{"id":263,"date":"2019-04-18T12:33:12","date_gmt":"2019-04-18T15:33:12","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=263"},"modified":"2023-01-15T21:12:56","modified_gmt":"2023-01-16T00:12:56","slug":"a-falsidade-da-conquista-do-mexico-em-poucas-linhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-falsidade-da-conquista-do-mexico-em-poucas-linhas\/","title":{"rendered":"A falsidade da &#8216;conquista do M\u00e9xico&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>A carta em que o presidente do M\u00e9xico pede ao rei da Espanha\nque se desculpe pela &#8220;conquista&#8221; \u00e9 conhecida. A peti\u00e7\u00e3o recebeu tanto\ncr\u00edticas quanto aplausos. Em geral n\u00e3o me oponho a que um Estado reconhe\u00e7a\nerros passados com os quais tenha rela\u00e7\u00e3o clara &#8212;em um marco de tempo\nrazo\u00e1vel. Mas me oponho, especificamente, a que continue a ser repetida uma\nfal\u00e1cia que tem muitos efeitos negativos: a de que o &#8220;M\u00e9xico&#8221; foi\nconquistado pelos &#8220;espanh\u00f3is&#8221; contra os &#8220;\u00edndios&#8221;. Meu argumento\n\u00e9 emp\u00edrico e anal\u00edtico, n\u00e3o moral, embora tampouco possa ser descrito como\nimoral; ainda que eu favore\u00e7a as verdades hist\u00f3ricas, nada tenho contra os\nind\u00edgenas como pessoas. Tentarei explic\u00e1-lo, em quatro partes.<\/p>\n\n\n\n<p>1. Para come\u00e7ar: o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/mexico-drogas-proibicao-e-legalizacao\/\">M\u00e9xico<\/a> n\u00e3o existia. Portanto, conquist\u00e1-lo n\u00e3o era poss\u00edvel. Com a chegada de <a href=\"https:\/\/www.snh2011.anpuh.org\/resources\/anais\/14\/1300236838_ARQUIVO_CORTES_MEMORIA_ANPUH.pdf\">Hern\u00e1n Cort\u00e9s<\/a> a territ\u00f3rios que hoje fazem parte do M\u00e9xico, e como resultado de suas a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e militares posteriores, n\u00e3o ocorreu nem o descobrimento do M\u00e9xico nem sua conquista, mas sim o in\u00edcio de sua inven\u00e7\u00e3o. \u00c9 o invento sociopol\u00edtico da col\u00f4nia que conduz ao vice-reinado da Nova Espanha, sem o qual, por bem ou por mal, n\u00e3o existiria M\u00e9xico. O que passou a ser o M\u00e9xico surgiu depois da cria\u00e7\u00e3o da Nova Espanha, com ela e por seu interm\u00e9dio. O que significa que Cort\u00e9s &#8212;quer isso nos incomode, quer nos satisfa\u00e7a&#8212; assentou as primeiras bases para o pa\u00eds mexicano. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>M\u00e9xico n\u00e3o poderia ter surgido e tampouco existiria sem a Espanha, e sem os ind\u00edgenas&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com todos os seus defeitos, de origem e subsequentes, o\nM\u00e9xico n\u00e3o poderia ter surgido e tampouco existiria sem a Espanha, e sem os\nind\u00edgenas. O M\u00e9xico \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o dessas duas coisas, com todos os seus\nconflitos, alian\u00e7as, choques, misturas, trai\u00e7\u00f5es, inten\u00e7\u00f5es e esquecimentos. O\nque este pa\u00eds deve ser, hoje e amanh\u00e3, n\u00e3o pode surgir sem que os ind\u00edgenas\ntenham uma posi\u00e7\u00e3o melhor, mas isso n\u00e3o ser\u00e1 conseguido por meio de uma\nfalsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria para retrat\u00e1-la em branco e preto\n&#8220;indigenista&#8221;, ainda que muita gente acredite nisso. Porque nossos\nproblemas t\u00eam ra\u00edzes hist\u00f3ricas longas, precisamos compreender a hist\u00f3ria do modo\nmais realista que pudermos, para que possamos solucion\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>2. O que existia por aqui antes da chegada de algumas\ncentenas de espanh\u00f3is a um determinado ponto do territ\u00f3rio n\u00e3o era uma entidade\nlegalmente vinculada, como hoje, n\u00e3o era um s\u00f3 pa\u00eds, uma s\u00f3 sociedade, e nem um\nEstado ou confedera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existia s\u00f3 uma sociedade