{"id":20618,"date":"2023-11-25T09:00:00","date_gmt":"2023-11-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=20618"},"modified":"2023-11-25T09:00:00","modified_gmt":"2023-11-25T12:00:00","slug":"o-odio-a-mulheres-na-raiz-do-extremismo-violento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-odio-a-mulheres-na-raiz-do-extremismo-violento\/","title":{"rendered":"O \u00f3dio a mulheres na raiz do extremismo violento"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Coautora Michele Bravos<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2023 temos visto um crescente debate sobre misoginia e a dissemina\u00e7\u00e3o de discursos masculinistas na internet brasileira. Grupos masculinistas, ou seja, meninos e homens que menosprezam e odeiam mulheres a partir de uma l\u00f3gica mis\u00f3gina, t\u00eam conquistado espa\u00e7os em canais de YouTube, plataformas de jogos online, grupos de aplicativos de mensagens, f\u00f3runs e blogs com um discurso marcado pelo ressentimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Percebe-se que<a href=\"http:\/\/biblioteca.pucminas.br\/teses\/CienciasSociais_BrunaCamiloDeSouzaLimaESilva_30430_Textocompleto.pdf\"> o ressentimento \u00e9 o que une n\u00e3o somente grupos mis\u00f3ginos, mas a extrema direita como um todo<\/a>. O inc\u00f4modo pela avan\u00e7o dos direitos das mulheres, da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ e de negras e negros, por exemplo, organiza essas pessoas em prol de uma revolta violenta j\u00e1 que, para um mis\u00f3gino, esses avan\u00e7os trazem um sentimento de retrocesso dos direitos dos homens e de redu\u00e7\u00e3o da sua masculinidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os grupos mis\u00f3ginos, as mulheres s\u00e3o as grandes inimigas da sociedade, sendo necess\u00e1rio que retornem para os espa\u00e7os privados de sujei\u00e7\u00e3o. Para eles, mulheres s\u00e3o aproveitadoras, manipuladoras, interesseiras e merecem todo castigo poss\u00edvel. S\u00e3o \u201cdiabolheres\u201d e \u201cmerdalheres\u201d. O \u00f3dio se estende para mulheres da extrema direita, pol\u00edtica comum dos grupos mis\u00f3ginos. S\u00e3o as \u201cconservadias\u201d que n\u00e3o mereciam estar em espa\u00e7os de poder mesmo sendo ferramenta de dissemina\u00e7\u00e3o de discursos machistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Movidos por essas ideias em um ambiente virtual que mais impulsiona do que freia a misoginia, meninos e homens j\u00e1 dessensibilizados \u2013 e, portanto, mais vulner\u00e1veis aos discursos de extremismo violento \u2013 conhecem comunidades virtuais que acolhem o seu ressentimento, como tamb\u00e9m o sentimento de n\u00e3o-pertencimento, de rejei\u00e7\u00e3o e de indigna\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es. Na trama desses grupos masculinistas est\u00e3o entendimentos distorcidos sobre g\u00eanero e sexualidade \u2013 componentes essenciais na compreens\u00e3o da identidade de um indiv\u00edduo e por isso t\u00e3o presentes nos discursos de radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 no ambiente virtual, por exemplo, comunidades de incels, celibat\u00e1rios involunt\u00e1rios, meninos e homens que se sentem rejeitados sentimentalmente por n\u00e3o se adequarem a um padr\u00e3o social. Para eles, existe uma regra que rege um suposto &#8220;mercado sexual&#8221;, o qual descreve as rela\u00e7\u00f5es de atra\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres. A regra, conhecida como &#8220;80\/20&#8221;, sup\u00f5e que 80% das mulheres se atraem por apenas 20% dos homens considerados socialmente superiores na sociedade. Esses 20% s\u00e3o os homens &#8220;alfa&#8221; e os outros 80% s\u00e3o os homens &#8220;beta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, percebe-se que o que antes eram conceitos utilizados pelos masculinistas, tornam-se movimentos, como \u00e9 o caso dos redpill e blackpill. Estar \u201credpillado\u201d significava acordar para a verdade, em refer\u00eancia ao filme \u201cMatrix\u201d quando o personagem Neo tem a escolha de tomar a bluepill e permanecer na ignor\u00e2ncia ou escolher a redpill e, enfim, conhecer toda a verdade. A verdade, para esses grupos, \u00e9 de que a sociedade \u00e9 dominada pelas mulheres, que est\u00e3o em vantagem sobre os homens. J\u00e1 os blackpill representam uma vertente mais fatalista, entendendo que n\u00e3o havendo jeito de mudar a sociedade e estando eles destinados \u00e0 exclus\u00e3o, desistem de uma rela\u00e7\u00e3o amorosa com mulheres e abordam<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-sociedades-em-crise-favorecem-o-extremismo-e-o-suicidio-entre-jovens\/\"> o suic\u00eddio com frequ\u00eancia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse cen\u00e1rio que a mercantiliza\u00e7\u00e3o da misoginia a partir da venda de cursos de \u201ccomo conquistar uma mulher\u201d, \u201ccomo ser um homem de sucesso\u201d, \u201ccomo atrair a mulher certa\u201d deve soar como um alerta. A primeira vista podem n\u00e3o representar grande risco, mas s\u00e3o uma porta de entrada \u2013 hoje, expl\u00edcita e legitimada \u2013 para um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o, uma vez que s\u00e3o permeados de incita\u00e7\u00e3o \u00e0 subalterniza\u00e7\u00e3o das mulheres \u2013 o que futuramente leva \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o de outros grupos \u2013 em um ambiente virtual que opera como aliado da misoginia e de todo tipo de \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do online para o