{"id":2066,"date":"2020-08-20T11:53:50","date_gmt":"2020-08-20T14:53:50","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2066"},"modified":"2023-04-12T18:38:08","modified_gmt":"2023-04-12T21:38:08","slug":"trump-instala-uma-campanha-que-retrocede-mais-de-meio-seculo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/trump-instala-uma-campanha-que-retrocede-mais-de-meio-seculo\/","title":{"rendered":"Trump instala uma campanha que retrocede mais de meio s\u00e9culo"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mais um meio-termo. O jornal mais importante do mundo chama as coisas pelos seus nomes. E o faz a partir da capa. Foi assim que o New York Times analisou em sua primeira p\u00e1gina a rea\u00e7\u00e3o do presidente Donald Trump frente ao an\u00fancio da chapa democrata: \u201cTrump se juntou \u00e0 aluvi\u00e3o com um tweet racista&#8230; alegando que Biden colocaria outro l\u00edder negro, o senador Cory Booker de Nova Jersey, no comando das moradias para as pessoas de baixa renda nos sub\u00farbios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o jornal, aquele tweet continuou com a \u201ct\u00e1tica de Trump de jogar com os medos racistas brancos sobre os esfor\u00e7os de integra\u00e7\u00e3o\u201d. No mesmo dia, o presidente denunciou uma \u201cinvas\u00e3o\u201d e prop\u00f4s a exclus\u00e3o de minorias pobres, ou seja, pessoas de cor que querem viver nos sub\u00farbios.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Parece que Trump quer que seu pa\u00eds se pare\u00e7a novamente com um passado que l\u00edderes como Martin Luther King, ou Nelson Mandela na \u00c1frica do Sul, lutaram para mudar&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Trump nunca se atreveu a tanto. Nunca a grande imprensa do pa\u00eds o havia definido como est\u00e1 fazendo agora. Parece que Trump quer que seu pa\u00eds se pare\u00e7a novamente com um passado que l\u00edderes como Martin Luther King, ou Nelson Mandela na <a href=\"https:\/\/africadosul.org.br\/historia\/\">\u00c1frica do Sul<\/a>, lutaram para mudar. A proposta de campanha \u00e9 um Estados Unidos de \u201cbantust\u00f5es\u201d do Apartheid.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta realidade e sua apresenta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita na m\u00eddia teria sido impens\u00e1vel h\u00e1 apenas alguns anos. Depois da viol\u00eancia dos s\u00e9culos e d\u00e9cadas anteriores, pelo menos nas campanhas presidenciais as rachaduras eram disfar\u00e7adas, se tornando menores. Ap\u00f3s uma campanha muito dura, o vencedor Barack Obama recebeu em sua sala de estar seu advers\u00e1rio, o senador John McCain.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, os Estados Unidos estavam come\u00e7ando a se parecer cada vez mais com a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-latina-o-abismo-tao-temido\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a>, com exce\u00e7\u00e3o do Brasil de Bolsonaro. Em nosso continente, as campanhas n\u00e3o s\u00e3o claramente inspiradas pelos m\u00e9todos de propaganda, \u00f3dio e mentiras t\u00edpicas do fascismo global e do fascismo vern\u00e1culo.<\/p>\n\n\n\n<p>A sele\u00e7\u00e3o de Kamala Harris, a primeira mulher afro-americana e filha de imigrantes a ser candidata em uma corrida presidencial, deixou expl\u00edcito o que durante muito tempo a imprensa independente tratou com eufemismos: de um lado est\u00e1 o racismo de Trump e do outro o antirracismo da maioria. Em outras palavras, Biden e Harris mais uma vez representam a maioria eleitoral que perdeu a elei\u00e7\u00e3o presidencial anterior para os aparatos do arcaico col\u00e9gio eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso lembrar que foi precisamente o col\u00e9gio eleitoral que foi um fator central para a defesa da escravid\u00e3o e que este foi eliminado pela guerra civil que ganhou a ordem legal liderada pelo Presidente Abraham Lincoln em 1865. Nesse contexto, Trump tamb\u00e9m se identificou recentemente com o lado perdedor por raz\u00f5es que obedecem \u00e0 mesma estrat\u00e9gia racista mencionada pelo New York Times.