{"id":2783,"date":"2020-11-14T17:28:14","date_gmt":"2020-11-14T20:28:14","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2783"},"modified":"2023-07-24T17:02:09","modified_gmt":"2023-07-24T20:02:09","slug":"seculo-21-polarizacao-na-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/seculo-21-polarizacao-na-america\/","title":{"rendered":"S\u00e9culo 21: Polariza\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Co-autor Ana CarolaTraverso-Krejcarek <\/strong>\/ A pandemia virou o mundo de cabe\u00e7a para baixo, abalou as institui\u00e7\u00f5es, gerou novos conflitos sociais e aprofundou os j\u00e1 existentes. V\u00e1rios sistemas pol\u00edticos nas Am\u00e9ricas foram afetados pela polariza\u00e7\u00e3o social e ideol\u00f3gica, pelo surgimento e fortalecimento de extremos e pela desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, isto foi apimentado por ondas de not\u00edcias falsas. Tanto no norte como no sul do continente, a situa\u00e7\u00e3o tem sido igualmente cr\u00edtica. Que paralelos podem ser tra\u00e7ados? H\u00e1 li\u00e7\u00f5es a serem aprendidas?<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos o caso dos Estados Unidos. O sucesso de t\u00e1ticas quase guerrilheiras no posicionamento de mensagens, uma vez consideradas perif\u00e9ricas ou extremistas, foi esmagador. Entre eles, pode-se mencionar a utiliza\u00e7\u00e3o de meios de comunica\u00e7\u00e3o aparentemente pouco desej\u00e1veis pelas novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o \u2013 como o r\u00e1dio de amplitude modulada (AM) \u2013 para a difus\u00e3o de mensagens ultraconservadoras. Para citar um exemplo, a pesquisa de Brian Rosenwald, publicada em 2019, explica como a ind\u00fastria de r\u00e1dio foi cooptada pela direita radical, expandindo-se de cinquenta e nove para mais de mil r\u00e1dios desde a d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n\n\n\n<p>No processo, a ret\u00f3rica ultraconservadora acumulou um poder pol\u00edtico inquestion\u00e1vel, convencendo o pa\u00eds a apoiar um candidato adaptado \u00e0s suas necessidades. Hoje, ela continua demandando ainda mais radicalismo (que traz mais polariza\u00e7\u00e3o) atrav\u00e9s de sua ret\u00f3rica e poder de penetra\u00e7\u00e3o nas casas de centenas de milhares de habitantes. A utiliza\u00e7\u00e3o do r\u00e1dio para fins pol\u00edticos em pa\u00edses com alta concentra\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00e3o rural n\u00e3o \u00e9, portanto, novidade e se reflete tanto nos Estados Unidos quanto em muitos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/as-pandemias-da-america-latina\/\">pa\u00edses latino-americanos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fen\u00f4meno a ser observado \u00e9 o fato de que, em estados como a Fl\u00f3rida, a rejei\u00e7\u00e3o e o medo associados \u00e0 liga\u00e7\u00e3o do Partido Democrata com a agenda socialista internacional e os governos autorit\u00e1rios de Cuba, Venezuela e at\u00e9 mesmo Bol\u00edvia ou Nicar\u00e1gua foram profundamente sentidos. Uma situa\u00e7\u00e3o semelhante pode ser vista entre os imigrantes de primeira gera\u00e7\u00e3o em outros estados, movidos \u00e0 direita, acima de tudo, por seu desejo de mobilidade social e econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto demonstra que a propaganda hiper-segmentada, com mensagens dirigidas a p\u00fablicos com caracter\u00edsticas espec\u00edficas funciona, porque foi utilizada incessantemente e gerou resultados. E, certamente, o voto de grupos minorit\u00e1rios importantes, como os latinos, n\u00e3o \u00e9 monol\u00edtico; eles n\u00e3o votam em bloco.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora vamos olhar para o caso argentino. Os cidad\u00e3os &#8220;rachados&#8221; s\u00e3o um sintoma da polariza\u00e7\u00e3o no sul do continente, devido \u00e0 dist\u00e2ncia ideol\u00f3gica que os caracteriza atualmente: a favor ou contra o kirchnerismo. Com uma pandemia no horizonte, as decis\u00f5es pol\u00edticas do governo de Alberto Fern\u00e1ndez est\u00e3o aprofundando o mal-estar dos dissidentes. Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o muito cr\u00edtica que divide fam\u00edlias, casais, colegas de trabalho e transcende o plano pol\u00edtico. Se considerarmos os efeitos da <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2020-12-19\/pandemia-deteriora-as-democracias-na-america-latina-e-aumenta-o-descontentamento.html\">COVID-19<\/a> e a crise econ\u00f4mica, \u00e9 preocupante notar a polariza\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds cujo centro pol\u00edtico \u00e9 agora quase inexistente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora vamos olhar para o caso da Bol\u00edvia. A polariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds enclausurado \u00e9 entre aqueles que apoiam o MAS (o partido rec\u00e9m-eleito) e um bloco de oposi\u00e7\u00e3o heterog\u00eaneo. O triunfo eleitoral do MAS marca uma divis\u00e3o territorial e ideol\u00f3gica que divide o pa\u00eds em dois e evidencia o fracasso da oposi\u00e7\u00e3o em produzir uma proposta de renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O retorno do discurso indigenista em um pa\u00eds mesti\u00e7o (segundo os resultados do censo de 2012) constitui o novo momento pol\u00edtico que n\u00e3o ser\u00e1 isento de tens\u00f5es profundas n\u00e3o resolvidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a e incerteza, muitos sucumbem. O discernimento entre fatos reais e ideias bizarras, tais como teorias conspirat\u00f3rias ou n\u00e3o cient\u00edficas, torna-se uma tarefa dif\u00edcil. E como se isso n\u00e3o fosse suficiente, um dos exemplos mais preocupantes no hemisf\u00e9rio norte, a teoria da conspira\u00e7\u00e3o de QAnon agora tem simpatizantes entre os candidatos rec\u00e9m-eleitos.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00f3dio fomentado pelas not\u00edcias falsas \u00e9 provavelmente um dos paralelos que t\u00eam atormentado os processos eleitorais nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses. \u00c9 agravada pela desconfian\u00e7a de seus tribunais eleitorais promovida por for\u00e7as pol\u00edticas de extrema-direita. Em s\u00edntese, um dos efeitos t\u00f3xicos da polariza\u00e7\u00e3o \u00e9 a desconstru\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e o questionamento da raz\u00e3o e da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia marcou um antes e um depois em nosso modo de vida, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e no trabalho. Hoje, esta crise sanit\u00e1ria nos encontra no meio do que esperamos que seja uma mudan\u00e7a de paradigma impulsionada pela mudan\u00e7a pol\u00edtica norte-americana. A li\u00e7\u00e3o que processo eleitoral estadunidense nos deixa \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que as feridas profundas abertas geradas pelo discurso permanente de Trump levar\u00e3o anos para sarar.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar a necessidade urgente de construir pontes de comunica\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo que nos levem a conhecer, conversar e compartilhar opini\u00f5es de forma construtiva com aqueles que n\u00e3o conhecemos e pensam como n\u00f3s. Se no passado se acreditava que as redes sociais ajudariam a quebrar as fronteiras f\u00edsicas entre as pessoas, hoje sabemos que o modelo de neg\u00f3cios dessas redes \u00e9 baseado na hiper-realidade, adaptada ao usu\u00e1rio, isolando-o ainda mais do resto de sua comunidade e fortalecendo certas cren\u00e7as e preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esperamos, para o bem da humanidade, que uma das habilidades amplamente capitalizadas pelo Presidente-eleito Joe Biden &#8211; a empatia e a capacidade de negociar com o partido de oposi\u00e7\u00e3o &#8211; tenha um efeito multiplicador na tarefa tit\u00e2nica de redefinir nosso exerc\u00edcio democr\u00e1tico de todos os dias. Se de algo serviu permanecer no escuro na primeira semana de novembro esperando para ver o que aconteceria nos Estados Unidos, foi para reacender a esperan\u00e7a e a sensa\u00e7\u00e3o de que uma nova e melhor vers\u00e3o da sociedade \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o no Norte e Sul da Am\u00e9rica marcar\u00e1 a segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, dados os efeitos do \u00f3dio ao diferente e a corros\u00e3o pol\u00edtica produzida pela desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. A corresponsabilidade entre aqueles que governam e aqueles que s\u00e3o governados para super\u00e1-la \u00e9, sem d\u00favida, um desafio para os pa\u00edses do novo mundo no in\u00edcio deste quinqu\u00eanio.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto do Pal\u00e1cio del Planalto em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autora Ana Carola Traverso-Krejcarek<br \/>\nA pandemia virou o mundo de cabe\u00e7a para baixo, abalou as institui\u00e7\u00f5es, gerou novos conflitos sociais e aprofundou os existentes. 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