{"id":2339,"date":"2020-10-02T07:09:43","date_gmt":"2020-10-02T10:09:43","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2339"},"modified":"2024-06-24T09:24:50","modified_gmt":"2024-06-24T12:24:50","slug":"a-pandemia-inventou-o-intervencionismo-neoliberal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-pandemia-inventou-o-intervencionismo-neoliberal\/","title":{"rendered":"A pandemia inventou o intervencionismo neoliberal"},"content":{"rendered":"\n<p>A pandemia exp\u00f4s os governos a uma s\u00e9rie de dilemas inexistentes em tempos normais. Priorizar a economia ou a sa\u00fade? Respeitar as liberdades civis ou o controle social? Privilegiar a sa\u00fade em termos mais amplos de bem-estar ou reduzida a uma blindagem contra o v\u00edrus?<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dilemas v\u00e3o al\u00e9m de uma escolha entre caminhos alternativos e interpelam as autoridades sobre sua capacidade para navegar as contradi\u00e7\u00f5es e conceber uma no\u00e7\u00e3o moderna de sociedade saud\u00e1vel e sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00edderes da Europa Ocidental e de pa\u00edses vizinhos, como o Uruguai, souberam como pilot\u00e1-los. Flexibilizaram as quarentenas, revisaram suas posturas em casos de ressurgimento dos cont\u00e1gios e assumiram a responsabilidade por ordenar exames em escala maci\u00e7a de suas popula\u00e7\u00f5es, em lugar de mant\u00ea-las reprimidas ou confinadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mobilizaram os cidad\u00e3os para adotar uma \u00e9tica de preven\u00e7\u00e3o, sem abdicar de seu papel de garantir efetivamente a sa\u00fade coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraste, uma parte dos dirigentes da Europa Oriental e da Am\u00e9rica Latina parece ter naufragado diante das escolhas ou, ainda pior, parece ter feito da intensifica\u00e7\u00e3o dessas contradi\u00e7\u00f5es uma forma de governar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os naufr\u00e1gios, um parece \u00f3bvio. Fruto do isolamento social e de uma pol\u00edtica de sa\u00fade ancorada no medo do cont\u00e1gio, os governos pioraram a sa\u00fade coletiva ao se proporem a melhor\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso ocorreu nos lugares em que o confinamento anticont\u00e1gio causou sobrepeso, a ado\u00e7\u00e3o de dietas com alimentos industrializados causadoras de s\u00e9rias consequ\u00eancias cardiol\u00f3gicas, e atrofia muscular.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses contextos, dispararam em n\u00famero os casos de depress\u00e3o infantil e adulta, ansiedade generalizada, ins\u00f4nia e s\u00edndrome de p\u00e2nico, e o consumo de psicotr\u00f3picos, drogas il\u00edcitas e bebidas alco\u00f3licas foi incentivado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o, e mais a posterga\u00e7\u00e3o de exames e tratamentos de problemas m\u00e9dicos, certamente n\u00e3o auguram uma vit\u00f3ria para a sa\u00fade, em uma era de quarentenas muito longas. Se a isso, como nos casos argentino, peruano, colombiano ou equatoriano, somarmos uma acelera\u00e7\u00e3o no n\u00famero de casos de Covid-19, o naufr\u00e1gio parece muito claro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Um dos caminhos mais impensados vem sendo o de converter as contradi\u00e7\u00f5es em forma de governo.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um dos caminhos mais impensados vem sendo o de converter as contradi\u00e7\u00f5es em forma de governo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cavalgando sobre a posi\u00e7\u00e3o central recuperada pelo Estado por conta da pandemia, dirigentes como os da Argentina promoveram uma intensifica\u00e7\u00e3o peculiar dos antagonismos sobre como governar em uma crise<\/p>\n\n\n\n<p>Os dirigentes foram ampliando seu intervencionismo em \u00e2mbitos desvinculados da gest\u00e3o do v\u00edrus e ao mesmo tempo transferiram aos indiv\u00edduos a responsabilidade pelo exerc\u00edcio de um autocontrole disciplinante da pr\u00f3pria sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia revela a miopia de um modelo neoliberal que reduz o financiamento ao sistema de sa\u00fade p\u00fablica sob o argumento de que a iniciativa privada \u00e9 mais eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, os governos populistas que encarnam retoricamente um modelo de intervencionismo propiciador do bem-estar coletivo abdicam na pr\u00e1tica de seu papel de agentes da mudan\u00e7a, repassando os compromissos e as culpas aos indiv\u00edduos. Dessa maneira reproduzem a cartilha neoliberal.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica longe a presen\u00e7a de um Estado eficaz diante da pandemia quando, como no caso argentino, nem metade do or\u00e7amento de emerg\u00eancia para a sa\u00fade \u00e9 despendido, e exames e a distribui\u00e7\u00e3o de kits em escala pr\u00f3xima \u00e0 necess\u00e1ria s\u00e3o omitidos, ou se permite que as classes altas embolsem um ter\u00e7o da assist\u00eancia de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma soma de inefic\u00e1cias a que devemos acrescentar, al\u00e9m disso, os casos de neg\u00f3cios paralelos e compras superfaturadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A distribui\u00e7\u00e3o de subs\u00eddios de emerg\u00eancia, a absor\u00e7\u00e3o parcial de custos trabalhistas das empresas ou os resgates setoriais discriminados simulam um resgate do Estado de bem-estar. Isso ocorre \u2013paradoxalmente\u2013 em paralelo com a omiss\u00e3o da gest\u00e3o efetiva da sa\u00fade p\u00fablica ao ser delegado ao indiv\u00edduo o papel central na manuten\u00e7\u00e3o dos procedimentos e obten\u00e7\u00e3o de resultados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Essa contradi\u00e7\u00e3o consagra um culto de constante autogest\u00e3o individual da pr\u00f3pria sa\u00fade, que transfere ao indiv\u00edduo a responsabilidade e a culpa pela vigil\u00e2ncia pessoal<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Essa contradi\u00e7\u00e3o consagra um culto de constante autogest\u00e3o individual da pr\u00f3pria sa\u00fade, que transfere ao indiv\u00edduo a responsabilidade e a culpa pela vigil\u00e2ncia pessoal e pelas eventuais falhas na profilaxia anticont\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Se crescem os n\u00fameros de cont\u00e1gios e mortes, e a sensa\u00e7\u00e3o de descontrole da pandemia, n\u00e3o \u00e9 porque o governo fracassou em fornecer exames em grande escala ou porque n\u00e3o adquiriu em tempo os equipamentos necess\u00e1rios, ou comprou produtos defeituosos por falta de fiscaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A culpa \u00e9 das pessoas, que n\u00e3o foram capazes de assimilar a quarentena. Curiosamente, quanto maior a ret\u00f3rica em favor de um Estado forte, mais intensa a pr\u00e9dica que transfere responsabilidades aos indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p>A virada neoliberal do intervencionismo populista se apoia em quatro pilares.