{"id":2501,"date":"2020-10-15T05:57:54","date_gmt":"2020-10-15T08:57:54","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2501"},"modified":"2023-08-23T16:02:08","modified_gmt":"2023-08-23T19:02:08","slug":"fake-news-e-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/fake-news-e-pandemia\/","title":{"rendered":"Fake News e pandemia"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Coautora Fernanda Veggetti<\/strong> \/ A de 2020 n\u00e3o \u00e9 a primeira pandemia que a humanidade viveu, e n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima. Pelo menos \u00e9 o que dizem os especialistas. O que \u00e9 novo \u00e9 que esta peste coincide com o maior per\u00edodo de interconectividade que temos experimentado como esp\u00e9cie. Se pensaria ent\u00e3o que as complexas redes de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o que desfrutamos hoje, gra\u00e7as \u00e0 vertiginosa acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos \u00faltimos anos, poderiam ter sido ferramentas \u00fateis neste contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade e o potencial das novas tecnologias para produzir e trocar informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e verific\u00e1veis, que servem como base para a elabora\u00e7\u00e3o de planos de a\u00e7\u00e3o conjuntos em n\u00edvel global que permitem lidar a emerg\u00eancia sanit\u00e1ria \u00e9 uma das faces da moeda. A outra, menos amig\u00e1vel, \u00e9 a da dissemina\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o quase irrestrita de informa\u00e7\u00f5es que reproduzem meias verdades, mentiras, teorias conspirat\u00f3rias e, em geral, conte\u00fados que geram confus\u00e3o e impactam a qualidade das tomadas de decis\u00f5es individuais e coletivas. Assim, tanto a difus\u00e3o de not\u00edcias falsas quanto o fluxo indiscriminado de informa\u00e7\u00f5es se tornaram mais duas preocupa\u00e7\u00f5es dentro do extenso cat\u00e1logo de inquieta\u00e7\u00f5es que a pandemia est\u00e1 nos deixando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O excesso de informa\u00e7\u00e3o pode gerar efeitos psicol\u00f3gicos na popula\u00e7\u00e3o, como depress\u00e3o e exaust\u00e3o emocional&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio de maio, a Organiza\u00e7\u00e3o Pan-Americana da Sa\u00fade (OPAS), em conjunto com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), publicou uma ficha informativa intitulada <a href=\"https:\/\/www.paho.org\/pt\/documents\/understanding-infodemic-and-misinformation-fight-against-covid-19\">Entendendo a Infodemia e a Desinforma\u00e7\u00e3o na Luta contra a Covid-19<\/a>, que alerta sobre as consequ\u00eancias tanto das infodemias (fluxo excessivo de informa\u00e7\u00f5es, verdadeiras ou n\u00e3o) quanto da desinforma\u00e7\u00e3o deliberada. Al\u00e9m do fato de ser exaustivo separar &#8220;o trigo do joio&#8221; das informa\u00e7\u00f5es, o relat\u00f3rio indica que, em muitos casos, os atores sociais, ansiosos para encontrar explica\u00e7\u00f5es e respostas, n\u00e3o estariam rastreando a origem das informa\u00e7\u00f5es, verificando sua validade ou estariam ignorando o contexto no qual elas s\u00e3o produzidas. Por outro lado, o documento assegura que o excesso de informa\u00e7\u00e3o pode gerar efeitos psicol\u00f3gicos na popula\u00e7\u00e3o, como depress\u00e3o e exaust\u00e3o emocional, tudo isso dentro de um clima social onde a desconfian\u00e7a e a suspeita j\u00e1 prevalecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os das duas organiza\u00e7\u00f5es mencionadas acima, e de in\u00fameras outras organiza\u00e7\u00f5es governamentais e n\u00e3o governamentais, <a href=\"https:\/\/www.theverge.com\/2020\/6\/11\/21287598\/coronavirus-disinformation-reports-google-facebook-twitter-eu-monthly\">gigantes tecnol\u00f3gicos<\/a> e outros atores em n\u00edvel global, regional e local, a infodemia e o v\u00edrus da desinforma\u00e7\u00e3o t\u00eam sido t\u00e3o dif\u00edceis de combater quanto o pr\u00f3prio <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-crise-permanece-e-a-estabilidade-e-recriada\/\">v\u00edrus<\/a> desta pandemia, especialmente na Am\u00e9rica Latina. Por que isso acontece? Dami\u00e1n Coll, autor do livro <em>En campa\u00f1a, manual de comunicaci\u00f3n pol\u00edtica en redes sociales<\/em>, esbo\u00e7a uma explica\u00e7\u00e3o inicial:<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a quarentena o &#8220;viveiro&#8221; de toda esta din\u00e2mica aumenta porque estamos mais expostos a conte\u00fados de todos os tipos, a retroalimenta\u00e7\u00e3o entre m\u00eddias gr\u00e1ficas, televisivas e digitais \u00e9 maior, todos se alimentam de todos e todos n\u00f3s bebemos um pouco de todos e recebemos gatilhos que nos inspiram \u00e0s vezes a repetir ou retuitar, e muitas outras a reinterpretar e criar nossas pr\u00f3prias vers\u00f5es. Todos n\u00f3s gostamos de ser cronistas de nosso tempo, mesmo que n\u00e3o sejamos especialistas