{"id":2094,"date":"2020-08-27T11:32:16","date_gmt":"2020-08-27T14:32:16","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2094"},"modified":"2023-04-07T17:20:08","modified_gmt":"2023-04-07T20:20:08","slug":"adeus-a-cidade-de-classe-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/adeus-a-cidade-de-classe-media\/","title":{"rendered":"Adeus \u00e0 cidade de classe m\u00e9dia?"},"content":{"rendered":"\n<p>Poucos casamentos explicam o avan\u00e7o para a modernidade como o das classes m\u00e9dias e das cidades. As cidades s\u00e3o os epicentros do capital e da criatividade, re\u00fanem os melhores empregos, talentos, escolas e universidades. \u00c9 onde s\u00e3o hospedados espa\u00e7os de desenvolvimento cultural, art\u00edstico e cient\u00edfico, onde prosperam as empresas comerciais ou tecnol\u00f3gicas, onde floresce a inova\u00e7\u00e3o social e a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica progressiva d\u00e1 frutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas mesmas condi\u00e7\u00f5es favorecem a multiplica\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias, atraindo setores rurais ou suburbanos com aspira\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, c\u00edvicas ou intelectuais. Quanto mais urbano o contexto, mais oportunidades de mobilidade social e crescimento das classes m\u00e9dias; da mesma forma, o alargamento social dos costumes burgueses facilita a consolida\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e do esp\u00edrito metropolitano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Metropolitaniza\u00e7\u00e3o e gentrifica\u00e7\u00e3o social caminham juntas, um casal com v\u00e1rios filhos c\u00e9lebres&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Metropolitaniza\u00e7\u00e3o e gentrifica\u00e7\u00e3o social caminham juntas, um casal com v\u00e1rios filhos c\u00e9lebres. Das liberdades civis \u00e0 democracia pol\u00edtica. Da sofistica\u00e7\u00e3o cultural e intelectual \u00e0 meritocracia como crit\u00e9rio de recompensa educacional ou profissional. E do empreendedorismo privado \u00e0s iniciativas econ\u00f4micas criativas, circulares e colaborativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, foram as classes m\u00e9dias urbanas que pressionaram os governos para melhorar seu desempenho, for\u00e7ando-os a fornecer servi\u00e7os de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade, uma infraestrutura adequada, um ambiente mais limpo ou pol\u00edticas mais eficazes contra a infla\u00e7\u00e3o ou o crime. Tamb\u00e9m s\u00e3o elas que atuam como uma barreira ante os projetos autorit\u00e1rios, de impunidade judicial ou abuso fiscal. Portanto, n\u00e3o \u00e9 pouca coisa que \u00e9 destru\u00edda quando a classe m\u00e9dia diminui e as cidades s\u00e3o vistas como lugares de amea\u00e7a em vez de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O fechamento da economia e o isolamento social para combater a Covid-19 desafiam dramaticamente ambos os protagonistas. As classes m\u00e9dias e as cidades s\u00e3o culpadas pela dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. As primeiras por import\u00e1-la como resultado de suas viagens internacionais de f\u00e9rias, interc\u00e2mbios ou trabalho. As segundas s\u00e3o culpadas por sua densidade fenomenal de constru\u00e7\u00e3o, que representa um obst\u00e1culo para evitar aglomera\u00e7\u00f5es, bem como pelos h\u00e1bitos de suas classes m\u00e9dias que tendem a utilizar \u00e1reas p\u00fablicas para recrea\u00e7\u00e3o ou sociabilidade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>As cidades concentram a imensa maioria dos casos, mas pouco se fala delas como v\u00edtimas&#8221;As cidades concentram a imensa maioria dos casos, mas pouco se fala delas como v\u00edtimas&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>As cidades concentram a imensa maioria dos casos, mas pouco se fala delas como v\u00edtimas e &#8211; portanto &#8211; candidatas \u00e0 um aux\u00edlio do tesouro nacional. &nbsp;O aux\u00edlio pula particularmente as prefeituras metropolitanas para se dirigir \u00e0 rede hospitalar, assim como as secretarias nacionais