off-line<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que todo integrante de um grupo masculinista online, que possivelmente manifeste discrimina\u00e7\u00f5es no ambiente virtual, praticar\u00e1 viol\u00eancia no mundo off-line. Por\u00e9m, ao adentrar nesses grupos, seus integrantes t\u00eam o sentimento de rejei\u00e7\u00e3o \u2013 comum em suas trajet\u00f3rias \u2013 mobilizado para o \u00f3dio a grupos minorizados, assim como s\u00e3o expostos a uma idolatria \u00e0queles indiv\u00edduos que um dia &#8220;se rebelaram contra as institui\u00e7\u00f5es\/o sistema&#8221; e protagonizaram um ataque off-line (<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/brasil-e-a-crescente-violencia-nas-escolas\/\">na maioria das vezes, contra escolas)<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Suzano (SP), ocorrido em 2019, quando dois jovens atacaram uma escola deixando 11 feridos e 8 mortos, \u00e9 um exemplo dessa conex\u00e3o. H\u00e1 ind\u00edcios de que um dos autores do crime teria buscado informa\u00e7\u00f5es em um f\u00f3rum de incels para planejar o ataque.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora Mariana Valente, escritora do livro Misoginia na Internet, lembra a import\u00e2ncia de perceber os ambientes online e off-line como um sendo a continuidade do outro. Isso ajuda a entender a hist\u00f3ria emaranhada de meninos e homens ressentidos, que no processo de radicaliza\u00e7\u00e3o para o extremismo violento, s\u00e3o incitados a transpor seu \u00f3dio do online para o off-line, o que, posteriormente, repercutir\u00e1 no online, retroalimentando a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Disputa do espa\u00e7o online<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel apontar se existem \u201cperdedores\u201d ou \u201cganhadores\u201d no ciberativismo. A disputa de narrativa e de espa\u00e7os de debate e poder est\u00e1 em jogo. Essa disputa passa pela<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/internet-e-violencia-escolar\/\"> produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e not\u00edcias<\/a>, que chegam em nossas m\u00e3os por quest\u00e3o de segundos e, muitas delas, configuradas como not\u00edcias falsas e, desta forma, caracterizando o que chamamos de \u201cp\u00f3s-verdade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse contexto que caminhamos para 2024, em uma crescente disputa entre a busca por maiores direitos dos grupos historicamente subalternizados e violentados e uma ofensiva neoliberal e radicalizada que odeia, especialmente, mulheres, pessoas LGBTQIA+, negras e negros e n\u00e3o se importam com os altos n\u00fameros de feminic\u00eddios, lgbtfobia e racismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 necess\u00e1rio formular estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o, pol\u00edticas p\u00fablicas que atravessem a educa\u00e7\u00e3o, a assist\u00eancia social, sem medo de falarmos sobre igualdade de g\u00eanero e outras masculinidades poss\u00edveis \u2013 distantes de um padr\u00e3o que se expressa pela opress\u00e3o do outro.&nbsp; \u00c9 igualmente necess\u00e1rio que se observe de perto o que os jovens t\u00eam buscado nas redes sociais, propondo-se alternativas que os retirem da rota da radicaliza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, os adultos precisam se inserir no debate para que reflitam sobre o seu papel na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que n\u00e3o seja ressentida.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Este texto faz parte do projeto (Re)conectar: aproximando pessoas para superar a viol\u00eancia \u00e0s escolas, realizado pelo Instituto Aurora, com apoio institucional do L21. Para apoiar a iniciativa, acesse:<\/sub><\/em><a href=\"https:\/\/bit.ly\/projeto-reconectar\"><sub><em> https:\/\/bit.ly\/projeto-reconectar<\/em><\/sub><\/a><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Bruna Camilo, Doutora em Ci\u00eancias Sociais pela PUC Minas. Mestra em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela UFMG. Membro da Associa\u00e7\u00e3o Visibilidade Feminina. Pesquisa g\u00eanero, misoginia e extrema direita.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Michele Bravos, Diretora Executiva do Instituto Aurora de Educa\u00e7\u00e3o em Direitos Humanos. Mestre em Direitos Humanos e Pol\u00edticas P\u00fablicas pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUCPR).<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupos masculinistas, ou seja, meninos e homens que menosprezam e odeiam as mulheres a partir de uma l\u00f3gica mis\u00f3gina, conquistaram espa\u00e7os em v\u00e1rios canais de comunica\u00e7\u00e3o e plataformas. <\/p>\n","protected":false},"author":509,"featured_media":20613,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17168,17094,16782,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-20618","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-misoginia-pt-br","8":"category-extremismo-pt-br","9":"category-genero-pt-br","10":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20618","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/509"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20618"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20618\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20613"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20618"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20618"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20618"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=20618"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}