{"id":225,"date":"2019-05-01T10:22:59","date_gmt":"2019-05-01T13:22:59","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=225"},"modified":"2024-06-21T08:04:34","modified_gmt":"2024-06-21T11:04:34","slug":"a-economia-politica-de-um-estado-fraco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-economia-politica-de-um-estado-fraco\/","title":{"rendered":"A economia pol\u00edtica de um Estado fraco"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 faz muito tempo que o Estado argentino se caracteriza\npela fraqueza. Esse tra\u00e7o b\u00e1sico de nosso Estado n\u00e3o \u00e9 ignorado por pessoa\nalguma, mas pouca gente extrai desse fato as devidas conclus\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Afirmar que \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir o Estado \u00e9 muito bom,\nmas n\u00e3o nos leva muito longe; o tempo \u00e9 um ingrediente indispens\u00e1vel, sim, e\nseria preciso come\u00e7ar o trabalho o mais cedo poss\u00edvel, mas enquanto isso tanto\nos governos quanto os grupos sociais interessados deveriam encarar os problemas\ncom os recursos dispon\u00edveis, por mais inadequados que sejam, e n\u00e3o com aqueles\nque gostar\u00edamos de ter.<\/p>\n\n\n\n<p>Os exemplos de fragilidade do Estado s\u00e3o muitos, mas podemos\noferecer quatro, aqui: o Estado est\u00e1 permanentemente exposto \u00e0s tens\u00f5es da\ndolariza\u00e7\u00e3o da economia argentina e n\u00e3o conta com meios adequados para\nsuper\u00e1-la; suas capacidades extrativas s\u00e3o elevadas mas repousam sobre uma base\nnotoriamente desigual; o quadro fiscal, que melhorou nos \u00faltimos anos, est\u00e1\namea\u00e7ado por bombas-rel\u00f3gio que todos conhecem, como o financiamento futuro do\nregime de aposentadoria.<\/p>\n\n\n\n<p>O poder do Estado para enquadrar e disciplinar as condutas\ncoletivas, especialmente o de conseguir que agentes organizados apoiem mudan\u00e7as\nestruturais ou ofere\u00e7am respaldo tang\u00edvel a pol\u00edticas de moderniza\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito\nbaixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, nosso Estado est\u00e1 sob efeito de outra fraqueza, que\nn\u00e3o \u00e9 propriamente estatal mas repercute brutalmente sobre ele: a baixa\ncapacidade de coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e um capital de confian\u00e7a muito baixo, da\nparte dos agentes e dos cidad\u00e3os, com rela\u00e7\u00e3o aos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O que resulta da instabilidade do Estado \u00e9 uma espiral dos\ngrandes pre\u00e7os (por exemplo taxas de c\u00e2mbio, sal\u00e1rios, servi\u00e7os etc.), que se\nexpressa emblematicamente em nossa infla\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica \u2013infla\u00e7\u00e3o que tem impacto\narrasador sobre o Estado, sobre o investimento e sobre a distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os governos est\u00e3o em uma fase macroecon\u00f4mica de suposto\ncontrole sobre as vari\u00e1veis, as vozes cr\u00edticas t\u00eam alcance reduzido, \u00e9 l\u00f3gico.\nE as pessoas que advertem que tudo acabar\u00e1 muito mal tampouco est\u00e3o dizendo\nqualquer coisa de novo, porque os problemas n\u00e3o s\u00e3o muito novos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>quando a gest\u00e3o macroecon\u00f4mica passa por enormes turbul\u00eancias, como vem sendo o caso h\u00e1 um ano, proliferam as propostas<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas quando a gest\u00e3o macroecon\u00f4mica passa por enormes\nturbul\u00eancias, como vem sendo o caso h\u00e1 um ano, proliferam as propostas de\npol\u00edticos e economistas que parecem calcadas, em grau consider\u00e1vel, em\nexperi\u00eancias passadas, e que alimentam ilus\u00f5es sobre formas de sair da crise e\ncolocar o Estado e a economia em um percurso sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Reaparece assim o l\u00e9xico dos consensos, dos acordos, dos\nplanos e das reformas abrangentes. Grandes, todos: grandes consensos, grandes\nacordos, grandes planos e grandes reformas estruturais. De direita, centro ou\nesquerda, n\u00e3o importa. Para reconstituir o Estado, para desenvolver uma\nprodutividade genu\u00edna, para administrar adequadamente a forma de c\u00e2mbio, etc.