de compras, alimentos ou planejamento. Nem um peso, real ou sol para as cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Socialmente, o aux\u00edlio se individualizada, contornando a classe m\u00e9dia para se orientar aos mais pobres ou aos grandes grupos econ\u00f4micos. Com exce\u00e7\u00e3o do Chile, onde foi aprovado um pacote de empr\u00e9stimo de US$ 1,5 bilh\u00e3o exclusivamente para esse segmento social, n\u00e3o houve assist\u00eancia governamental. Na Argentina e no Brasil, a provis\u00e3o de cr\u00e9dito para pequenas empresas (a espinha dorsal financeira de parte da classe m\u00e9dia urbana) simplesmente n\u00e3o funcionou, e uma pequena fra\u00e7\u00e3o dos destinat\u00e1rios foi beneficiada.<\/p>\n\n\n\n<p>Seguindo as tend\u00eancias de planejamento urbano em voga desde os anos 90, as prefeituras metropolitanas promoveram fortemente a revitaliza\u00e7\u00e3o dos centros hist\u00f3ricos, favorecendo a concentra\u00e7\u00e3o humana e a alta densidade residencial, inclusive como uma pol\u00edtica de sustentabilidade ambiental. Elas incentivaram a intensa aglomera\u00e7\u00e3o de atividades comerciais e culturais em \u00e1reas definidas, e implementaram meios otimizados de transporte p\u00fablico e mobilidade coletiva. Isto resultou no fato de que, atualmente, mais de oito em cada dez latino-americanos vivem em cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas de planejamento urbano priorizaram a gera\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de alta qualidade de vida na metr\u00f3pole sob o pressuposto de que o tempo livre, o trabalho ou o estudo acontecem fora de casa. Trabalhar em escrit\u00f3rios, estudar em escolas e universidades, fazer compras em supermercados, socializar em restaurantes, caf\u00e9s, cinemas e teatros, ou se exercitar nas ruas, pra\u00e7as ou parques. A constru\u00e7\u00e3o de ciclovias, a recupera\u00e7\u00e3o de parques e pra\u00e7as e o alargamento das cal\u00e7adas em microcentros ilustram a tend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, e tendo em vista o suposto menor uso das moradias, os novos c\u00f3digos de constru\u00e7\u00e3o civil encorajaram o minimalismo. Muitos ambientalistas defenderam este novo modelo como uma forma eficaz de reduzir os gases de efeito estufa e proteger os ecossistemas e a biodiversidade fora das cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O isolamento social e o fechamento econ\u00f4mico eliminam dois dos mais poderosos incentivos para se viver nas cidades. Estas fal\u00eancias, somadas ao confinamento em apartamentos que n\u00e3o foram planejados para servir como espa\u00e7os multitarefa 24&#215;7, acabaram semeando na classe m\u00e9dia a necessidade de moradias mais amplas ou o acesso a \u00e1reas verdes pr\u00f3ximas, se n\u00e3o um jardim pr\u00f3prio, algo imposs\u00edvel para a grande maioria em uma megacidade. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 trocar a cidade grande por cidades menores ou sub\u00farbios, principalmente se o futuro do trabalho, estudo, compras e tantos outros h\u00e1bitos for mais virtual do que presencial.<\/p>\n\n\n\n<p>De habitats irresist\u00edveis que oferecem oportunidades profissionais, sonhos econ\u00f4micos, glamour cultural, redes sociais e liberdades e direitos ampliados, as cidades se tornam sin\u00f4nimo de risco de contamina\u00e7\u00e3o. Diferentes estudos revelam o crescente desinteresse em continuar vivendo nas metr\u00f3poles. O n\u00famero de brit\u00e2nicos que querem viver nas cidades est\u00e1 diminuindo e sua percep\u00e7\u00e3o das cidades como espa\u00e7os menos atraentes est\u00e1 dobrando (Ipsos-Mori). E quatro em cada dez parisienses pensam em deixar a cidade das luzes em favor das \u00e1reas rurais ou suburbanas (ENMMV\/Mobile Lives Forum).