{"id":255,"date":"2019-04-25T05:37:13","date_gmt":"2019-04-25T08:37:13","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=255"},"modified":"2023-01-15T20:26:13","modified_gmt":"2023-01-15T23:26:13","slug":"o-exodo-venezuelano-um-desafio-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-exodo-venezuelano-um-desafio-regional\/","title":{"rendered":"O \u00eaxodo venezuelano: um desafio regional"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2016, depois que o governo colombiano e as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (Farc) assinaram os Acordos de Paz de Havana, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe inauguraram oficialmente um per\u00edodo sem conflitos armados. Apesar das a\u00e7\u00f5es do crime organizado, da presen\u00e7a de grupos armados n\u00e3o estatais e do fato de que a regi\u00e3o continua a ser a mais desigual e violenta do mundo, especialmente para as mulheres, os defensores dos direitos humanos ou do meio ambiente, e para os membros da comunidade LGBTI+, surgiu com esse acordo uma grande esperan\u00e7a de encontrar solu\u00e7\u00f5es negociadas para os conflitos n\u00e3o convencionais que ainda persistem. O grande paradoxo \u00e9 que o aparente fim do ciclo da viol\u00eancia armada coincidiu com a acelera\u00e7\u00e3o de uma das maiores migra\u00e7\u00f5es internacionais na hist\u00f3ria da regi\u00e3o, o \u00eaxodo venezuelano.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/venezuela-por-que-agora-as-coisas-sao-diferentes\/\">Venezuela<\/a> foi historicamente um dos destinos favoritos de migra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica do Sul e, como &#8220;pa\u00eds de bra\u00e7os abertos&#8221;, recebeu indistintamente europeus, asi\u00e1ticos, colombianos v\u00edtimas dos conflitos armados, exilados das ditaduras do Cone Sul e trabalhadores da regi\u00e3o e de fora dela atra\u00eddos pelo boom petroleiro da d\u00e9cada de 1970. Hoje, no entanto, a Venezuela enfrenta a pior crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social de sua hist\u00f3ria. Embora tenha as maiores reservas petroleiras do planeta, o pa\u00eds \u00e9 o quarto mais pobre da regi\u00e3o, acima apenas de Honduras, Nicar\u00e1gua e Haiti, e, de acordo com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), em 2019 sua economia se contrair\u00e1 em 25%, com infla\u00e7\u00e3o da ordem de 10.000.000%.  <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Venezuela enfrenta hoje a maior crise humanit\u00e1ria de sua hist\u00f3ria, e uma das principais consequ\u00eancias desse processo \u00e9 a fuga maci\u00e7a de pessoas&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias dessa situa\u00e7\u00e3o s\u00e3o grav\u00edssimas. Embora o pa\u00eds n\u00e3o publique estat\u00edsticas oficiais j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, de acordo com a mais recente pesquisa sobre condi\u00e7\u00f5es de vida na Venezuela (Encovi, 2017), 84% dos venezuelanos vivem na pobreza, em termos de renda, e 80% dos lares venezuelanos passam por inseguran\u00e7a alimentar. \u00c0 pobreza e \u00e0 fome se somam os problemas dos servi\u00e7os m\u00e9dicos e da escassez de medicamentos, a inseguran\u00e7a e o avan\u00e7o do crime organizado, os cortes repetidos de \u00e1gua e de luz, e uma infinidade de obst\u00e1culos que afetam o dia a a dia da popula\u00e7\u00e3o. O certo \u00e9 que a Venezuela enfrenta hoje a maior crise humanit\u00e1ria de sua hist\u00f3ria, e uma das principais consequ\u00eancias desse processo \u00e9 a fuga maci\u00e7a de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A emigra\u00e7\u00e3o venezuelana abarca 3,4 milh\u00f5es de pessoas e, de acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM) e a Ag\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os refugiados (Acnur), caso a crise atual se mantenha o n\u00famero pode subir a cinco milh\u00f5es de pessoas at\u00e9 o final de 2019. Na pr\u00e1tica, cinco mil pessoas deixaram a Venezuela a cada dia em 2018, e embora existam venezuelanos vivendo na Espanha, Estados Unidos e outros pa\u00edses, a maior parte do <a href=\"https:\/\/www.hrw.org\/pt\/report\/2018\/09\/03\/322039\">\u00eaxodo<\/a> (2,7 milh\u00f5es de pessoas) aconteceu dentro da regi\u00e3o, ou seja, se concentra na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. A Col\u00f4mbia \u00e9 o principal receptor de imigrantes venezuelanos, seguida por Peru, Chile e Equador, mas nenhum pa\u00eds da regi\u00e3o