{"id":2175,"date":"2020-09-12T14:53:10","date_gmt":"2020-09-12T17:53:10","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2175"},"modified":"2024-07-04T06:47:26","modified_gmt":"2024-07-04T09:47:26","slug":"veneno-e-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/veneno-e-poder\/","title":{"rendered":"Veneno e poder"},"content":{"rendered":"\n<p>Quantas vezes no mundo das intrigas pessoais e pol\u00edticas, disputas por poder, honra e raiva do inimigo, vimos aparecer o veneno como personagem da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem vamos falar aqui do uso de armas qu\u00edmicas em massa, que fazem parte de legados de guerras que n\u00e3o mais esperamos ver. Uso de gases em campos de concentra\u00e7\u00e3o como na Alemanha nazista e do napalm na guerra do Vietn\u00e3, pelos Estados Unidos. Ou ainda, do g\u00e1s sarin usado para assassinar covardemente 1.500 civis sendo 1\/3 de crian\u00e7as, que ocorreu no caso do ataque de Ghouta, nos arredores de Damasco, em 2013. Estes, dentre outros casos, s\u00e3o de vis\u00edvel e assumida a\u00e7\u00e3o inescrupulosa na tentativa de eliminar aquele visto como inimigo, em situa\u00e7\u00f5es de guerra. Casos in\u00fameros que podem ser citados e envolvem envenenamento como arma de guerra, sempre nos parecem a\u00e7\u00f5es covardes e desmedidas diante da assimetria de for\u00e7as ou condi\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia. Apesar da relev\u00e2ncia do tema, estar\u00e3o fora do foco deste artigo situa\u00e7\u00f5es de guerra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mortes por envenenamento povoam fantasias de segredos, a\u00e7\u00f5es ardis e covardes, den\u00fancias e busca de reparo de reputa\u00e7\u00e3o e dignidade mediante humilha\u00e7\u00e3o ou injusti\u00e7as.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pensemos em tempos de paz, em que suic\u00eddios e assassinatos perpassam narrativas simb\u00f3licas que revisitamos na hist\u00f3ria n\u00e3o comprovada, como a condena\u00e7\u00e3o de S\u00f3crates, o suic\u00eddio de Cle\u00f3patra ou intrigas de Lucr\u00e9cia Borges. Mortes por envenenamento povoam fantasias de segredos, a\u00e7\u00f5es ardis e covardes, den\u00fancias e busca de reparo de reputa\u00e7\u00e3o e dignidade mediante humilha\u00e7\u00e3o ou injusti\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Da literatura de Shakespeare a Gustave Flaubert. De Hamlet a Romeu e Julieta, interesses e fugas dos infort\u00fanios da vida, como o fez Emma Bovary, dramas povoam algumas das hist\u00f3rias mais lidas e encenadas da literatura cl\u00e1ssica. No entanto, hist\u00f3rias reais mais recentes t\u00eam competido com a fic\u00e7\u00e3o, relevando ao papel de protagonista o personagem do veneno.<\/p>\n\n\n\n<p>O suic\u00eddio por envenenamento \u00e9 tradicional estrat\u00e9gia para se guardar segredos de Estado ou de guerra, evitando o sofrimento da tortura ou o risco da sucumb\u00eancia \u00e0 dor, como era o caso das c\u00e1psulas de suic\u00eddio de agentes secretos na era da guerra fria. A novidade sobre esse tema \u00e9 a p\u00edlula da eutan\u00e1sia (comprimido drion) para idosos ou doentes terminais, que visa o mesmo fim: encurtar o sofrimento do corpo, seja mediante a tortura pelo inimigo, seja mediante as dores da morte certa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, vimos a cicuta no <em>live streaming<\/em> do suic\u00eddio de Slobodan Praljak. Praljak deu visibilidade ao seu julgamento contra crimes cometidos na guerra da B\u00f3snia, ao procurar demonstrar indignidade mediante sua condena\u00e7\u00e3o a 20 anos de pris\u00e3o pelo Tribunal Internacional de Haia para a antiga Iugosl\u00e1via, o TPII. O ex-general b\u00f3snio transformou sua morte em um evento do mundo digital, substituiu sua pena pelo brinde ao descontentamento com a justi\u00e7a internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O veneno \u00e9 talvez o mais antigo personagem das hist\u00f3rias de intrigas, enganos, a\u00e7\u00f5es inescrupulosas a serem guardadas em corpos sacrificados, seja pelos seus pr\u00f3prios donos ou por terceiros que os querem calar.