{"id":2546,"date":"2020-10-19T05:10:52","date_gmt":"2020-10-19T08:10:52","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2546"},"modified":"2023-08-21T16:15:50","modified_gmt":"2023-08-21T19:15:50","slug":"vamos-derrubar-todas-as-estatuas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/vamos-derrubar-todas-as-estatuas\/","title":{"rendered":"Equador: Vamos derrubar todas as est\u00e1tuas!"},"content":{"rendered":"\n<p>A cada ano, com a chegada de 12 de outubro, na maioria dos pa\u00edses hispano-americanos surgem posi\u00e7\u00f5es opostas em torno da coloniza\u00e7\u00e3o espanhola, iniciada em 1492 e finalizada na primeira metade do s\u00e9culo XIX com os processos de independ\u00eancia. O Equador n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o: enquanto para alguns a exist\u00eancia da chamada &#8220;lenda negra&#8221; gerou um imagin\u00e1rio de vingan\u00e7a, rep\u00fadio e \u00f3dio ao que era o Imp\u00e9rio Espanhol, para outros \u00e9 uma data que lembra mais de 500 anos de resist\u00eancia dos povos origin\u00e1rios, que tiveram que suportar o saqueio, o sofrimento e a submiss\u00e3o da autoridade colonial e republicana.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ocasi\u00e3o da data, est\u00e1tuas de diferentes personagens da era colonial foram derrubadas ou vandalizadas em diferentes cidades da Am\u00e9rica Latina e dos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/licoes-latinas-para-as-eleicoes-nos-eua\/\">Estados Unidos<\/a>. No caso do Equador, alguns grupos de manifestantes ind\u00edgenas e outros que se autodenominam &#8220;hispanistas&#8221; encontraram na est\u00e1tua de Isabel a Cat\u00f3lica o espa\u00e7o ideal para expressar suas posi\u00e7\u00f5es a respeito do per\u00edodo colonial e introduzir na discuss\u00e3o p\u00fablica o velho debate sobre a presen\u00e7a espanhola na Am\u00e9rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas em um pa\u00eds como o Equador, onde ao longo de sua <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hist%C3%B3ria_do_Equador\">hist\u00f3ria<\/a> foram criados imagin\u00e1rios de l\u00edderes carism\u00e1ticos, baseados em supostos mandatos divinos ou inspira\u00e7\u00f5es messi\u00e2nicas, e cuja autoridade se articula em torno da figura do &#8220;iluminado&#8221;, a exist\u00eancia de monumentos que lembram essas lideran\u00e7as \u00e9, sem d\u00favida, prejudicial. Uma hist\u00f3ria marcada pela distin\u00e7\u00e3o Schmittiana de &#8220;amigo-inimigo&#8221;, que refor\u00e7a os relatos da bondade e dos pecados de diferentes l\u00edderes, distorce o que aconteceu em torno desses processos pol\u00edticos e sublinha a import\u00e2ncia de entender esses processos como mecanismos para a busca do poder; como meios para atingir fins espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>A exist\u00eancia de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica, que se concentra nos indiv\u00edduos e n\u00e3o nos processos, nos impede de ver que por tr\u00e1s dessas figuras idealizadas sempre existiram outros atores sem os quais seu sucesso teria sido imposs\u00edvel. Tal \u00e9 o caso dos afro-americanos que, no processo de emancipa\u00e7\u00e3o das rep\u00fablicas americanas, mudaram suas vidas pela possibilidade de sair da escravid\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m os ind\u00edgenas, que com seu trabalho e apesar da oposi\u00e7\u00e3o das elites latifundi\u00e1rias, ajudaram a construir estradas que permitiram um maior com\u00e9rcio interno no per\u00edodo conhecido como &#8220;Garcianismo&#8221; (1859-1875). Ou a participa\u00e7\u00e3o de uma elite costeira na expans\u00e3o, com ideias liberais, que teve seu \u00e1pice na revolu\u00e7\u00e3o de 5 de junho de 1895.