{"id":2705,"date":"2020-11-05T15:49:01","date_gmt":"2020-11-05T18:49:01","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2705"},"modified":"2023-08-01T17:43:00","modified_gmt":"2023-08-01T20:43:00","slug":"o-problema-nao-e-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-problema-nao-e-trump\/","title":{"rendered":"O problema n\u00e3o \u00e9 Trump"},"content":{"rendered":"\n<p>O empate, qualquer que seja o resultado final, que se tem revelado n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno temporal. O protagonista da resist\u00eancia de Trump n\u00e3o \u00e9 o inquilino da Casa Branca durante os \u00faltimos quatro anos. O agente real, mesmo que no final o vencedor constitucional seja Biden, \u00e9 esse setor que, durante d\u00e9cadas, se considerava uma anormalidade. A dura realidade \u00e9 que a percep\u00e7\u00e3o geral no exterior dos Estados Unidos n\u00e3o recebeu a mensagem de 2016. E talvez ainda n\u00e3o o entenda agora. E, pior ainda, nunca o entender\u00e1, se n\u00e3o for dada aten\u00e7\u00e3o \u00e0s peculiaridades desta sociedade, dramatizada por Trump.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que a gl\u00f3ria de vencer a Segunda Guerra Mundial desvaneceu, a aparente coes\u00e3o nacional dos Estados Unidos desapareceu. Uma parte seguiu acreditando que havia monopolizado a alma do pa\u00eds, fundada no excepcionalismo, &#8220;a luz do farol na colina&#8221;. Mas alguns sinais de alerta come\u00e7aram a soar com a repress\u00e3o dos chamados comunistas de Hollywood.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nixon o chamou de maioria silenciosa&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com os dissidentes silenciados j\u00e1 nos anos 60, o assassinato de Kennedy n\u00e3o foi considerado um perigo para o consenso nacional. Mas um sentimento soterrado exigia sair do arm\u00e1rio. Nixon o chamou de maioria silenciosa. Ela permaneceu muda durante a trag\u00e9dia do Vietn\u00e3. Ela convenientemente se drogou com a satisfa\u00e7\u00e3o do fim da Guerra Fria e da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o um punhado de romancistas havia se perguntado como Zavalita, o personagem coadjuvante em \u201cConversa no Catedral\u201d: \u201cem que momento o Peru se ferrou\u201d. Alguns comentaristas ousados se atreveriam aludir tarde demais \u00e0 rea\u00e7\u00e3o ao afundamento do Maine em Havana, que levou os Estados Unidos a se espalharem por toda a Am\u00e9rica Latina, irritando os patriotas cubanos. A consequ\u00eancia, meio s\u00e9culo depois, foi a Revolu\u00e7\u00e3o Castrista.<\/p>\n\n\n\n<p>O e<em>stablishment<\/em> de Washington mal hesitou e acreditou que se recuperaria com o fim da Guerra Fria e tamb\u00e9m \u201cda hist\u00f3ria\u201d, de acordo com a mitologia de Fukuyama. Mas essa gl\u00f3ria ef\u00eamera n\u00e3o conseguiu esconder os problemas internos que os sucessivos presidentes norte-americanos n\u00e3o conseguiram corrigir. Desequil\u00edbrios, discrimina\u00e7\u00e3o, marginaliza\u00e7\u00e3o, desconforto e descontentamento b\u00e1sico sobre a apari\u00e7\u00e3o de defeitos no sonho americano foram detectados.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema era que as v\u00edtimas n\u00e3o eram mais exclusivamente os perdedores tradicionais (negros, hisp\u00e2nicos, nativos), mas tamb\u00e9m os componentes das camadas anteriormente intermedi\u00e1rias da sociedade. Al\u00e9m disso, foram acrescentados os componentes da elite econ\u00f4mica que parecia n\u00e3o estar satisfeita com as vantagens fiscais de que desfrutavam. Eles tamb\u00e9m pretendiam controlar o futuro pol\u00edtico sem se envolverem em disputas eleitorais, uma fun\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria que deixavam nas m\u00e3os de profissionais.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado das elei\u00e7\u00f5es \u00e9 um retrato n\u00edtido de tr\u00eas Am\u00e9ricas, cada uma \u00e0 sua maneira acreditando que tem o direito de ser &#8220;grande novamente&#8221;, de acordo com o slogan de Trump. J\u00e1 havia sido notado com a dupla elei\u00e7\u00e3o de Obama: o eleitorado potencial havia sido claramente dividido em tr\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Um ter\u00e7o tem ficado em casa, sempre&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um ter\u00e7o tem ficado em casa, sempre. Outra terceira parte votou a favor das v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es do Partido Democrata. O resto tem se refugiado historicamente nos republicanos, apoiados por aquele setor que n\u00e3o parece responder a linhas partid\u00e1rias espec\u00edficas. Agora se equipou com toda a parafern\u00e1lia que capturou metade dos votos nas recentes elei\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a novidade da \u00faltima d\u00e9cada, ap\u00f3s a defenestra\u00e7\u00e3o do tradicionalismo dos Bush e afins, n\u00e3o \u00e9 o aparecimento de Trump. A not\u00edcia \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o do protagonismo do ter\u00e7o que Trump despertou. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno tempor\u00e1rio. Na verdade, existe desde que o mito fundador dos Estados Unidos foi questionado por aquele ter\u00e7o que permaneceu adormecido, t\u00edmido de protagonismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como uma princesa adormecida, s\u00f3 lhe faltava o beijo de um pr\u00edncipe ousado, que n\u00e3o estava vinculado a conven\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. N\u00e3o importa que a princesa tenha se comportado como uma bruxa para os outros dois ter\u00e7os do eleitorado. Essa peculiaridade n\u00e3o importava para Trump, que capturou o papel do pr\u00edncipe.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer que seja o resultado oficial da elei\u00e7\u00e3o, a verdade \u00e9 que essa Am\u00e9rica, antes oculta, continuar\u00e1 \u00e0 espreita (com mais determina\u00e7\u00e3o se Trump vencer). Pressionar\u00e1 para o abandono das alian\u00e7as tradicionais dos Estados Unidos, rejeitar\u00e1 qualquer esquema de integra\u00e7\u00e3o regional (apenas reduzido a um pragm\u00e1tico novo NAFTA), continuar\u00e1 a rejeitar o reingresso na UNESCO, na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC), na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), e nem mesmo se aproveitar\u00e1 pragmaticamente de seu lugar de privilegio na ONU.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo militar, n\u00e3o saber\u00e1 usar sabiamente o poder &#8220;suave&#8221; da superioridade militar, jogar\u00e1 perigosamente com o abandono da OTAN, pode se envolver em opera\u00e7\u00f5es perigosas no Oriente M\u00e9dio, enganando fatalmente seus aliados \u00fateis. A continua\u00e7\u00e3o da aposta de apoio incondicional ao atual governo israelense seria uma aposta com benef\u00edcio nulo.&nbsp; Qualquer erro de c\u00e1lculo com a China e a R\u00fassia pode ser pago com um pre\u00e7o alto, especialmente diante de uma sociedade norte-americana que est\u00e1 farta de excurs\u00f5es b\u00e9licas que n\u00e3o devolvem benef\u00edcios sociais e s\u00f3 preenchem os t\u00famulos dispon\u00edveis em Arlington.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, no caso de uma vit\u00f3ria final efetiva para Biden, a agenda que o novo presidente ter\u00e1 que enfrentar incluiria precisamente a presen\u00e7a latente e permanente da Am\u00e9rica at\u00e9 agora silenciosa por gra\u00e7a de Trump. Nesse cen\u00e1rio, ele n\u00e3o poder\u00e1 evitar o espet\u00e1culo da destrui\u00e7\u00e3o social, a divis\u00e3o em lados irreconcili\u00e1veis, a instala\u00e7\u00e3o urgente (com autoriza\u00e7\u00f5es de resid\u00eancia tendendo a sublimar-se na cidadania) dos enormes grupos recentes de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>E, em geral, no exterior deve ser entendido friamente que o novo governo estadunidense n\u00e3o ser\u00e1 radicalmente diferente do que \u00e9 considerado essencial para os interesses praticamente im\u00f3veis dos americanos. Biden ter\u00e1 que responder \u00e0s demandas n\u00e3o s\u00f3 de seus eleitores, mas tamb\u00e9m dos interesses razo\u00e1veis do pa\u00eds e das consequentes press\u00f5es de sua sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Europa, por exemplo, dever\u00e1 entender que a demanda pelo envolvimento de seus governos na defesa do continente n\u00e3o responde simplesmente a um capricho do l\u00edder no poder, mas n\u00e3o a uma reconstitui\u00e7\u00e3o da estrutura militar. A sociedade norte-americana continuar\u00e1 pressionando seu governo para obter benef\u00edcios leg\u00edtimos em termos dos resultados dos acordos comerciais. Ser\u00e1 necess\u00e1rio, portanto, chegar a um acordo mutuamente ben\u00e9fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a Am\u00e9rica Latina ter\u00e1 que fazer um esfor\u00e7o para apresentar uma frente m\u00ednima comum se quiser obter novas vantagens, n\u00e3o baseadas em decis\u00f5es arbitr\u00e1rias de origem tempor\u00e1ria. Ao lidar com os <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-perigo-de-uma-deriva-autoritaria-se-trump-vencer\/\">Estados Unidos<\/a>, seja Biden ou Trump, a divis\u00e3o ser\u00e1 sempre prejudicial, especialmente para os interesses dos cidad\u00e3os <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2020-11-19\/o-brasil-e-mais-racista-que-os-estados-unidos.html\">latino-americanos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de JSmith Photo en Foter.com \/ CC BY-ND<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O empate, qualquer que seja o resultado final, que tenha sido revelado, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno tempor\u00e1rio. O protagonista da resist\u00eancia de Trump n\u00e3o \u00e9 o inquilino da Casa Branca durante os \u00faltimos quatro anos. 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