<\/p>\n\n\n\n<p>Os projetos de repovoamento rural est\u00e3o ganhando for\u00e7a no interior da Argentina, com mais de 20 mil volunt\u00e1rios registrados (Funda\u00e7\u00e3o Es Vicis). Na cidade de S\u00e3o Paulo, as buscas por resid\u00eancias em munic\u00edpios menores pr\u00f3ximos (+124%, Imovelweb) ou no interior do estado (+340%, Grupo Zap) est\u00e3o em ascens\u00e3o. Os mais interessados neste \u00eaxodo urbano s\u00e3o as fam\u00edlias e os profissionais de classe m\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O despovoamento das cidades ocorre paralelamente ao encolhimento da classe m\u00e9dia&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sob o sinal da pandemia, o despovoamento das cidades ocorre paralelamente ao encolhimento da classe m\u00e9dia. Antes da covid-19, algumas proje\u00e7\u00f5es apontavam que em 2030 quase 2\/3 da humanidade seria de classe m\u00e9dia em termos de despesas e renda (Brookings Institute), uma situa\u00e7\u00e3o que v\u00e1rios <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/colombia-a-ausencia-em-tempos-de-pandemia\/\">pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina<\/a> j\u00e1 haviam alcan\u00e7ado na metade dos anos 2010, a partir de uma leitura generosa dos indicadores de consumo feita pelos institutos oficiais de censo e dos crit\u00e9rios de classifica\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica. S\u00f3 no Brasil, 42 milh\u00f5es de pessoas passaram a povoar a \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d (IPEA; IBGE 2012).<\/p>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f4mica subsequente abortou este movimento; a quarentena terminou de o liquidar. De acordo com a CEPAL, 29 milh\u00f5es de latino-americanos deixar\u00e3o a classe m\u00e9dia para se tornarem os \u201cnovos pobres\u201d. Endividada ou sem renda devido ao desemprego e ao desastre econ\u00f4mico p\u00f3s-pandemia, a classe m\u00e9dia est\u00e1 abandonando alugu\u00e9is e compras n\u00e3o essenciais, cursos e seguros de sa\u00fade privados, microempresas e entretenimento offline. S\u00e3o as fam\u00edlias de classe m\u00e9dia que tamb\u00e9m mais sofrem com as consequ\u00eancias psicol\u00f3gicas da quarentena, aumentando os casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica, depress\u00e3o e div\u00f3rcio, que gera novas despesas, aprofundando o empobrecimento de seus membros. Junto com este empobrecimento da classe m\u00e9dia, a cidade est\u00e1 perdendo sua rede comercial e cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Cidades vazias de classe m\u00e9dia (devido \u00e0 ru\u00edna financeira ou ao \u00eaxodo) significariam um retrocesso quase medieval para sociedades socialmente desiguais e polarizadas que n\u00e3o controlam seus governos, negligencia a cultura e a ci\u00eancia, e t\u00eam suas liberdades e direitos desidratados. Como em outras latitudes, a moderniza\u00e7\u00e3o latino-americana foi alimentada por cidades e classes m\u00e9dias revigoradas, e continuar\u00e1 dependendo delas para cumprir sua promessa de <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-12-14\/classe-media-sai-da-quarentena-para-os-bracos-da-covid-19-e-lota-hospitais-privados-no-brasil.html\">progresso social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Claudio Olivares Medina em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poucos casamentos explicam o avan\u00e7o para a modernidade como o das classes m\u00e9dias e das cidades. \u00c9 a\u00ed onde s\u00e3o hospedados espa\u00e7os de desenvolvimento cultural, art\u00edstico e cient\u00edfico, onde prosperam as empresas comerciais ou tecnol\u00f3gicas, onde floresce a inova\u00e7\u00e3o social e a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica progressiva d\u00e1 frutos.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":2091,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16785,16789,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2094","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-covid-19-es-pt-br","8":"category-pandemia-pt-br","9":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2094","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2094"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2094\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2094"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2094"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2094"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2094"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}