{"id":2682,"date":"2020-11-03T07:31:21","date_gmt":"2020-11-03T10:31:21","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2682"},"modified":"2023-08-02T16:30:19","modified_gmt":"2023-08-02T19:30:19","slug":"o-pesadelo-de-macondo-ou-a-paz-que-nao-poderia-ser","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-pesadelo-de-macondo-ou-a-paz-que-nao-poderia-ser\/","title":{"rendered":"O pesadelo de Macondo ou a paz que n\u00e3o era"},"content":{"rendered":"\n<p>Este novembro marca quatro anos desde a assinatura do Acordo de Paz com as FARC-EP. No entanto, s\u00e3o quatro anos que, em termos da extens\u00e3o da viol\u00eancia e do conflito armado interno, parecem, sem d\u00favida, muitos mais. \u00c9 evidente que a assinatura de um acordo de paz \u00e9 sempre uma quest\u00e3o complexa, com muitas nuances, com ineg\u00e1veis desconfian\u00e7as e expectativas em jogo. Mais ainda se falamos do conflito armado mais longo da Am\u00e9rica Latina. Assim, o que \u00e9 verdadeiramente complexo \u00e9 manter os compromissos, desenvolvendo as transforma\u00e7\u00f5es que estes implicam e superando os condicionantes estruturais, pol\u00edtico-institucionais e simb\u00f3licos que suportaram a viol\u00eancia na Col\u00f4mbia por mais de cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Inevitavelmente, pode-se pensar que o Acordo de Paz assinado pelas FARC-EP, e que para grande parte da comunidade acad\u00eamica \u00e9 o mais completo dos \u00faltimos trinta anos, no papel, foi baseado em um mito que ultrapassou qualquer vislumbre da realidade futura. Ainda mais na terra de Macondo, como \u00e9 a Col\u00f4mbia. Ou seja, mesmo que ap\u00f3s a presid\u00eancia de Juan Manuel Santos as melhores condi\u00e7\u00f5es tivessem sido providenciadas para sua implementa\u00e7\u00e3o, possivelmente estar\u00edamos hoje falando de diferen\u00e7as entre o que foi acordado, o que foi previsto e o que foi implementado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O primeiro grande sabotador do Acordo tenha sido o mesmo governo do inef\u00e1vel Iv\u00e1n Duque&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ou como um bom amigo me disse h\u00e1 apenas algumas semanas, entre a paz que poderia ser, a paz que finalmente deveria ser e a paz que, infelizmente, est\u00e1 sendo. Como \u00e9 de se esperar, n\u00e3o joga a nosso favor &#8211; onde incluo todos n\u00f3s que realmente ansiamos a supera\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia na Col\u00f4mbia &#8211; que o primeiro grande sabotador do Acordo tenha sido o mesmo governo do inef\u00e1vel Iv\u00e1n Duque.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Acordo de Paz, como o ex-vice-presidente da Col\u00f4mbia, Angelino Garz\u00f3n, uma vez me confessou em uma conversa particular, &#8220;\u00e9 um acordo entre perdedores&#8221;. Expressada em termos mais acad\u00eamicos, \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o negociada, baseada em interc\u00e2mbios cooperativos, resultado do fato de que as partes contr\u00e1rias n\u00e3o foram capazes de responder unilateralmente a seus interesses no \u00e2mbito do conflito. No caso da Col\u00f4mbia, o Acordo integrou exig\u00eancias hist\u00f3ricas das FARC-EP, como a reforma rural; aspectos comuns a todos os acordos de paz, como a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou a justi\u00e7a transit\u00f3ria; e, da mesma forma, condi\u00e7\u00f5es governamentais, como a entrega de armas ou a colabora\u00e7\u00e3o na mitiga\u00e7\u00e3o do neg\u00f3cio das drogas e seu impacto sobre a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste caso em particular, o atual governo da Col\u00f4mbia surgiu como o principal impedimento para a desejada implementa\u00e7\u00e3o do Acordo. Em outras palavras, de acordo com todos os relat\u00f3rios de monitoramento, incluindo os do Instituto Kroc da Universidade de Notre Dame, h\u00e1 elementos que mal come\u00e7aram a ser desenvolvidos, como a reforma rural abrangente ou a mitiga\u00e7\u00e3o do problema das drogas il\u00edcitas, cujos n\u00edveis de cumprimento s\u00e3o inferiores a 5%.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O mesmo Executivo fez todo o poss\u00edvel no Congresso para evitar a aprova\u00e7\u00e3o das 16 cadeiras que deveriam dar voz pol\u00edtica aos territ\u00f3rios mais afetados pela viol\u00eancia&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o mesmo Executivo fez todo o poss\u00edvel no Congresso para evitar a aprova\u00e7\u00e3o das 16 cadeiras que deveriam dar voz pol\u00edtica aos territ\u00f3rios da Col\u00f4mbia mais afetados pela viol\u00eancia e, at\u00e9 mesmo, o pr\u00f3prio Presidente invocou todas as obje\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para impedir que a Jurisdi\u00e7\u00e3o Especial para a Paz, prevista no Acordo de Paz, se materializasse. Ele n\u00e3o teve sucesso, mas em troca, conseguiu desfaz\u00ea-lo em mais de 30%.