{"id":2053,"date":"2020-08-14T09:44:16","date_gmt":"2020-08-14T12:44:16","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2053"},"modified":"2023-04-13T18:56:09","modified_gmt":"2023-04-13T21:56:09","slug":"a-argentina-e-o-acordo-sobre-a-divida-apenas-o-primeiro-passo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-argentina-e-o-acordo-sobre-a-divida-apenas-o-primeiro-passo\/","title":{"rendered":"A Argentina e o acordo da d\u00edvida a um passo"},"content":{"rendered":"\n<p>O refinanciamento da d\u00edvida da Argentina est\u00e1 na agenda do Executivo desde o come\u00e7o do governo de Alberto Fern\u00e1ndez. Na realidade, \u00e9 o tema ao qual o governo dedica mais aten\u00e7\u00e3o desde agosto do ano passado, quando aconteceu a vit\u00f3ria contundente da coaliz\u00e3o que agora governa o pa\u00eds, a Frente de Todos, nas elei\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. As prim\u00e1rias abertas simult\u00e2neas e obrigat\u00f3rias, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 selecionar os candidatos de cada partido para as elei\u00e7\u00f5es gerais \u2013 embora funcionem geralmente como term\u00f4metro pol\u00edtico \u2013, praticamente destru\u00edram as esperan\u00e7as da coaliz\u00e3o Juntos por el Cambio, do ex-presidente Mauricio Macri, de se manter no governo. O resultado das prim\u00e1rias resultou em uma queda fenomenal das vari\u00e1veis financeiras locais, com as a\u00e7\u00f5es de empresas argentinas despencando em mais de 70%, em alguns casos, e os t\u00edtulos de d\u00edvida p\u00fablica caindo em mais de 50%. A cota\u00e7\u00e3o cambial do peso argentino tamb\u00e9m caiu em mais de 30%.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O objetivo do empr\u00e9stimo era enfrentar as fortes press\u00f5es cambiais e a desconfian\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do pa\u00eds&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/economia\/por-que-a-economia-argentina-esta-em-crise-e-como-chegou-nesta-situacao\/\">pa\u00eds<\/a> vinha enfrentando uma <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/renegociar-a-divida-para-nao-desfalecer-apos-a-pandemia\/\">situa\u00e7\u00e3o financeira<\/a> prec\u00e1ria desde abril de 2018. Isso levou o ent\u00e3o presidente Macri a recorrer a um pacote de resgate do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI). O objetivo do empr\u00e9stimo era enfrentar as fortes press\u00f5es cambiais e a desconfian\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do pa\u00eds para arcar com as velhas e as novas d\u00edvidas que havia contra\u00eddo.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a elei\u00e7\u00e3o e a indica\u00e7\u00e3o de Mart\u00edn Guzm\u00e1n para o Minist\u00e9rio da Economia, os sinais enviados, tanto dentro quanto fora do pa\u00eds, eram fundamentalmente dois: o de que resolver a quest\u00e3o da d\u00edvida era prioridade do governo, mas tamb\u00e9m o de que a negocia\u00e7\u00e3o que estava por vir seria \u00e1rdua. Isso aconteceu por conta da sele\u00e7\u00e3o para o posto de um disc\u00edpulo de Joseph Stiglitz, economista heterodoxo ganhador do Pr\u00eamio Nobel de Economia e cr\u00edtico dos organismos internacionais de cr\u00e9dito como o FMI. Stiglitz definiu o ministro argentino como \u201cum dos maiores especialistas mundiais em d\u00edvida soberana\u201d, e Guzm\u00e1n j\u00e1 em 2018 considerava que seria necess\u00e1ria uma reestrutura\u00e7\u00e3o da d\u00edvida argentina que inclu\u00edsse perd\u00e3o de uma parte do passivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos globais, o acordo a que se chegou obriga a Argentina a pagar em m\u00e9dia 54,8% do valor de face das d\u00edvidas inclu\u00eddas no pacote (um valor em torno de US$ 66 bilh\u00f5es). O novo perfil de vencimento resulta em uma curva ascendente de pagamento cujo pico vir\u00e1 no ano de 2031, mas com baixos n\u00edveis de desembolso pelos pr\u00f3ximos quatro anos. Com esse acordo, o governo sabe que obter\u00e1 ades\u00e3o superior a 80% dos credores, o que lhe permite superar o piso estabelecido para cumprir as cl\u00e1usulas de a\u00e7\u00e3o coletiva e assim evitar um novo calote.