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>N\u00e3o \u00e9 nova na hist\u00f3ria deste pa\u00eds do Norte a ideia de fazer campanha com a xenofobia&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas se h\u00e1 coisas novas, e muitas, neste \u00f3dio que \u00e9 parafern\u00e1lia na Casa Branca, n\u00e3o \u00e9 nova na hist\u00f3ria deste pa\u00eds do Norte a ideia de fazer campanha com a xenofobia, a \u201clei e a ordem\u201d, os medos e o nacionalismo. \u00c9 claro que, na realidade, esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma hist\u00f3ria americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00cdndia Narendra Modi, na Hungria Viktor Orban e no Brasil Jair Messias Bolsonaro est\u00e3o tentando reformular o populismo de forma fascista; mas nos Estados Unidos a campanha de Trump tamb\u00e9m se remete a outras campanhas locais, cuja forma de fazer pol\u00edtica foi abertamente racista, em particular as candidaturas do governador do Alabama, George Wallace, nos anos 60 e in\u00edcio dos anos 70.<\/p>\n\n\n\n<p>Wallace, um candidato de \u201ca lei e a ordem\u201d, atacou o governo em 1963 por considerar que queria fazer dos pol\u00edticos \u201camos do povo\u201d e que era \u201co oposto de Cristo\u201d. Ele insistiu na necessidade de manter a \u201csegrega\u00e7\u00e3o agora! Segrega\u00e7\u00e3o amanh\u00e3! \u201d Wallace defendeu o racismo \u201cem nome das pessoas mais importantes que j\u00e1 caminharam por esta terra\u201d. Por \u201cas pessoas\u201d ele se referia aos americanos brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00e9 bem conhecido, Wallace argumentou que Nova York n\u00e3o era exatamente um exemplo para o resto do pa\u00eds: \u201cEm Nova York n\u00e3o se pode andar de noite pelo Central Park sem temer que violem, assaltem ou atirem em voc\u00ea\u201d. Era precisamente esta ideia de que o Central Park era o lugar onde se podia ver o que estava errado com o pa\u00eds que dava notoriedade a um ent\u00e3o jovem populista em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto foi o caso do \u201cCentral Park Five\u201d, em 1989. Como explicou a CNN, \u201co caso envolveu cinco adolescentes negros acusados e condenados injustamente por espancar e estuprar uma mulher no Central Park. Trump comprou an\u00fancios de uma p\u00e1gina inteira em v\u00e1rios jornais de Nova Iorque que diziam: \u201cDevolva-nos nossa pena de morte. Devolva-nos nossa pol\u00edcia! \u201d Os meninos acusados injustamente \u201cforam exonerados em 2002, quando outro homem confessou o crime e o DNA apoiou sua confiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1989, referindo-se ao caso, Trump disse que \u201cos avisos eram muito fortes e francos, e o que eles pediam era lei e ordem. E n\u00e3o estou falando apenas de Nova Iorque. Estou falando de tudo\u201d. \u201cTalvez o \u00f3dio seja o que precisamos\u201d, concluiu ele, \u201cse quisermos que algo seja feito\u201d. Esta combina\u00e7\u00e3o inicial de \u201clei e ordem\u201d, e propaganda e mentiras racistas foi a primeira tentativa de Trump de fazer pol\u00edtica a partir do roteiro de Wallace, mas tamb\u00e9m de Josef G\u00f6ebbels.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, ela se tornaria a marca registrada da corrida bem-sucedida de Trump para a presid\u00eancia em 2016. Esta forma de mentir e fomentar a paranoia e o \u00f3dio continua marcando sua tentativa desesperada de permanecer no poder. Se ele perder a elei\u00e7\u00e3o, perder\u00e1 tamb\u00e9m sua imunidade legal. In\u00fameros processos legais o acompanhar\u00e3o e, por isso, ele espera que o racismo o salve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade, seu slogan MAGA (Make America Great Again) implicava, de forma impl\u00edcita, uma proposta de retorno ao pa\u00eds antes das mudan\u00e7as dos direitos civis dos anos 60, mas sua atual campanha eleitoral quer transformar esse passado racista em uma promessa para o presente e o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Um texto originalmente publicado no jornal Clar\u00edn, Argentina<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Johnny Silvercloud em Foter.com \/ CC BY-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Parece que Trump quer que seu pa\u00eds se pare\u00e7a novamente com um passado que l\u00edderes como Martin Luther King, ou Nelson Mandela na \u00c1frica do Sul, lutaram para mudar. 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