{"id":2633,"date":"2020-10-27T07:10:11","date_gmt":"2020-10-27T10:10:11","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2633"},"modified":"2023-08-18T18:00:47","modified_gmt":"2023-08-18T21:00:47","slug":"autonomia-liquida-america-latina-e-a-politica-externa-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/autonomia-liquida-america-latina-e-a-politica-externa-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"&#8220;Autonomia&#8221;: Am\u00e9rica Latina e a pol\u00edtica externa"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Esteban Actis <\/em><\/strong>\/ A consagra\u00e7\u00e3o de um estadunidense como presidente do BID, pela primeira vez na hist\u00f3ria, representa uma ruptura hist\u00f3rica na arquitetura da governan\u00e7a interamericana do p\u00f3s-guerra. O avan\u00e7o de Washington no banco, e tamb\u00e9m na OEA, deixa as fraquezas e fraturas da Am\u00e9rica Latina \u00e0 vista, incapaz de encontrar uma posi\u00e7\u00e3o consensual diante de tal arbitrariedade. Onde est\u00e1 a autonomia? Esta \u00e9 a pergunta que muitas pessoas est\u00e3o fazendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que uma vis\u00e3o convencional implica, autonomia n\u00e3o \u00e9 isolamento. Em termos relacionais, refere-se \u00e0 vontade de um pa\u00eds de agir de forma independente e em coopera\u00e7\u00e3o com outros, de forma competente, comprometida e respons\u00e1vel, como apontam Roberto Russell e Juan Tokatlian. Para a Am\u00e9rica Latina, a no\u00e7\u00e3o de poder n\u00e3o tem sido centrada na influ\u00eancia, mas na autonomia. Como assinala Benjamin Cohen, a primeira \u00e9 &#8220;poder sobre&#8221; os outros; a segunda \u00e9 &#8220;poder&#8221; para implementar pol\u00edticas e resistir \u00e0s press\u00f5es externas. As pot\u00eancias se perguntam como conseguir a primeira, os pa\u00edses da regi\u00e3o como aumentar a segunda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Longe da for\u00e7a inabal\u00e1vel da Guerra Fria e da era p\u00f3s-Guerra Fria, a autonomia ainda \u00e9 poss\u00edvel, mas \u00e9 mais l\u00edquida e fr\u00e1gil&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Longe da for\u00e7a inabal\u00e1vel da Guerra Fria e da era p\u00f3s-Guerra Fria, a autonomia ainda \u00e9 poss\u00edvel, mas \u00e9 mais l\u00edquida e fr\u00e1gil. Parafraseando Zygmunt Bauman na <em>Modernidade L\u00edquida<\/em>, as condi\u00e7\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o dos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-latina-e-o-desafio-da-recuperacao-economica\/\">pa\u00edses<\/a> podem mudar antes que as formas de a\u00e7\u00e3o sejam consolidadas em determinados comportamentos. Para isso, s\u00e3o necess\u00e1rios diagn\u00f3sticos apropriados e din\u00e2micos do mundo e da Am\u00e9rica Latina, que ponderem tanto as amea\u00e7as quanto as oportunidades. Se trata de habilitar um pensamento estrat\u00e9gico sobre diferentes cen\u00e1rios prospectivos e op\u00e7\u00f5es de pol\u00edtica externa. Sem previs\u00e3o, s\u00f3 h\u00e1 rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo atual \u00e9 um mundo de areia movedi\u00e7a. Pandemias, guerras tecnol\u00f3gicas, ataques ciberterroristas ou cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas aumentam o risco global. O processo que explica a pol\u00edtica global n\u00e3o \u00e9 a ordem, mas a entropia, como Randall Schweller corretamente aponta. Por sua vez, essa incerteza \u00e9 atravessada por uma transi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica sem fim \u00e0 vista. Os Estados Unidos, um gigante com p\u00e9s de barro que abdica de sua voca\u00e7\u00e3o como l\u00edder mundial, contra a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/03\/china-mira-america-latina-em-seu-maior-projeto-de-influencia-exterior.shtml\">China<\/a>, cuja ascens\u00e3o impar\u00e1vel consolida sua transi\u00e7\u00e3o da riqueza para o poder. A pandemia acelera tudo, mas tamb\u00e9m o torna mais tang\u00edvel e denso.<\/p>\n\n\n\n<p>A nota saliente da Am\u00e9rica Latina hoje \u00e9 sua menor relev\u00e2ncia sist\u00eamica. A retra\u00e7\u00e3o relativa, a auto-absor\u00e7\u00e3o e a fragmenta\u00e7\u00e3o incomum explicam esta perturba\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se espera mais cen\u00e1rios de equil\u00edbrio de poder nem de hegemonia regional. As brechas regionais s\u00e3o ocupadas por pot\u00eancias extra-regionais. Os Estados Unidos est\u00e3o fortalecendo sua diplomacia coerciva e seus la\u00e7os militares com a Col\u00f4mbia e o Brasil. A n\u00e3o-resolu\u00e7\u00e3o da crise venezuelana tem a China e a R\u00fassia como protagonistas. A Noruega \u00e9 a \u00fanica esperan\u00e7a de uma media\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Na Amaz\u00f4nia, \u00e9 a Fran\u00e7a que est\u00e1 tentando deter a confus\u00e3o de Bolsonaro. As crises regionais n\u00e3o se resolvem, se congelam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Enquanto