\n<p>E como garantir a soberania nacional nesse contexto? O caminho passaria primeiramente por pensar o futuro (\u201co que queremos ser?\u201d) e, em seguida, pelo investimento massivo em novas tecnologias e conhecimento, o que ali\u00e1s foi bem enfatizado na carta publicada pelos ex-ministros e presidentes do BCB. &nbsp;Inova\u00e7\u00f5es em produtos e processos, maior conhecimento do invent\u00e1rio ambiental, prote\u00e7\u00e3o aos biomas e aos conhecimentos dos povos ind\u00edgenas e tradicionais, acordos de coopera\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o regional e pol\u00edticas estatais e de governan\u00e7a p\u00fablica e privada baseadas em pr\u00e1ticas ambientais s\u00e3o medidas que n\u00e3o podem ser prescindidas nesse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso feito, muito certamente o Brasil e seus vizinhos se colocariam na fronteira de uma nova revolu\u00e7\u00e3o global. E nossos netos viveriam em um mundo um pouco melhor.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Yeray Vega em Foter.com \/ CC BY-NC-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s ultrapassarmos os 16 milh\u00f5es de infectados e quase 700 mil mortes, mostra-se necess\u00e1rio criar mecanismos de prote\u00e7\u00e3o a futuras crises e assim reduzir o risco de novos choques sist\u00eamicos. 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