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quais s\u00e3o as exig\u00eancias do acordo para evitar uma nova renegocia\u00e7\u00e3o, na qual os desembolsos teriam de ser mais substantivos? Basicamente, crescimento econ\u00f4mico e equil\u00edbrio fiscal, as duas coisas objetivos muito distantes da situa\u00e7\u00e3o atual. Com uma queda de n\u00e3o menos de 9% prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) argentino este ano e um d\u00e9ficit prim\u00e1rio prognosticado em cerca de 10% do PIB por diversas consultorias, al\u00e9m de um n\u00edvel baix\u00edssimo de investimento privado (um indicador que sempre foi baixo no pa\u00eds e hoje caiu ao subsolo), e com as limita\u00e7\u00f5es cambi\u00e1rias severas, o panorama parece complicado, no que tange a atingir esses objetivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que o presidente Alberto Fern\u00e1ndez tenha declarado recentemente que n\u00e3o acredita em \u201cplanos econ\u00f4micos\u201d, ofereceu algumas indica\u00e7\u00f5es sobre o que ele e seu governo consideram essencial para que o pa\u00eds saia da crise: O aumento das exporta\u00e7\u00f5es, buscar uma entrada de divisas, equil\u00edbrio fiscal, desenvolvimento do mercado interno e redu\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia de importa\u00e7\u00f5es. O como \u00e9 uma verdadeira inc\u00f3gnita, diante das condi\u00e7\u00f5es mencionadas e quando o maior setor exportador da Argentina, o agropecu\u00e1rio, recebe, pelo c\u00e2mbio oficial, um ter\u00e7o dos pesos que receberia caso vendesse os d\u00f3lares no mercado informal. Situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0quela a que Alberto Fern\u00e1ndez se referia alguns anos atr\u00e1s ao afirmar que as restri\u00e7\u00f5es de c\u00e2mbio s\u00e3o como uma pedra que impede a sa\u00edda mas tamb\u00e9m a entrada de capitais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Os incentivos em vigor n\u00e3o apontam na mesma dire\u00e7\u00e3o que os objetivos declarados&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O setor exportador de servi\u00e7os baseados em tecnologia e conhecimento tamb\u00e9m enfrenta inconvenientes para receber pagamentos de qualquer tipo. Isso deixa claro que os incentivos em vigor n\u00e3o apontam na mesma dire\u00e7\u00e3o que os objetivos declarados.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 claro que 2021 apresentar\u00e1 crescimento econ\u00f4mico, diante do paup\u00e9rrimo 2020. A quest\u00e3o ser\u00e1 se a magnitude desse crescimento permitir\u00e1 aliviar a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias argentinas que, com a queda da renda real que est\u00e1 sendo vislumbrada, o desemprego crescente, a quebra de empresas por conta da prolongada quarentena, e uma pobreza que est\u00e1 atingindo seus piores n\u00edveis em 20 anos, j\u00e1 se encontram em situa\u00e7\u00e3o lim\u00edtrofe.<\/p>\n\n\n\n<p>Disso depender\u00e1 a sorte do governo e da oposi\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es de meio de mandato. Com fortes chances de vencer a disputa, a coaliz\u00e3o Juntos por el Cambio tem incentivos suficientes para discutir internamente suas diferen\u00e7as sem que elas impliquem em um rompimento, e parece estar se movendo nessa dire\u00e7\u00e3o. Na Frente de Todos, situacionista, o presidente, embora ciente da forte rejei\u00e7\u00e3o a algumas figuras do kirchnerismo duro (como Cristina Fern\u00e1ndez e seu filho M\u00e1ximo), n\u00e3o adota de vez um caminho pr\u00f3prio no qual possa ganhar for\u00e7a. Talvez ele esteja ciente de que o contexto traz uma volatilidade t\u00e3o grande que qualquer passo em falso poderia desencadear um processo dif\u00edcil de conduzir.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Santiago Sito em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quais s\u00e3o as exig\u00eancias do acordo para evitar uma nova renegocia\u00e7\u00e3o, na qual os desembolsos teriam de ser mais substantivos? 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