<\/p>\n\n\n\n<p>A opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, deflagrada na Am\u00e9rica Latina desde 2014, gerou den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o que relacionavam pol\u00edticos e empres\u00e1rios. Diferentemente do Brasil e do Peru, pa\u00edses onde investiga\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e lavagem de dinheiro envolveram pris\u00f5es e at\u00e9 mesmo o suic\u00eddio do presidente Alan Garcia em 2019, na Col\u00f4mbia o impacto das acusa\u00e7\u00f5es n\u00e3o derrubou nenhuma for\u00e7a pol\u00edtica. No entanto, relatos de den\u00fancias de envenenamento de testemunhas-chave nas investiga\u00e7\u00f5es da Lava Jato no pa\u00eds ganharam manchetes internacionais. Em 2018, o ex-auditor Jorge Pizano morreu de parada cardiorrespirat\u00f3ria e Rafael Merch\u00e1n, ex-secret\u00e1rio de Transpar\u00eancia, se suicidou por cianeto. Quatro dias ap\u00f3s a morte de Jorge Pizano, morre ainda seu filho Alejandro, ao ingerir \u00e1gua intoxicada com cianeto de uma garrafa de seu pai. Den\u00fancias sobre uma hist\u00f3ria incomprovada levaram a um questionamento sobre as reais causas de tantas mortes relacionadas \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es em curso, que teriam mudado os rumos da pol\u00edtica de Bogot\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Na R\u00fassia, os casos de envenenamento se misturam entre comprovados e n\u00e3o comprovados, antigos e recentes.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na R\u00fassia, os casos de envenenamento se misturam entre comprovados e n\u00e3o comprovados, antigos e recentes. Ativistas anti-Kremlin, como Vladimir Kara-Murza, com uma longa trajet\u00f3ria de oposi\u00e7\u00e3o a Putin e Pyortr Verzilov (ligado ao Pussy Riot) tem hist\u00f3rias para contar, como sobreviventes e denunciantes do uso recente do m\u00e9todo de intoxica\u00e7\u00e3o como forma de calar a contesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da Pandemia do COVID-19, em tempos de nos guardarmos em casa pelo temor de uma morte anunciada por um v\u00edrus que ainda n\u00e3o conhecemos muito bem, temos acompanhado a mais recente hist\u00f3ria em que nosso personagem volta \u00e0 cena. Esta \u00e9 a segunda vez que Aleksei Navalny sofre tentativa de assassinato por ingest\u00e3o de veneno.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a primeira vez, talvez n\u00e3o a \u00faltima, que se busque intoxicar a palavra de protesto, de contesta\u00e7\u00e3o, de den\u00fancia. N\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima vez que um governo que n\u00e3o aceite a altern\u00e2ncia e competi\u00e7\u00e3o de ideias, a incerteza do resultado do jogo, ou ainda, a cr\u00edtica aos seus erros, n\u00e3o recorra ao envenenamento de todos que possam amea\u00e7ar sua perman\u00eancia. Nem sempre o fazem com uma arma qu\u00edmica, detect\u00e1vel pela ci\u00eancia, mas provavelmente com alguma forma hostil de eliminar o contraponto, o diferente, o potencial substituto de quem n\u00e3o aceita abrir m\u00e3o do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Na R\u00fassia Czarista, quando n\u00e3o mais era aceito, Rasputin resistiu ao cianureto. Na Inglaterra do Brexit, os Skripal sobreviveram ao novichok. Mas, ainda n\u00e3o se sabe se Nalvany sucumbir\u00e1 ao mesmo veneno e se tornar\u00e1 mais um personagem de hist\u00f3ria de uma experi\u00eancia de poder onde se busca silenciar a palavra, destruindo-se, desde dentro, a possibilidade de uma oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Xavier P. Garcias em Foter.com \/ CC BY-NC-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quantas vezes no mundo das intrigas pessoais e pol\u00edticas, disputas por poder, honra e raiva do inimigo, vimos aparecer o veneno como personagem da hist\u00f3ria. Estas mortes povoam fantasias de segredos, a\u00e7\u00f5es ardis e covardes, den\u00fancias e busca de reparo de reputa\u00e7\u00e3o e dignidade mediante humilha\u00e7\u00e3o ou injusti\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"author":108,"featured_media":2184,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16976,16947,16708,16947,546],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2175","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-rusia-es-pt-br","8":"category-internet-es-pt-br","9":"category-politica-pt-br","11":"category-sociedad-br","12":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/108"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2175"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2175\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2175"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}