{"id":2188,"date":"2020-09-17T05:48:56","date_gmt":"2020-09-17T08:48:56","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2188"},"modified":"2024-06-20T07:13:33","modified_gmt":"2024-06-20T10:13:33","slug":"nacionalismo-em-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/nacionalismo-em-disputa\/","title":{"rendered":"Nacionalismo em disputa"},"content":{"rendered":"\n<p>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de marginaliza\u00e7\u00e3o e desprezo, o nacionalismo est\u00e1 novamente na moda. Sua demoniza\u00e7\u00e3o foi amplamente promovida e difundida pelos dois grandes expoentes ideol\u00f3gicos da geopol\u00edtica global durante o per\u00edodo p\u00f3s-guerra mundial. Primeiro, aqueles que pregavam a ideologia liberal, liderada pelos Estados Unidos, promovendo valores universais em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia e mercados sem fronteiras. Segundo, do ponto de vista marxista, liderado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, do qual se buscou a constru\u00e7\u00e3o de um socialismo mundial. Ambas as correntes lutavam contra o nacionalismo, que era considerado arcaico, elitista, protecionista, estadista ou fascista.<\/p>\n\n\n\n<p>Os grandes advers\u00e1rios ideol\u00f3gicos do &#8216;nacionalismo&#8217; est\u00e3o hoje em crise, assim como a ideia da &#8216;globaliza\u00e7\u00e3o&#8217;. Isto abre as portas para o retorno das vis\u00f5es culturais nacionais, em alguns casos embaladas dentro das dimens\u00f5es civilizat\u00f3rias. O objetivo \u00e9 agrupar sociedades ou comunidades al\u00e9m de um espa\u00e7o territorial nacional, a fim de apoiar projetos de expans\u00e3o geopol\u00edtica. N\u00e3o \u00e9 que eles n\u00e3o queiram ser globais, o problema deles \u00e9 que hoje n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a para que sejam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>h\u00e1 uma tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o a partir de baixo, projetando-se transnacionalmente em espa\u00e7os &#8216;civilizat\u00f3rios&#8217;.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Neste contexto, h\u00e1 uma tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o a partir de baixo, projetando-se transnacionalmente em espa\u00e7os &#8216;civilizat\u00f3rios&#8217;. Um exemplo recente foi a tentativa de construir um novo &#8220;Estado isl\u00e2mico&#8221; dentro da estrutura de uma esp\u00e9cie de civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe-mu\u00e7ulmana. Outra \u00e9 a reconstru\u00e7\u00e3o da R\u00fassia em uma dimens\u00e3o nacional (e geopol\u00edtica) eurasi\u00e1tica. A autoidentifica\u00e7\u00e3o da China como um &#8220;estado- civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 interessante. Estes s\u00e3o projetos que buscam ir al\u00e9m do formato ocidental do Estado-na\u00e7\u00e3o vestefaliano, algo que, de certa forma, j\u00e1 havia sido anunciado por Samuel Huntington durante os anos 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 uma tend\u00eancia para simplificar o nacionalismo como um fen\u00f4meno fascista e &#8220;populista&#8221;, que hoje est\u00e1 ligado \u00e0 chamada &#8220;direita alternativa&#8221; (conhecida em ingl\u00eas como <em>alt-right<\/em>) estadunidense. A hegemonia global dos Estados Unidos est\u00e1 enfraquecida e a pot\u00eancia procura recompor seu dom\u00ednio sob um novo modelo. Por um lado, reconstruindo uma dimens\u00e3o nacional americana na chamada \u201cAmerica <em>first\u201d<\/em>. Por outro lado, ligando-a a uma proje\u00e7\u00e3o em escala global chamada &#8220;civiliza\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3&#8221;. Mas o nacionalismo n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio das grandes pot\u00eancias e pode e deve ser tamb\u00e9m uma ferramenta de pensamento geopol\u00edtico e de desenvolvimento a partir da periferia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Dimens\u00f5es do nacionalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O &#8220;nacionalismo&#8221; n\u00e3o