{"id":2617,"date":"2020-10-28T07:34:41","date_gmt":"2020-10-28T10:34:41","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2617"},"modified":"2023-08-18T18:42:28","modified_gmt":"2023-08-18T21:42:28","slug":"sobre-o-fim-de-um-ciclo-e-o-que-vira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sobre-o-fim-de-um-ciclo-e-o-que-vira\/","title":{"rendered":"Chile: o fim de um ciclo e o qu\u00e9 est\u00e1 por vir"},"content":{"rendered":"\n<p>O resultado contundente do plebiscito realizado no Chile em 25 de outubro de 2020, que consagrou a op\u00e7\u00e3o popular por uma nova Constitui\u00e7\u00e3o a ser elaborada por uma Assembleia Constituinte (Conven\u00e7\u00e3o Constitucional) eleita exclusivamente para este fim, carrega diversos simbolismos. Principalmente, encerra um longo per\u00edodo de submiss\u00e3o da sociedade chilena a um quadro legal ileg\u00edtimo. Mas, para al\u00e9m do ciclo que termina, \u00e9 dif\u00edcil prever o conte\u00fado do que o substituir\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de tudo, deve-se reconhecer a ilegitimidade da Constitui\u00e7\u00e3o de 1980, elaborada pela ditadura militar liderada por Augusto Pinochet no Chile e imposta atrav\u00e9s de um simulacro de plebiscito. Mais tarde, quando as oposi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas aceitaram participar do plebiscito de 1988, e atrav\u00e9s da campanha pelo <em>No<\/em> derrotaram nas urnas a alternativa de continuidade de Pinochet, n\u00e3o havia apenas o que comemorar. A participa\u00e7\u00e3o simbolizou tamb\u00e9m um reconhecimento t\u00e1cito das institui\u00e7\u00f5es pinochetistas, e consagrou-se a \u201ctransi\u00e7\u00e3o conservadora\u201d que encerrou a ditadura sem levar a uma democracia plena. Com a vit\u00f3ria de 1988, n\u00e3o havia sa\u00edda para as for\u00e7as democr\u00e1ticas a n\u00e3o ser negociar com a ditadura \u2013 e faz\u00ea-lo no campo de jogo escolhido por ela, sob suas regras, com seus \u00e1rbitros e com sua bola. <\/p>\n\n\n\n<p>Como consequ\u00eancia disso, tornaram-se famosas ao longo dos anos 1990 as an\u00e1lises da ci\u00eancia pol\u00edtica hegem\u00f4nica que davam conta de uma intermin\u00e1vel \u201ctransi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia\u201d no Chile. De fato, n\u00e3o se tratava de uma transi\u00e7\u00e3o sem fim, mas da passagem que j\u00e1 havia se completado para uma democracia limitada, de baix\u00edssima intensidade. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Se discutir\u00e1 por d\u00e9cadas se a sa\u00edda da ditadura poderia ter sido diferente&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Se discutir\u00e1 por d\u00e9cadas se a sa\u00edda da ditadura no Chile poderia ter sido diferente, ou se a <em>Concertaci\u00f3n de Partidos por la Democracia<\/em> (a oposi\u00e7\u00e3o que venceu a maioria das elei\u00e7\u00f5es presidenciais seguintes) poderia ter avan\u00e7ado mais decididamente no caminho das reformas democr\u00e1ticas e sociais e no ajuste de contas com o passado.<\/p>\n\n\n\n<p>De todo modo, tratava-se ent\u00e3o de uma sociedade marcada pelo trauma e reorganizada pelo \u201claborat\u00f3rio neoliberal\u201d inaugurado pela ditadura ainda nos anos 1970. A nova sociedade neoliberal no Chile que emergiu da ditadura foi apresentada internacionalmente como um caso neoliberal de sucesso. A estabilidade pol\u00edtica e altas taxas de crescimento econ\u00f4mico n\u00e3o permitiam entrever para a grande maioria dos analistas o que poderia estar ocorrendo nos subterr\u00e2neos, os magmas que poderiam estar se movendo. &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ocorrer o <em>estallido social<\/em> de 18 de outubro de 2019. N\u00e3o se tratou exatamente de um \u201craio em c\u00e9u azul\u201d. J\u00e1 haviam ocorrido nos anos anteriores diversos movimentos de protesto importantes, como o movimento de estudantes secundaristas de 2006 (a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o dos Pinguins\u201d). Mas nada como o <em>estallido social<\/em>, que ocupou as ruas por meses, fez brotar assembleias cidad\u00e3s e barricadas por toda parte (al\u00e9m das centenas de pr\u00e9dios p\u00fablicos e esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4 destru\u00eddas) e teve como ponto alto a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-latina-e-o-desafio-da-recuperacao-economica\/\">manifesta\u00e7\u00e3o<\/a> de 25 de outubro de 2019, a maior da hist\u00f3ria do Chile. O inesperado ocorria no pa\u00eds modelo. Nem s\u00e9culos de ci\u00eancia pol\u00edtica <em>mainstream<\/em> poderiam prev\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da viol\u00eancia popular que explodiu em diversos momentos durante a rebeli\u00e3o, n\u00e3o se deve esquecer dos mortos, feridos, violentados e humilhados pelas for\u00e7as policiais (dos 411 com ferimentos no globo ocular, por exemplo). De todo