{"id":20901,"date":"2023-12-11T09:00:00","date_gmt":"2023-12-11T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=20901"},"modified":"2023-12-17T14:54:42","modified_gmt":"2023-12-17T17:54:42","slug":"o-sul-globalismo-e-a-politica-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-sul-globalismo-e-a-politica-latino-americana\/","title":{"rendered":"O sul-globalismo e a pol\u00edtica latino-americana"},"content":{"rendered":"\r\n<p>No \u00e2mbito das rela\u00e7\u00f5es internacionais, as agendas e a\u00e7\u00f5es dos governos n\u00e3o s\u00f3 perseguem <strong>objetivos pragm\u00e1ticos<\/strong>. Elas podem, ademais, expressar certos princ\u00edpios e valores. Na pol\u00edtica nacional e global, as ideias importam, j\u00e1 que configuram agendas para transformar as realidades preexistentes. Esse \u00e9 o caso da narrativa <strong>sul-globalista<\/strong> \u2013 diferente da geopol\u00edtica do Sul Global \u2013 que justifica o distanciamento, se n\u00e3o a hostilidade, em rela\u00e7\u00e3o aos v\u00ednculos com as na\u00e7\u00f5es comumente identificadas como <strong>Ocidente<\/strong>. Recuperamos algumas ideias avan\u00e7adas previamente \u2013 em <a href=\"https:\/\/revistafal.com\/fal-23-4\/\"><em>formato acad\u00eamico<\/em><\/a> \u2013 para contribuir com o nosso di\u00e1logo pol\u00edtico sobre o presente global.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Sul Global?<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>De um ponto de vista ideol\u00f3gico e normativo, o <strong><em>Sul Global<\/em><\/strong> n\u00e3o identifica de modo natural a diversidade de na\u00e7\u00f5es do antigo <strong>Terceiro Mundo<\/strong>. Trata-se de uma leitura sobre o desenvolvimento socioecon\u00f4mico, a ordem pol\u00edtica e as <strong>rela\u00e7\u00f5es internacionais<\/strong>. \u00c9 uma vis\u00e3o associada a enfoques intelectuais \u2013 marxista, decolonial, altermundialista etc. \u2013 e \u00e0s propostas pol\u00edticas de certas esquerdas. Todas convergem no questionamento do <strong>modelo liberal<\/strong> democr\u00e1tico, em escala social, nacional e global.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Falar <em>sul-globalistamente <\/em>n\u00e3o alude simplesmente a pa\u00edses com fronteiras delimitadas. Sup\u00f5e celebrar sujeitos e programas que compartilham o rep\u00fadio \u00e0 <strong>ordem geopol\u00edtica<\/strong> e geoecon\u00f4mica do capitalismo. A partir dessa leitura, que vem recebendo <a href=\"https:\/\/legrandcontinent.eu\/es\/2023\/10\/03\/la-trampa-del-sur-global\/\"><em>cr\u00edticas precisas<\/em><\/a>, o Sul Global contra-hegem\u00f4nico se op\u00f5e a um \u201c<strong>globalismo nortec\u00eantrico<\/strong>, imperialista e explorador\u201d. Estamos, pois, diante de um enfoque ideol\u00f3gico que conflui com o fortalecimento da narrativa <em>civilizacional<\/em> que legitima o desafio de pot\u00eancias como <strong>R\u00fassia, China, Ir\u00e3 ou Turquia<\/strong> \u00e0 <a href=\"https:\/\/academic.oup.com\/isr\/article\/25\/2\/viad006\/7100556\">ordem internacional liberal<\/a>.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A postura <em>sul-globalista<\/em> degrada o conceito e os processos democr\u00e1ticos e equipara o comportamento de <strong>autocracias e poliarquias<\/strong> sob o argumento da \u201cdiversidade democr\u00e1tica\u201d. Desqualifica, <em>tourt court<\/em>, a aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es contra regimes autorit\u00e1rios do Sul Global \u2013 como os de Vladimir Putin e Nicol\u00e1s Maduro \u2013 respons\u00e1veis por viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos, rejeitando-as com base no \u201crespeito \u00e0 soberania\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Narrativa sul-globalista<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O <em>sul-globalismo<\/em> invoca o <strong>passado imperial<\/strong> das pot\u00eancias ocidentais \u2013 que, diferente do Kremlin, n\u00e3o anexaram territ\u00f3rios estrangeiros nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2013 para relativizar a gravidade de eventos como a atual <strong>invas\u00e3o da <\/strong><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/guerra-da-ucrania\/\"><strong>Ucr\u00e2nia<\/strong><\/a>. Sob os mantras do multilateralismo e da diversidade civilizacional, a <strong>narrativa sul-globalista<\/strong> acaba sustentando um soberanismo estatista com tend\u00eancia autorit\u00e1ria. Este nega a soberania m\u00faltipla, governamental e popular de comunidades humanas. Para o qual promove uma cr\u00edtica \u00e0 <strong>ordem liberal<\/strong> \u2013 cujos princ\u00edpios e institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundacionais da tradi\u00e7\u00e3o latino-americana. Nesse sentido, como aponta a pesquisadora e ativista <a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/304-multipolaridad-mantra-autoritarismo\/\">Kavita Krishnan<\/a>, \u201ca defesa da multipolaridade, sem valores democr\u00e1ticos agregados, torna-se um \u00e1libi para diversos regimes desp\u00f3ticos em diferentes partes do mundo\u201d.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>H\u00e1 um debate pendente. Trata-se da necessidade de a Am\u00e9rica Latina enfrentar os desafios de sua inser\u00e7\u00e3o internacional a partir de seu legado hist\u00f3rico, suas din\u00e2micas regionais e locais. Mas isso sup\u00f5e promover uma ordem pol\u00edtica nacional e global em que a defesa da democracia e a promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos sejam respeitadas. Mas, no caso latino-americano, a narrativa <em>sul-globalista<\/em> surge por tr\u00e1s da agenda de v\u00e1rias lideran\u00e7as. Tamb\u00e9m justifica a <strong>ambiguidade calculada<\/strong> de v\u00e1rios governos latino-americanos diante, por exemplo, da agress\u00e3o do Kremlin \u00e0 Ucr\u00e2nia. Tamb\u00e9m descarta o impacto <strong>n\u00e3o-democr\u00e1tico<\/strong> da coopera\u00e7\u00e3o consistente, sustentada e ampliada de v\u00e1rios governos com a R\u00fassia.