{"id":2797,"date":"2020-11-10T07:12:13","date_gmt":"2020-11-10T10:12:13","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2797"},"modified":"2023-07-30T16:38:03","modified_gmt":"2023-07-30T19:38:03","slug":"os-fatores-socioeconomicos-que-influenciaram-a-crise-da-covid-19-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-fatores-socioeconomicos-que-influenciaram-a-crise-da-covid-19-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Socioeconomia e a crise do COVID-19"},"content":{"rendered":"\n<p>Longe de gerar oportunidades, os per\u00edodos de crise geralmente revelam problemas estruturais que em situa\u00e7\u00f5es normais podem passar despercebidos. A pandemia de Covid-19 causou a maior crise econ\u00f4mica e social do \u00faltimo s\u00e9culo. Neste contexto, a Am\u00e9rica Latina tem sido uma das regi\u00f5es mais afetadas. Segundo estimativas da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL), o PIB per capita no final de 2020 seria igual ao de 2010 (o que implica um retrocesso de 10 anos), 2,7 milh\u00f5es de empresas foram fechadas, o desemprego atingiria 44 milh\u00f5es de pessoas e a pobreza extrema atingiria n\u00edveis semelhantes aos de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/pt\/Blogs\/Articles\/2020\/10\/08\/blog-weo-ch2-covid-impact-in-real-time-finding-balance-amid-the-crisis\">sequelas econ\u00f4micas<\/a>, a Am\u00e9rica Latina tamb\u00e9m tem sido um dos territ\u00f3rios com os mais elevados \u00edndices de perda humana. De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Universidade Johns Hopkins, em 28 de outubro de 2020, o n\u00famero total de casos confirmados de Covid-19 elevava-se a 44 milh\u00f5es de seres humanos e 1,17 milh\u00f5es de mortes a n\u00edvel mundial. Destes, 11 milh\u00f5es de casos e 394.000 mortes correspondem \u00e0 Am\u00e9rica Latina e o Caribe. Em outras palavras, a regi\u00e3o concentra 24,95% dos casos e 33,8% das mortes relatadas, sendo algumas na\u00e7\u00f5es as mais afetadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, os pa\u00edses com o maior n\u00famero de mortes por 100.000 habitantes s\u00e3o Peru com 106,9 (primeiro a n\u00edvel mundial), Bol\u00edvia com 76,4 (quarto), Brasil com 75,4 (sexto), Chile com 74,9 (oitavo), Equador com 73,7 (nono) e M\u00e9xico com 71,2 (d\u00e9cimo). Al\u00e9m disso, o M\u00e9xico, o Equador e a Bol\u00edvia apresentaram n\u00edveis elevados de fatalidades (mortes\/casos confirmados) com 10,0%, 7,7% e 6,1%, respectivamente. Deve-se apontar que estes n\u00fameros cont\u00eam um grau de imprecis\u00e3o, pois milhares de infec\u00e7\u00f5es e mortes n\u00e3o puderam ser confirmadas devido \u00e0s limita\u00e7\u00f5es para realizar os testes de Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Algumas vari\u00e1veis socioecon\u00f4micas revelam caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da realidade latino-americana&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas que fatores poderiam explicar estes n\u00fameros? A resposta a esta pergunta \u00e9 extremamente complexa. Por um lado, existem causas subjetivas que impedem a sua medi\u00e7\u00e3o adequada. Ou seja, fatores idiossincr\u00e1ticos como: o desconhecimento do alcance da doen\u00e7a, comportamento inadequado frente \u00e0s diretrizes emitidas pelas autoridades, falta de credibilidade frente \u00e0s decis\u00f5es do poder pol\u00edtico, apego \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais estreitas, entre outros. Por outro lado, tamb\u00e9m existem certos elementos que permitem uma an\u00e1lise mais objetiva para estabelecer poss\u00edveis causas para a crise humanit\u00e1ria. Mais precisamente, algumas vari\u00e1veis socioecon\u00f4micas revelam caracter\u00edsticas pr\u00f3prias da realidade latino-americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Os indicadores seguintes refletem a vulnerabilidade do grupo de na\u00e7\u00f5es mais afetadas. Peru: alocou o menor gasto em sa\u00fade na Am\u00e9rica do Sul (4,9% em rela\u00e7\u00e3o ao PIB) entre 2010 e 2018; mant\u00e9m o segundo lugar em termos de emprego vulner\u00e1vel (50,9% do total de empregos); sofre de um processo inadequado de controlo da corrup\u00e7\u00e3o e uma baixa efetividade nos gastos governamentais segundo os Indicadores de Governan\u00e7a do Banco Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Bol\u00edvia, o acesso \u00e0s necessidades b\u00e1sicas \u00e9 o mais prec\u00e1rio da Am\u00e9rica do Sul (medido pelo \u00cdndice de Desenvolvimento Humano); o emprego vulner\u00e1vel \u00e9 o mais elevado (58,1% do total de empregos); 39,9% da popula\u00e7\u00e3o vive em condi\u00e7\u00e3o de pobreza; o n\u00famero de camas hospitalares por 10.000 habitantes \u00e9 de 11,5 (dados at\u00e9 2015).<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a desigualdade de renda \u00e9 a maior (o coeficiente de Gini era de 0,53 em 2018); o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o \u00e9 altamente injusto (23,8 em 2018) e no Equador, o controlo da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 praticamente inexistente de acordo com os Indicadores de Governan\u00e7a do Banco Mundial. Isto foi exposto pelos diversos casos de corrup\u00e7\u00e3o na gest\u00e3o dos recursos atribu\u00eddos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica durante a emerg\u00eancia sanit\u00e1ria atual.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>No M\u00e9xico, o gasto em sa\u00fade \u00e9 o segundo mais baixos da Am\u00e9rica Latina&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>No M\u00e9xico, o gasto em sa\u00fade \u00e9 o segundo mais baixos da Am\u00e9rica Latina (5,6% em rela\u00e7\u00e3o ao PIB entre 2010 e 2018). No <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/uma-nova-constituicao-para-o-chile\/\">Chile<\/a>, apesar de ser a economia com o maior PIB per capita e com o melhor \u00cdndice de Desenvolvimento Humano da Am\u00e9rica Latina, 16,8 pessoas em cada 100 habitantes t\u00eam mais de 65 anos; a desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o de renda \u00e9 uma das principais causas do descontentamento social nos \u00faltimos anos. As informa\u00e7\u00f5es apresentadas correspondem aos \u00faltimos dados dispon\u00edveis da CEPAL, das Na\u00e7\u00f5es Unidas e do Banco Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora nenhuma economia tenha sido capaz de evitar perdas humanas, as singularidades latentes na Am\u00e9rica Latina contribu\u00edram para aprofundar e ampliar os efeitos do COVID-19. A vulnerabilidade no mercado de trabalho, os sistemas insuficientes para o controle da corrup\u00e7\u00e3o, o uso inadequado dos recursos destinados para a educa\u00e7\u00e3o e para a sa\u00fade, a precariedade no acesso \u00e0s necessidades b\u00e1sicas, a passividade das pol\u00edticas p\u00fablicas e a desigualdade aguda de renda t\u00eam sido problemas arraigados nestas sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, a dureza com que o COVID-19 atingiu esses pa\u00edses exige uma a\u00e7\u00e3o coletiva. Em n\u00edvel local, o papel do estado \u00e9 fundamental no estabelecimento de pol\u00edticas para alcan\u00e7ar uma sociedade mais justa. Em n\u00edvel regional, \u00e9 essencial estabelecer um projeto real de integra\u00e7\u00e3o com objetivos comuns que atenuem crises semelhantes, mesmo que isso signifique uma perda na autodetermina\u00e7\u00e3o. A ina\u00e7\u00e3o diante desta complexa situa\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica certamente causaria trag\u00e9dias similares.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Eneas em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em n\u00edvel local, o papel do Estado \u00e9 fundamental no estabelecimento de pol\u00edticas para alcan\u00e7ar uma sociedade mais justa. 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