em nada, nem em pandemias, nem em economia, nem em pol\u00edtica internacional, nem em estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do que foi exposto por Coll, existem problemas claros na regi\u00e3o para identificar a veracidade das informa\u00e7\u00f5es. De acordo com um <a href=\"https:\/\/latam.kaspersky.com\/blog\/70-de-los-latinoamericanos-desconoce-como-detectar-una-fake-news\/17015\/\">estudo realizado pela empresa de seguran\u00e7a cibern\u00e9tica Kaspersky em conjunto com a consultoria de pesquisa de mercado chilena CORPA<\/a>, &#8220;70% dos latino-americanos n\u00e3o sabem como detectar ou n\u00e3o est\u00e3o seguros de reconhecer na Internet uma not\u00edcia falsa de uma not\u00edcia verdadeira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma linha, um artigo publicado em julho pelo jornal brit\u00e2nico <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2020\/jul\/26\/latin-america-coronavirus-tsunami-fake-news\">The Guardian<\/a> reflete a preocupa\u00e7\u00e3o com o &#8220;tsunami de desinforma\u00e7\u00e3o&#8221; na regi\u00e3o. A desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o artigo, &#8220;cria confus\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o e dificulta o combate eficaz ao v\u00edrus&#8221;. A lista de informa\u00e7\u00f5es falsas compilada pelo texto do The Guardian varia desde o &#8220;pitoresco&#8221; (&#8220;<a href=\"https:\/\/www.chiapasparalelo.com\/noticias\/chiapas\/2020\/05\/impiden-entrada-a-fumigadores-de-dengue-por-rumor-de-que-esparcerian-el-covid-19-en-venustiano-carranza\/\">Fumigadores da dengue impedidos de entrar por causa de rumores de que espalhariam o Covid-19 em Venustiano Carranza&#8221;<\/a>; &#8220;<a href=\"https:\/\/www.ambito.com\/informacion-general\/china\/estrello-su-auto-contra-la-embajada-y-dijo-que-la-cia-esta-detras-del-covid-19-n5111861\">Ele bateu com seu carro na embaixada chinesa e disse que &#8216;a CIA est\u00e1 por tr\u00e1s da Covid-19&#8242;&#8221;<\/a>), at\u00e9 o diretamente perigoso. Nesta \u00faltima categoria est\u00e3o inclu\u00eddas, sobretudo, informa\u00e7\u00f5es sobre receitas m\u00e1gicas, especiarias, po\u00e7\u00f5es e outros rem\u00e9dios milagrosos que, no melhor dos casos, n\u00e3o seriam \u00fateis contra a pandemia de Covid-19, mas que no pior dos casos poderiam afetar a sa\u00fade da pessoa que os consome.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-left\"><strong><em>Durante o m\u00eas de abril, o <a href=\"https:\/\/www.lanacion.com.ar\/el-mundo\/fake-news-medicas-panico-desinformacion-coronavirus-nid2355645\">Grupo de Diarios Am\u00e9rica (GDA)<\/a>, que agrupa v\u00e1rios dos principais jornais da regi\u00e3o, tamb\u00e9m assumiu a tarefa de listar algumas das informa\u00e7\u00f5es falsas mais importantes nos pa\u00edses onde circulam. Al\u00e9m das correntes que estavam divulgando medicamentos supostamente eficazes contra a COVID-19, havia toda uma s\u00e9rie de rumores e falsas not\u00edcias relacionadas \u00e0 doen\u00e7a.<\/em><\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Mas como se viralizam estas informa\u00e7\u00f5es? Sua reprodu\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada apenas \u00e0 ingenuidade dos usu\u00e1rios ou h\u00e1 outras vari\u00e1veis em jogo? Para quase ningu\u00e9m \u00e9 segredo o uso dos famosos bots e trolls em campanhas que buscam estabelecer um certo clima de opini\u00e3o p\u00fablica. Mas eles s\u00e3o realmente eficazes para este fim? N\u00e3o existem, no entanto, estudos sistem\u00e1ticos que demonstrem que os bots e trolls t\u00eam capacidade suficiente para instalar temas de maneira significativa na agenda p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o que \u00e9 realmente preocupante neste cen\u00e1rio onde coexistem m\u00eddias tradicionais e n\u00e3o tradicionais, redes sociais (com seus bots e trolls) e servi\u00e7os de mensagens instant\u00e2neas, n\u00e3o parece residir exclusivamente na dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas que poderiam prejudicar a sa\u00fade f\u00edsica e emocional das pessoas no contexto da pandemia. Igualmente alarmante \u00e9 que, em uma \u00e9poca de alta incerteza como a que vivemos, a infodemia e a dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas aprofundam o vi\u00e9s de confirma\u00e7\u00e3o e contribuem para o empobrecimento do debate p\u00fablico. Tamb\u00e9m leva \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas justo quando, para enfrentar um enorme desafio de sa\u00fade p\u00fablica, todas as etapas exigir\u00e3o pol\u00edticas consensuais e acordos com os cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Becker1999 en Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Coautora Fernanda Veggetti<br \/>\nA de 2020 n\u00e3o \u00e9 a primeira pandemia que a humanidade viveu, e n\u00e3o ser\u00e1 a \u00faltima. Pelo menos \u00e9 o que dizem os especialistas. 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