deve ser visto como &#8220;unidimensional&#8221;. Ela existe em espa\u00e7os de &#8220;estados nacionais&#8221;, assim como em proje\u00e7\u00f5es regionais ou globais que podem ser chamadas de espa\u00e7os &#8220;macro-nacionais&#8221; ou de &#8220;quinta fronteira&#8221;. O sentimento nacionalista pode ser usado para fomentar rivalidades, bem como para promover esfor\u00e7os conjuntos, valorizando o bem-estar do compatriota como seu pr\u00f3prio bem-estar. Assim, os Estados, e especialmente as grandes pot\u00eancias, procuram expandir sua esfera de poder sobre outros espa\u00e7os. Esta \u00e9 uma maneira eficaz de gerar la\u00e7os de solidariedade e comunidade nacional que permitem o exerc\u00edcio de formas de &#8220;<em>soft power<\/em>&#8221; ou hegemonia cultural.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nenhuma das pot\u00eancias econ\u00f4micas, desde o surgimento do sistema capitalista, chegou \u00e0 supremacia sem medidas protecionistas<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outro aspecto a ser destacado \u00e9 a conex\u00e3o entre o nacionalismo e a economia. Tradicionalmente, o marxismo tem sido criticado por sua falta de &#8220;solidariedade&#8221; com respeito \u00e0s perspectivas de &#8220;classe social sem fronteiras&#8221;. E o ponto de vista &#8220;liberal&#8221; tem sido contraposto ao <em>homo economicus<\/em> e a &#8220;racionalidade&#8221; de um equil\u00edbrio &#8220;\u00f3timo&#8221; das for\u00e7as de mercado. No entanto, esta demoniza\u00e7\u00e3o do nacionalismo n\u00e3o tem sido uma constante ao longo do tempo. Nenhuma das pot\u00eancias econ\u00f4micas, desde o surgimento do sistema capitalista, chegou \u00e0 supremacia sem medidas protecionistas justificadas por abordagens nacionalistas e civilizat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>O nacionalismo tem sido e \u00e9 vital para que os pa\u00edses em desenvolvimento gerem la\u00e7os de solidariedade que facilitem a integra\u00e7\u00e3o interna de um Estado dentro da estrutura de um projeto de desenvolvimento social e industrial. Uma forma de compensar as restri\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas \u00e9 atrav\u00e9s da &#8220;integra\u00e7\u00e3o regional&#8221;, cujo sucesso \u00e0 longo prazo depende da constru\u00e7\u00e3o de um nacionalismo de &#8220;quinta fronteira&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, a dimens\u00e3o ideol\u00f3gica do nacionalismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno de &#8220;direita&#8221; ou &#8220;esquerda&#8221;, j\u00e1 que o encontraremos na &#8220;imagina\u00e7\u00e3o&#8221; de todos os Estados nacionais modernos. Vemos isso na invoca\u00e7\u00e3o do &#8220;sonho americano&#8221;, nas vis\u00f5es europeias de supremacia civilizacional, no ex\u00e9rcito vermelho lutando pela &#8220;grande p\u00e1tria&#8221;. O nacionalismo \u00e9 um instrumento eficaz que apela para sentimentos profundos, move as massas, confronta e tamb\u00e9m une. Tudo depende do uso que \u00e9 dado a ele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nossa coisa (latino) americana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica tem tido na\u00e7\u00f5es (e Estados-na\u00e7\u00e3o) de diferentes dimens\u00f5es desde antes da coloniza\u00e7\u00e3o. Com a chegada dos europeus, as ideias nacionais foram regeneradas e surgiu a conex\u00e3o entre as ideias nacionais e a proje\u00e7\u00e3o global. Talvez o mais poderoso neste sentido tenha sido a identidade cat\u00f3lica nacional e global. Com a independ\u00eancia, houve um novo processo de imagina\u00e7\u00e3o e reconex\u00e3o. Novos Estados-na\u00e7\u00e3o surgiram e os Estados Unidos conseguiram criar um projeto bem-sucedido de desenvolvimento econ\u00f4mico e unidade. No caso da Am\u00e9rica Latina, o que Felipe Herrera chamou de &#8220;na\u00e7\u00e3o fragmentada&#8221; foi constru\u00eddo, procurando compensar as limita\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas com novos la\u00e7os supranacionais de integra\u00e7\u00e3o regional.