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O <strong>mantra <\/strong><strong><em>sul-globalista<\/em><\/strong> atenta contra a possibilidade de consolidar uma regi\u00e3o na qual a democracia e o desenvolvimento andem de m\u00e3os dadas. Dessa forma, limita as chances de impactar de modo virtuoso as <strong>din\u00e2micas end\u00f3genas<\/strong> e ex\u00f3genas de cada pa\u00eds.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Autoritarismo e ordem liberal<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Os regimes autocr\u00e1ticos que questionam e proscrevem a incid\u00eancia dos atores n\u00e3o governamentais e de <strong>pa\u00edses pequenos<\/strong> na pol\u00edtica dom\u00e9stica e internacional s\u00e3o um freio \u00e0s <strong>aspira\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas<\/strong> de nossas sociedades. E tamb\u00e9m aos <strong>governos populistas<\/strong>. Esses, chegando ao poder dentro das regras do jogo democr\u00e1tico, relativizam em suas narrativas de pol\u00edtica externa o respeito aos <strong>princ\u00edpios republicanos<\/strong> e aos direitos humanos. As narrativas <em>sul-globalistas<\/em>, em temas como a invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, a relut\u00e2ncia em retomar os v\u00ednculos com a <strong>Uni\u00e3o Europeia<\/strong>, o fortalecimento dos la\u00e7os pol\u00edticos \u2013 n\u00e3o apenas econ\u00f4micos \u2013 com a <strong>China<\/strong>, s\u00e3o um questionamento dos princ\u00edpios e das institui\u00e7\u00f5es da <strong>ordem liberal<\/strong>.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Um segmento da <strong>academia regional<\/strong> tem grande responsabilidade nos posicionamentos adotados para contribuir com esse debate. Veja, a t\u00edtulo de exemplo, as obras recentes como <em>El tangram de China<\/em> (2023), que convida \u00e0 \u201crelativiza\u00e7\u00e3o da democracia\u201d (p. 129). <em>El incrementalismo dial\u00e9ctico: un caso de in-novaci\u00f3n en Hengqin<\/em> <em>(China)<\/em> (2020), que usa o conceito de \u201cdemocracia pluralista\u201d para definir o regime chin\u00eas e contrast\u00e1-lo \u00e0s <strong>democracias ocidentais<\/strong> (p. 323).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ou ainda,<em> Una mirada desde <\/em><strong><em>Am\u00e9rica Latina<\/em><\/strong><em>, sobre la organizaci\u00f3n pol\u00edtica en la Rep\u00fablica Popular China (2022)<\/em>, que desde o resumo afirma que busca \u201ccompreender o modelo democr\u00e1tico chin\u00eas\u201d para logo argumentar que \u201cos direitos humanos na China s\u00e3o coletivos e n\u00e3o direitos individuais liberais\u201d (p. 240). Outros autores latino-americanos argumentam que na China h\u00e1 <strong>outro tipo de democracia<\/strong> diferente da liberal, que poderia at\u00e9 <a href=\"https:\/\/www.academia.edu\/105433033\/Cr%C3%ADtica_de_la_raz%C3%B3n_filotir%C3%A1nica_Una_lectura_desde_las_Relaciones_Internacionales\">ser implementada em nossa regi\u00e3o<\/a>. O mesmo se aplica a outras posi\u00e7\u00f5es sobre a <strong>R\u00fassia, o Ir\u00e3 ou Cuba<\/strong>, escritas em uma perspectiva que questiona \u2013 sem \u00e2nimo de aprimorar \u2013 os pr\u00f3prios fundamentos da <strong>ordem democr\u00e1tica<\/strong> liberal.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>Pluralismo<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>A <strong>vis\u00e3o sul-globalista<\/strong> parece se esquecer de que s\u00f3 na democracia \u00e9 poss\u00edvel questionar uma decis\u00e3o do governo. S\u00f3 na democracia se pode aperfei\u00e7oar a agenda do Estado e defender os princ\u00edpios do regime. E que, em contrapartida, sob a <strong>autocracia<\/strong>, o governo, o Estado e o regime se fundem em poucas m\u00e3os. A contraposi\u00e7\u00e3o entre o <strong>pluralismo<\/strong> de narrativas que habilita a liberdade do pensar acad\u00eamico <em>versus<\/em> o <strong>controle vertical<\/strong> e inapel\u00e1vel dos autoritarismos deveria estar no centro das <strong>discuss\u00f5es<\/strong> sobre o <em>Sul Global<\/em> e o <em>sul-globalismo<\/em>. Em especial, em um contexto internacional t\u00e3o vol\u00e1til como o de hoje.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><em>*Este artigo foi publicado originalmente no Di\u00e1logo Pol\u00edtico.<\/em><\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um ponto de vista ideol\u00f3gico e normativo, o Sul Global n\u00e3o identifica de modo natural a diversidade de na\u00e7\u00f5es do outrora chamado Terceiro Mundo<\/p>\n","protected":false},"author":350,"featured_media":34758,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16762,16957],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-20901","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"category-sur-global-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/350"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20901\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20901"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=20901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}