modo, este autor esteve em Santiago ao longo de todo o per\u00edodo, e p\u00f4de constatar, para al\u00e9m de pontuais explos\u00f5es de raiva, viol\u00eancia e depreda\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a, o j\u00fabilo e a liberta\u00e7\u00e3o no olhar de cada manifestante, de cada senhora, de cada jovem presente nos protestos. <\/p>\n\n\n\n<p>Se a explos\u00e3o havia come\u00e7ado com o aumento dos pre\u00e7os das passagens de metr\u00f4, logo emergiram diversas consignas nos protestos, quase tantas quanto os que as integravam. Mas se impuseram rapidamente os clamores por uma nova Constitui\u00e7\u00e3o, por reformas nos sistemas privados de pens\u00f5es e pela ren\u00fancia do presidente direitista Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era. Igualmente foram marcantes a emerg\u00eancia das quest\u00f5es de igualdade de g\u00eanero e da soberania mapuche (com sua bandeira sendo elevada a \u00edcone das manifesta\u00e7\u00f5es). &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A revolta social sem lideran\u00e7as foi canalizada para a mudan\u00e7a institucional&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A revolta social sem lideran\u00e7as foi canalizada para a mudan\u00e7a institucional, num acordo que envolveu a maioria das for\u00e7as pol\u00edticas que tentavam entender, conter ou se aproveitar da mobiliza\u00e7\u00e3o. Pi\u00f1era ficou, ainda que num longo fim de mandato. A reforma das pens\u00f5es segue sendo discutida. E acordou-se a realiza\u00e7\u00e3o do plebiscito para decidir se haveria constituinte e como ela seria, em lugar de convoc\u00e1-la de uma vez. Assim, ap\u00f3s um ano de incertezas e adiamentos (com a pandemia de Covid-19 tumultuando ainda mais o processo), enfim ocorreu o plebiscito. 78% aprovaram a elabora\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o, 79% definiram que seus autores ser\u00e3o assemble\u00edstas eleitos apenas com este fim (a outra op\u00e7\u00e3o \u201cmista\u201d seria com metade da assembleia composta por atuais congressistas).<\/p>\n\n\n\n<p>Somente um terremoto social para romper com todo o bloqueio institucional e a cristaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vinha se arrastando desde 1988, e para colocar em suspenso o modelo neoliberal internacionalmente glorificado. Contabilizados os votos do plebiscito, para onde essa clara op\u00e7\u00e3o pela mudan\u00e7a poder\u00e1 seguir? Ainda faltam algumas quest\u00f5es a serem definidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Constituinte. Haver\u00e1 paridade de g\u00eanero, qu\u00f3rum de dois ter\u00e7os e um referendo \u201cde sa\u00edda\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda n\u00e3o se sabe precisamente quando come\u00e7ar\u00e1, quanto tempo vai durar, e se a elabora\u00e7\u00e3o da Carta realmente vai partir do zero (\u201cfolha em branco\u201d) ou vai tomar algo da atual Constitui\u00e7\u00e3o como base. Quanto \u00e0s ruas, n\u00e3o se sabe se a <a href=\"https:\/\/www.reuters.com\/article\/chile-protestos-igrejaqueimada-idBRKBN2741RG-OBRWD\">insatisfa\u00e7\u00e3o<\/a> foi definitivamente canalizada para a via institucional. A manuten\u00e7\u00e3o da mobiliza\u00e7\u00e3o popular ser\u00e1 fundamental para determinar se as transforma\u00e7\u00f5es ir\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as no sistema pol\u00edtico acompanhadas de algumas reformas no modelo neoliberal; ou se caminhar\u00e3o para modifica\u00e7\u00f5es mais estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se sabe \u00e9 que estamos testemunhando o fim de um ciclo, mas \u00e9 dif\u00edcil projetar o que o substituir\u00e1. De todo modo, ainda que ao fim e ao cabo todo o potencial contido no <em>estallido social<\/em> n\u00e3o se realize, ao menos a sociedade chilena ter\u00e1 enfim uma Constitui\u00e7\u00e3o leg\u00edtima \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 pouco. Mas ainda est\u00e3o abertas as \u201cgrandes alamedas\u201d para a possibilidade de se desenvolver uma democracia de alta intensidade e de se refundar a organiza\u00e7\u00e3o social. Com isso, o Chile se afastaria de duas premissas centrais do neoliberalismo: o autoritarismo e o individualismo. <\/p>\n\n\n\n<p>E assim todo o processo poderia se revestir de uma import\u00e2ncia ainda mais transcendental do que j\u00e1 assumiu. Poderia projetar para a Am\u00e9rica Latina e para o mundo uma mensagem de mais democracia e de mais direitos, em meio a um contexto regional e global do avan\u00e7o de toda sorte de autoritarismos e de exclus\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de la ONG Movilh en Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O resultado do referendo chileno de 25 de outubro p\u00f5e fim a um longo per\u00edodo de submiss\u00e3o da sociedade chilena a um marco legal ileg\u00edtimo. 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