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, os Estados Unidos tentaram projetar sua dimens\u00e3o nacional em uma quinta fronteira americana, criando o Pan-americanismo. Mas durante o s\u00e9culo 20 este projeto perdeu prioridade para o projeto de hegemonia global estadunidense. Hoje, o retorno \u00e0 &#8220;Am\u00e9rica primeiro&#8221; n\u00e3o \u00e9 um projeto continental americano. A quest\u00e3o \u00e9 se os Estados Unidos podem dispensar essa ambi\u00e7\u00e3o, levando em conta sua perda de supremacia geopol\u00edtica e a crescente rivalidade de pot\u00eancias estrangeiras, para agir em sua esfera de poder mais interna; o continente americano.<\/p>\n\n\n\n<p>O velho nacionalismo estadunidense n\u00e3o \u00e9 suficiente para gerar apoio e solidariedade, mesmo a n\u00edvel nacional. Se o processo de multipolaridade global continuar e sua perda de poder global for acentuada, o retorno dos Estados Unidos em busca de uma nova coes\u00e3o regional n\u00e3o pode ser descartado. O velho caminho pan-americano do s\u00e9culo XIX poderia ser um caminho a seguir, se &#8220;a Am\u00e9rica primeiro&#8221; se referisse ao continente. Por enquanto, este n\u00e3o \u00e9 o caso, a linha de &#8220;Estados Unidos primeiro&#8221; foi escolhida, n\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o de uma comunidade americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, o decl\u00ednio de seus projetos de integra\u00e7\u00e3o regional est\u00e1 ocorrendo ao mesmo tempo em que m\u00faltiplas crises est\u00e3o sendo enfrentadas; confrontos econ\u00f4micos, pand\u00eamicos e globais entre os Estados Unidos e a China. Diante destes desafios comuns, \u00e9 vital conceber um projeto de desenvolvimento nacional ligado \u00e0 dimens\u00e3o regional e global. Mas o sucesso de um projeto regional supranacional est\u00e1 ligado a uma &#8220;comunidade imaginada&#8221;, uma dimens\u00e3o nacional da &#8220;quinta fronteira&#8221;. O fato de a Am\u00e9rica Latina ter perdido a lideran\u00e7a do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) deve-se principalmente a uma falta de vis\u00e3o sobre o papel do banco e, sobretudo, da regi\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a si mesma. Esta falta de vis\u00e3o contrasta fortemente com as ideias do primeiro presidente do BID, o chileno Felipe Herrera, que via o banco como &#8220;mais do que um banco&#8221;. Para ele, o BID foi um &#8220;banco da integra\u00e7\u00e3o&#8221; e um instrumento para o desenvolvimento do &#8220;povo continental&#8221; latino-americano na constru\u00e7\u00e3o de um Estado comum.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de Gage Skidmore em Foter.com \/ CC BY-SA<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os grandes advers\u00e1rios ideol\u00f3gicos do &#8216;nacionalismo&#8217; est\u00e3o hoje em crise, assim como a ideia da &#8216;globaliza\u00e7\u00e3o&#8217;. 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O objetivo \u00e9 agrupar sociedades ou comunidades al\u00e9m de um espa\u00e7o territorial nacional, a fim de apoiar projetos de expans\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":2186,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16801,16811,16801,16708,16708,16811,14439,546],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2188","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-integracion-regional-pt-br","8":"category-nacionalismo-pt-br","10":"category-politica-pt-br","13":"category-integracao","14":"category-sociedad-br","15":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2188","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2188"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2188\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2186"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2188"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2188"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2188"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2188"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}