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Alimentar os mitos relacionados aos her\u00f3is do pa\u00eds nada mais faz do que reproduzir a exist\u00eancia de figuras onipresentes na hist\u00f3ria, perpetuando a l\u00f3gica da &#8220;beatifica\u00e7\u00e3o&#8221; ou da &#8220;demoniza\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em sociedades onde a pol\u00edtica \u00e9 estruturada em torno do culto \u00e0 personalidade e onde o populismo faz parte de uma cultura pol\u00edtica oposta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es da democracia liberal, alimentar os mitos relacionados aos her\u00f3is do pa\u00eds nada mais faz do que reproduzir a exist\u00eancia de figuras onipresentes na hist\u00f3ria, perpetuando a l\u00f3gica da &#8220;beatifica\u00e7\u00e3o&#8221; ou da &#8220;demoniza\u00e7\u00e3o&#8221;. Tanto \u00e9 assim que n\u00e3o surpreende que ainda se ignore a defini\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas do Equador como uma &#8220;classe abjeta e miser\u00e1vel&#8221; na Constitui\u00e7\u00e3o de 1830 (mesmo que j\u00e1 tenhamos nos &#8220;libertado da opress\u00e3o ib\u00e9rica&#8221;), ou que 145 anos ap\u00f3s sua morte, Gabriel Garc\u00eda Moreno ainda seja considerado um &#8220;presidente m\u00e1rtir&#8221;. Entre outros casos semelhantes, alguns ainda consideram que Eloy Alfaro Delgado (l\u00edder da revolu\u00e7\u00e3o liberal no final dos s\u00e9culos XIX e XX) foi o \u00fanico construtor da ferrovia que ligava a costa com a serra (uma obra que come\u00e7ou em 1873), e o que \u00e9 pior, que em meados do s\u00e9culo XXI, o ex-presidente Rafael Correa \u00e9 considerado o &#8220;sucessor&#8221; do projeto liberal de Alfaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se queremos rever a hist\u00f3ria, que seja desconstruindo nossos &#8220;messias&#8221; e n\u00e3o &#8220;branqueando&#8221; processos violentos de domina\u00e7\u00e3o, como alguns grupos est\u00e3o defendendo atualmente, especialmente atrav\u00e9s de redes sociais. Continuar lembrando os l\u00edderes atrav\u00e9s de uma narrativa que os coloca acima do resto dos mortais, n\u00e3o mudar\u00e1 esse imagin\u00e1rio que busca o retorno de um &#8220;escolhido&#8221;, que &#8220;salvar\u00e1 a p\u00e1tria&#8221;. Se necessita uma democracia com institui\u00e7\u00f5es fortes e, para consegui-la, n\u00e3o basta ter um desenho institucional que permita seu funcionamento, mas uma cultura pol\u00edtica que a favore\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>E, talvez, um dos principais desafios para a sociedade do Equador \u00e9 precisamente construir essa cultura pol\u00edtica que permita verdadeiramente compreender o significado de democracia. Uma democracia que reconhece o pluralismo das vis\u00f5es de mundo, das constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, t\u00e3o necess\u00e1rias para um equil\u00edbrio pol\u00edtico que garanta o exerc\u00edcio pleno dos direitos e liberdades fundamentais. Uma cultura pol\u00edtica que favore\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica longe de amea\u00e7as, da viol\u00eancia e do desrespeito entre posi\u00e7\u00f5es opostas; que permita maior inclus\u00e3o e compet\u00eancia de setores historicamente exclu\u00eddos, afastando-se assim dos fantasmas autorit\u00e1rios e totalit\u00e1rios que tamb\u00e9m se alimentam dos l\u00edderes pol\u00edticos. \u00c9 por isso que n\u00e3o s\u00f3 as est\u00e1tuas dos colonizadores, colonizados ou aqueles que nos governaram devem ser derrubadas; todas devem ser derrubadas!<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de C. Matges em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1tuas de personagens da era colonial foram vandalizadas em diferentes cidades da Am\u00e9rica Latina e dos Estados Unidos. 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