\nApela-se assim \u00e0 &#8220;boa vontade&#8221; (falar com o cora\u00e7\u00e3o, perguntar quanto\ncada um est\u00e1 disposto a oferecer, e n\u00e3o pedir, a fim de consertar o pa\u00eds para\ntodos); e tudo isso resulta em comportamentos defensivos e conservadores.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema de todas essas promessas e propostas \u00e9 que s\u00e3o\nfalazes, circulares, por padecerem do mesmo defeito: sup\u00f5em a exist\u00eancia\ndaquilo que prometeriam criar, ou seja, de um Estado forte e de um capital de\nconfian\u00e7a e capacidade de coopera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (interpartid\u00e1ria ou de outra\nordem).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de peti\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em princ\u00edpio (disponho-me a\nconstruir um Estado forte presumindo que j\u00e1 conte com ele para realizar a\ntarefa) pode ser ilustrada com exemplos simples: dizemos que s\u00e3o necess\u00e1rias\ntr\u00eas grandes reformas estruturais: das aposentadorias, das leis trabalhistas e\ndos impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito bem; para qu\u00ea? Para tirar o Estado e a economia da\narmadilha estrat\u00e9gica em que se encontram. Mas, argumentando por oposi\u00e7\u00e3o, se\nn\u00e3o dispomos dos ativos pol\u00edticos e econ\u00f4micos necess\u00e1rios para reerguer o\nEstado, de onde extrairemos as energias necess\u00e1rias a uma reforma como essa?\nTodas elas custam dinheiro (os ajustes s\u00e3o car\u00edssimos), e todas requerem uma\ndose elevada de coopera\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a, e nada disso est\u00e1 dispon\u00edvel. O que se\npode concluir dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>O conselho que dou a mim mesmo \u00e9 o de colocar cera nos\nouvidos, porque, diferentemente de Ulisses, n\u00e3o tenho as m\u00e3os atadas e nos\npr\u00f3ximos meses deverei us\u00e1-las para colocar c\u00e9dulas em urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>Melhor desconfiar das promessas de grandes acordos; dos\nmacroeconomistas que nos seduzem com a magia de seus planos (e, se eles\nacreditam nessa magia, \u00e9 preciso desconfiar mais ainda); ou dos pacotes\nviolentos de reformas (que costumam ser os piores).<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos exigir que os governos, como queria o economista\nAlbert Hirschman, avancem o m\u00e1ximo que puderem com reformas parciais,\nrealizadas pouco a pouco, que contribuam para posicionar melhor os incentivos\nestatais, econ\u00f4micos e pol\u00edticos, e v\u00e3o construindo a confian\u00e7a e a capacidade\nde coopera\u00e7\u00e3o, ainda que n\u00e3o resolvam de imediato qualquer dos grandes\nproblemas, e que estes, por isso, continuem a bater \u00e0 nossa porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos fazer pol\u00edtica, e pol\u00edtica econ\u00f4mica, com o que\ntemos e n\u00e3o com o que gostar\u00edamos de ter. \u00c9 preciso assumir a pen\u00faria, e tratar\nde administr\u00e1-la com a maior equidade poss\u00edvel, aguentar o sufoco da crise e\ntratar de ir construindo as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para mudan\u00e7as de maior\nenvergadura no Estado e na economia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afirmar que \u00e9 necess\u00e1rio reconstruir o Estado \u00e9 muito bom, mas n\u00e3o nos leva longe; que, indispens\u00e1vel, leva tempo, devemos come\u00e7ar agora, sim, mas enquanto isso precisamos enfrentar os problemas com os recursos dispon\u00edveis.<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":221,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16734,16750,17039],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-225","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-argentina-pt-br","8":"category-economia-pt-br","9":"category-internet-es-en","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/225\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=225"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}