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do conceito de sa\u00fade e bem-estar \u00e0 blindagem contra o v\u00edrus, via confinamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 a transfer\u00eancia discursiva ao indiv\u00edduo da capacidade e responsabilidade por executar tal blindagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro \u00e9 a dissemina\u00e7\u00e3o de um lema de profilaxia individual ancorado em rituais de higiene e limpeza.<\/p>\n\n\n\n<p>E o \u00faltimo, a atribui\u00e7\u00e3o de culpa \u00e0s pessoas, e n\u00e3o ao Estado ou seus dirigentes, pelos eventuais fracassos em controlar a pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Repetindo o credo neoliberal, a arenga governamental insiste em que autocontrole disciplinado, aut\u00f4nomo e informado do pr\u00f3prio corpo leva \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u201cempoderamento\u201d dos indiv\u00edduos n\u00e3o gera um enfraquecimento do Estado; suas autoridades continuam controlando os recursos, mas os usam de acordo com seus crit\u00e9rios, enquanto atribuem a terceiros a responsabilidade pelos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Nao e a primeira vez que autoridades entusiastasde mais intervencao estatal terminam por neoliberalizar a administracao de problemas graves.<\/p>\n\n\n\n<p>A gest\u00e3o da mudan\u00e7a do clima segue a mesma cartilha. Nesse caso, campanhas e pol\u00edticas p\u00fablicas colocam a autorregula\u00e7\u00e3o do consumidor como principal eixo de transforma\u00e7\u00e3o rumo \u00e0 meta de uma menor destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, estimulando a reforma do consumo individual (o consumo verde), responsabilizando e culpando o indiv\u00edduo pelos eventuais descumprimentos dos objetivos de redu\u00e7\u00e3o da polui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>o Estado se exime de executar pol\u00edticas que afetem interesses estabelecidos ou de alterar o funcionamento de seu sistema.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Assim, o Estado se exime de executar pol\u00edticas que afetem interesses estabelecidos ou de alterar o funcionamento de seu sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa maneira, preserva seu financiamento f\u00e1cil com base em impostos sobre o consumo de combust\u00edveis ou a propriedade de carros, e evita o trabalho de longo prazo de criar, por exemplo, uma nova matriz energ\u00e9tica inteiramente renov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Como no caso da Covid-19, esse empoderamento do consumidor, mais que debilitar o Estado, faz do consumidor o bode expiat\u00f3rio e livra o Estado de press\u00f5es setoriais.<\/p>\n\n\n\n<p>A contradi\u00e7\u00e3o entre intervencionismo estatal com rela\u00e7\u00e3o a recursos e promo\u00e7\u00e3o da autogest\u00e3o individual como solu\u00e7\u00e3o para a crise surge como uma forma de governo, mais do que como um dilema a ser resolvido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais que guerrear entre si, s\u00e3o abordagens que se complementam, propondo um reordenamento da sociedade com base em uma regulamenta\u00e7\u00e3o exercida a um s\u00f3 tempo de cima (as pol\u00edticas de Estado para a quarentena, medidas de emerg\u00eancia econ\u00f4mica e assistencialismo) e pela popula\u00e7\u00e3o mesma (autocontrole disciplinador).<\/p>\n\n\n\n<p>No seio do paradoxo de ver governos intervencionistas que privatizam a responsabilidade por sobreviver \u00e0 crise atual, h\u00e1 tens\u00f5es de longo prazo incorporadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cidad\u00e3os aceitar\u00e3o o fardo de cuidar da solu\u00e7\u00e3o pessoalmente, sem questionar o Estado que promove tal transfer\u00eancia? Dada a escassez de recursos, o Estado n\u00e3o tentar\u00e1 ampliar essa isen\u00e7\u00e3o e transfer\u00eancia de responsabilidade a outros \u00e2mbitos?<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>*<\/em>\u00a0<em>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/em><\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Gustavo Minas em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pandemia exp\u00f4s os governos a uma s\u00e9rie de dilemas inexistentes em tempos normais. Respeitar as liberdades civis ou o controle social? Uma parte da lideran\u00e7a parece ter sido naufragada antes desses disjuntivos ou, pior ainda, teria transformado a intensifica\u00e7\u00e3o dessas contradi\u00e7\u00f5es numa forma de governo. <\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":2329,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16784,16789,546],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2339","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-neoliberalismo-pt-br","8":"category-pandemia-pt-br","9":"category-sociedad-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2339"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2339\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2329"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2339"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2339"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2339"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}