a presen\u00e7a militar norte-americana permanece inquestion\u00e1vel, a pandemia continua aprofundando a depend\u00eancia econ\u00f4mica, comercial e financeira da regi\u00e3o com China&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Enquanto a presen\u00e7a militar norte-americana permanece inquestion\u00e1vel, a pandemia continua aprofundando a depend\u00eancia econ\u00f4mica, comercial e financeira da Am\u00e9rica Latina com China. O &#8220;n\u00e3o-alinhamento&#8221; ou &#8220;neutralidade&#8221; como alternativa \u00e0 subordina\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica, seja a Pequim ou Washington, aparece hoje na retina dos pol\u00edticos e acad\u00eamicos. A prescri\u00e7\u00e3o normativa de manter uma posi\u00e7\u00e3o equidistante diante dessa grande disputa \u00e9 correta, mas insuficiente para um mundo e uma regi\u00e3o que mudaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante do jogo de rivalidade crescente entre duas pot\u00eancias economicamente interligadas, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que procuram preservar espa\u00e7o de manobra devem pensar menos no &#8220;esp\u00edrito de Bandung&#8221; e mais no &#8220;esp\u00edrito da ABACC&#8221;. A ag\u00eancia de controle nuclear entre Argentina e Brasil, criada nos anos 90, \u00e9 um exemplo que perdura em um terreno dominado pelas pot\u00eancias nucleares. Tamb\u00e9m a parceria entre o M\u00e9xico e a Argentina para produzir a vacina do coronav\u00edrus ou o centro argentino-brasileiro de biotecnologia s\u00e3o exemplos do potencial das agendas de nicho. Diante da impossibilidade de um multilateralismo desej\u00e1vel, a op\u00e7\u00e3o \u00e9 um minilateralismo vi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Para melhorar a capacidade de negocia\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos e a China, ser\u00e1 necess\u00e1rio jogar inteligentemente com as deficientes institui\u00e7\u00f5es regionais existentes, mas de forma complementar forjar coaliz\u00f5es <em>ad hoc<\/em> sobre quest\u00f5es como sa\u00fade, g\u00eanero, redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais, crise ambiental, infraestrutura, regulamenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, prote\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, financiamento externo, entre outras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEnclaves de autonomia&#8221; devem ser selecionados e priorizados atrav\u00e9s de diplomacia de nicho. N\u00e3o apenas os governos centrais, mas tamb\u00e9m os governos provinciais e locais, atores da sociedade civil, cientistas, empres\u00e1rios ou cidad\u00e3os podem contribuir para fortalecer uma renovada &#8220;diplomacia 3M&#8221; multidimensional, multiparticipativa e multin\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo entr\u00f3pico, a preserva\u00e7\u00e3o das margens de manobra depende mais da antecipa\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o do que da rigidez. O debate em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica externa parece ter deixado para tr\u00e1s o dilema entre autonomia ou aquiesc\u00eancia, para girar em torno de uma transa\u00e7\u00e3o constante entre as duas l\u00f3gicas diante da complexidade de atores, agendas e din\u00e2micas externas. A &#8220;autonomia l\u00edquida&#8221; sup\u00f5e proatividade, varia\u00e7\u00e3o e flexibilidade. Tamb\u00e9m pragmatismo para oferecer concess\u00f5es em quest\u00f5es espec\u00edficas que ser\u00e3o funcionais para ganhar margem de manobra e resultados em outras batalhas. Hoje n\u00e3o se trata de &#8220;autonomia na resist\u00eancia&#8221;, mas de &#8220;autonomia na resili\u00eancia&#8221;. \u00c0s vezes \u00e9 preciso saber como escolher quais sapos engolir e onde.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Esteban Actis<br \/>\nA consagra\u00e7\u00e3o de um estadunidense como presidente do BID, pela primeira vez na hist\u00f3ria, representa uma ruptura hist\u00f3rica na arquitetura da governan\u00e7a interamericana do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n","protected":false},"author":111,"featured_media":2607,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16753,16761,14494,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2633","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-exterior-pt-br","8":"category-china-es-pt-br","9":"category-politica-externa","10":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2633","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/111"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2633"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2633\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2633"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2633"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2633"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2633"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}