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora tudo isso esteja acontecendo, as condi\u00e7\u00f5es que t\u00eam suportado a viol\u00eancia durante d\u00e9cadas permanecem inalteradas em um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo em termos sociais (0,54 Gini Coeficiente) e territoriais (0,85 Gini Coeficiente de acordo com a distribui\u00e7\u00e3o da propriedade da terra). Mesmo assim, as planta\u00e7\u00f5es de coca continuam sendo cultivadas em uma \u00e1rea que, de acordo com as Na\u00e7\u00f5es Unidas, excede 150.000 hectares. E em um Estado, tradicionalmente, com mais territ\u00f3rio que soberania, a geografia da viol\u00eancia anterior ao di\u00e1logo de paz iniciado em <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-ditaduras-nunca-perdem\/\">Havana<\/a>, em 2012, \u00e9 praticamente a mesma. Ou seja, a viol\u00eancia perif\u00e9rica, em departamentos que s\u00e3o, em sua maioria, regi\u00f5es de cultivo de coca, fronteiras, e que t\u00eam vivido por tr\u00e1s dos interesses de um centralismo a servi\u00e7o das elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Com exce\u00e7\u00e3o do departamento de Antioquia, que tem v\u00e1rias particularidades pr\u00f3prias, os departamentos mais violentos da Col\u00f4mbia s\u00e3o exatamente os mesmos de uma d\u00e9cada atr\u00e1s: Choc\u00f3, Cauca e Nari\u00f1o na costa do Pac\u00edfico, Caquet\u00e1 e Putumayo no sul, e Arauca e Caquet\u00e1 no nordeste. N\u00e3o \u00e9 por acaso que esses mesmos departamentos &#8211; com exce\u00e7\u00e3o do Arauca &#8211; s\u00e3o os que concentram 80% da \u00e1rea de cultivo de coca e onde, na maioria das vezes, se condensa uma porcentagem ainda maior dos chamados dissidentes das FARC-EP &#8211; enquanto a maioria de seus membros n\u00e3o s\u00e3o ex-combatentes das FARC-EP.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes dissidentes s\u00e3o grupos criminosos que se contam por dezenas e com mais de 2.000 membros no total. Eles fragmentaram e desideologizaram o sentido do conflito armado sob uma l\u00f3gica ainda mais complexa, onde a velha interpreta\u00e7\u00e3o simplista da viol\u00eancia se torna completamente in\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se isso n\u00e3o fosse suficiente, o Cl\u00e3 do Golfo tamb\u00e9m deve ser adicionado, em parte, como herdeiro de um paramilitarismo desmobilizado h\u00e1 15 anos e tem mais de 1.800 integrantes. \u00c9 verdade que \u00e9 muito atomizado e sujeito \u00e0s din\u00e2micas locais de viol\u00eancia e criminalidade, mas est\u00e1 especialmente enraizada na regi\u00e3o de Magdalena Medio, Antioquia ou no Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m estaria o ELN. Um grupo guerrilheiro que vive fraturado entre um antigo comando pol\u00edtico em Cuba que ainda v\u00ea a relev\u00e2ncia de uma solu\u00e7\u00e3o negociada para a viol\u00eancia, e um novo comando, mais jovem, beligerante e tamb\u00e9m desideologizado, que aproveitou boa parte do v\u00e1cuo deixado pelas FARC-EP &#8211; que nunca foi ocupado pela For\u00e7a P\u00fablica Colombiana &#8211; para aumentar sua presen\u00e7a territorial, seu n\u00famero de tropas e seus recursos provenientes de financiamentos ilegais.<\/p>\n\n\n\n<p>Dadas as circunst\u00e2ncias, o resultado \u00e9 claro. A Col\u00f4mbia que pod\u00edamos sonhar h\u00e1 quatro anos \u00e9 agora uma preocupante distopia onde a cada dia que passa, o desejo de paz se afasta um pouco mais. Desde que o Acordo foi assinado, mais de 230 ex-guerrilheiros das FARC-EP e 700 l\u00edderes sociais foram assassinados. S\u00f3 em 2020, haver\u00e1 um total de 70 massacres e 278 pessoas mortas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ess\u00eancia, a responsabilidade \u00e9 de um governo que sempre se mostrou confort\u00e1vel com o discurso da guerra, da militariza\u00e7\u00e3o e da l\u00f3gica amigo\/inimigo, e onde o fluxo eleitoral e pol\u00edtico permite a compreens\u00e3o de figuras t\u00e3o terr\u00edveis para o pa\u00eds como a de \u00c1lvaro Uribe. No entanto, os tempos mudaram. As exig\u00eancias e necessidades da <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Col%C3%B4mbia\">sociedade colombiana<\/a> v\u00e3o al\u00e9m de uma mesquinhez que, esperemos, terminar\u00e1 em agosto de 2022, com o atual governo fora do poder. Entretanto, esperemos que n\u00e3o seja tarde demais para falarmos sobre a paz que n\u00e3o poderia ser daqui a alguns anos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica Mexicana em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Col\u00f4mbia com a qual sonhamos h\u00e1 quatro anos \u00e9 agora uma distopia preocupante. \u00c9 um governo que sempre se mostrou confort\u00e1vel no discurso da guerra e onde a riqueza eleitoral e pol\u00edtica permite a compreens\u00e3o de figuras t\u00e3o terr\u00edveis como \u00c1lvaro Uribe.<\/p>\n","protected":false},"author":125,"featured_media":2671,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16717,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2682","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-colombia-pt-br","8":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2682","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/125"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2682"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2682\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2682"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}