ind\u00edgena, com uma mesma\ncultura, e nada mais. Os espanh\u00f3is em quest\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o conquistaram o M\u00e9xico\ncomo n\u00e3o conquistaram &#8220;os \u00edndios&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>3. Nisso que n\u00e3o era o M\u00e9xico e onde nem todos os ind\u00edgenas\nforam &#8220;originalmente&#8221; ou &#8220;tipicamente&#8221; conquistados, havia\ngrupos e indiv\u00edduos na pluralidade ind\u00edgena que ajudaram Cort\u00e9s e seus homens\ncontra outros ind\u00edgenas. Trata-se dos aliados de Cort\u00e9s na guerra contra os astecas;\nestamos falando dos totonacas, dos tlaxcaltecas, dos tezcocanos e mais.\nCalcula-se confiavelmente que na guerra de Cort\u00e9s contra os astecas e na\ncaptura sua cidade, Tenochtitl\u00e1n (\u00e9 isso que corresponderia de fato \u00e0 ideia\ndistorcida da &#8220;conquista do M\u00e9xico contra os \u00edndios&#8221;), 150 mil\nsoldados\/guerreiros ind\u00edgenas combateram ao lado do espanhol. Ou seja: houve\nind\u00edgenas que assassinaram outros ind\u00edgenas e cometeram abusos contra eles ou\nelas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>4. Por que houve assassinatos e abusos entre &#8220;os\n\u00edndios&#8221; e em favor dos espanh\u00f3is? Por vingan\u00e7a. Porque alguns haviam\npraticado abusos contra outros antes da chegada de Cort\u00e9s e seus homens. Os\nastecas primeiro vitimaram outros ind\u00edgenas e depois se tornaram v\u00edtimas de\nsuas v\u00edtimas. Isso \u00e9 muito relevante: os ind\u00edgenas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o eram apenas um\ngrupo, mas sim muitos, como existiam conflitos (tamb\u00e9m muitos) entre esses\ngrupos. Guerras com fins pol\u00edticos, tribut\u00e1rios e religiosos eram uma constante\nno per\u00edodo, e o mesmo vale para a cria\u00e7\u00e3o de coaliz\u00f5es defensivas. O grande\nculpado: o imperialismo asteca.Assim: nem M\u00e9xico, nem mon\u00f3lito social ind\u00edgena,\nnem para\u00edso de paz pr\u00e9-hisp\u00e2nico. Nenhuma dessas tr\u00eas coisas existia. Existiam\nguerras entre os ind\u00edgenas e, a seguir, guerras envolvendo uma alian\u00e7a de\nespanh\u00f3is e ind\u00edgenas contra outros ind\u00edgenas. Destrui\u00e7\u00e3o e morte aplicadas e\nrecebidas em muitas dire\u00e7\u00f5es, com e sem a Espanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale dizer que nem tudo era ruim &#8212;nada de selvageria,\nbarb\u00e1rie ou falta de cultura&#8212; nos astecas, e os espanh\u00f3is tampouco eram\nracialmente superiores (tampouco vejo grande superioridade religiosa), e sem\nd\u00favida na era de Cort\u00e9s houve exterm\u00ednios, excessos e vexa\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o como\nconta a hist\u00f3ria &#8220;oficial&#8221; mexicana criada pelo regime do PRI\n(Partido Revolucion\u00e1rio Institucional). N\u00e3o houve atos contra todos &#8220;os \u00edndios&#8221;\ne eles n\u00e3o foram praticados apenas pelos &#8220;espanh\u00f3is&#8221;. Houve atos de\nespanh\u00f3is e ind\u00edgenas contra ind\u00edgenas que n\u00e3o formavam uma democracia e nada\ntinham de exemplar no trato que davam aos outros. N\u00e3o se trata de atos contra\nn\u00f3s, os mexicanos de qualquer era, mas de atos contra ind\u00edgenas que\ncontribu\u00edram desigualmente, mas em companhia dos espanh\u00f3is, para formar um\nM\u00e9xico desigual.<\/p>\n\n\n\n<p>O passado dos pa\u00edses latino-americanos pode e deve ser\nrevisado e criticado, mas n\u00e3o como deseja o pol\u00edtico Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez\nObrador. O ponto de partida dele n\u00e3o nos conduzir\u00e1 a qualquer boa chegada. Como\npoderemos ter um s\u00e9culo 21 melhor se estamos confusos desde o s\u00e9culo 16?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o me oponho a que um Estado reconhe\u00e7a erros passados com os quais tenha rela\u00e7\u00e3o clara. 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