escapa ao fen\u00f4meno. <\/p>\n\n\n\n<p>A emigra\u00e7\u00e3o venezuelana se caracteriza por fluxos mistos que\nincluem deslocamentos for\u00e7ados e sa\u00eddas mais ou menos volunt\u00e1rias. Como\nfen\u00f4meno, seus efeitos s\u00e3o heterog\u00eaneos, e incluem a perda de capital humano no\npa\u00eds de origem, e ao mesmo tempo numerosos desafios econ\u00f4micos, pol\u00edticos e\nsociais para os pa\u00edses de chegada, j\u00e1 caracterizados estruturalmente por\ncar\u00eancias e problemas no que tange a garantir os direitos das pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa panorama e da forte politiza\u00e7\u00e3o do fluxo\nmigrat\u00f3rio venezuelano, com exce\u00e7\u00e3o de Uruguai, Brasil e Argentina \u2013que\nconferem resid\u00eancia Mercosul aos venezuelanos\u2013 e do Equador, que reconhece o\nvisto Unasur, os pa\u00edses da regi\u00e3o expressaram formas de solidariedade\nlimitadas, que incluem respostas essencialmente nacionais e discricion\u00e1rias,\ncom vistos especiais de resid\u00eancia em car\u00e1ter tempor\u00e1rio e, na maioria dos\ncasos, excetuado o M\u00e9xico, uma recusa em aplicar a defini\u00e7\u00e3o ampliada de &#8220;refugiado&#8221;\ncontida na Declara\u00e7\u00e3o de Cartagena, de 1984.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora avan\u00e7os tenham sido registrados na coopera\u00e7\u00e3o regional, como as iniciativas do Grupo de Lima e do Processo de Quito, cada pa\u00eds latino-americano e caribenho respondeu ao \u00eaxodo venezuelano de forma unilateral, o que deixou claro que nenhuma medida isolada \u00e9 suficiente e que s\u00e3o necess\u00e1rias respostas em diversos n\u00edveis \u2013local, nacional e regional. E se isso n\u00e3o bastasse, as &#8220;boas inten\u00e7\u00f5es&#8221; e as declara\u00e7\u00f5es iniciais de solidariedade para com &#8220;nossos irm\u00e3os venezuelanos&#8221; deram lugar progressivamente a medidas de restri\u00e7\u00e3o de entrada, de perman\u00eancia, e dos direitos da popula\u00e7\u00e3o imigrante.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e0 trag\u00e9dia do pa\u00eds vizinho \u00e9 preciso somar as\npol\u00edticas linha dura que n\u00e3o det\u00eam a imigra\u00e7\u00e3o mas aumentam a vulnerabilidade\ndos imigrantes, e for\u00e7am as pessoas a se deslocarem em condi\u00e7\u00f5es cada vez\npiores, contribuindo para o surgimento de pontos de passagem irregulares e de\nmecanismos de tr\u00e1fico de pessoas, e para a impossibilidade de regulariza\u00e7\u00e3o do\nstatus dos imigrantes; com isso, aprofundam-se fen\u00f4menos como a explora\u00e7\u00e3o de\nm\u00e3o de obra, a viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos e o aumento da precariedade, do\nracismo e da xenofobia nos pa\u00edses de chegada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por conta da virada conservadora da regi\u00e3o, os apelos\nrecentes e reiterados dos pa\u00edses latino-americanos para que os migrantes n\u00e3o\nsejam tratados como criminosos, para que seus direitos sejam respeitados e para\nque uma cidadania regional seja constru\u00edda parecem ter ficado para tr\u00e1s. Embora a Am\u00e9rica Latina e o Caribe continuem a ser uma\nregi\u00e3o mais de emigra\u00e7\u00e3o que de imigra\u00e7\u00e3o, a experi\u00eancia venezuelana est\u00e1\ndemonstrando que os grandes deslocamentos humanos vieram para ficar, e tornam\nnecess\u00e1rio que os Estados e outros atores coloquem em pr\u00e1tica os discursos e\npol\u00edticas baseados nos direitos humanos que a regi\u00e3o sempre alardeou quanto o\nassunto s\u00e3o as migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o importa quais sejam as posturas dos pa\u00edses com rela\u00e7\u00e3o\nao governo venezuelano, o \u00eaxodo oriundo da Venezuela cria um desafio regional\nque requer tratamento multilateral e a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas\nintegrais, e n\u00e3o restritas \u00e0 migra\u00e7\u00e3o. Para ir al\u00e9m das boas inten\u00e7\u00f5es, \u00e9\nurgente pensar que os imigrantes venezuelanos est\u00e3o em busca de um presente mas\nsobretudo de um futuro ao qual t\u00eam direito. Nesse cen\u00e1rio, cabe aos pa\u00edses da\nregi\u00e3o a responsabilidade e a oportunidade de cri\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Epois os Acordos de Paz de Havana, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe inauguraram oficialmente um per\u00edodo sem conflitos armados. 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