{"id":285,"date":"2019-03-28T05:06:42","date_gmt":"2019-03-28T08:06:42","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=285"},"modified":"2023-01-12T18:04:31","modified_gmt":"2023-01-12T21:04:31","slug":"da-venezuela-ao-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/da-venezuela-ao-mexico\/","title":{"rendered":"Analogia: Da Venezuela ao M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"\n<p>Se a Venezuela fosse um pa\u00eds democr\u00e1tico normal (ainda que com os costumeiros tra\u00e7os latino-americanos de institui\u00e7\u00f5es quebradi\u00e7as, redes de poder opacas e pobreza amplamente difundida), seria poss\u00edvel aguardar a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o com a esperan\u00e7a de que Nicol\u00e1s Maduro desapare\u00e7a nas brumas de onde surgiu. Mas a Venezuela n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds normal e, se Maduro conseguir consolidar com mais firmeza seus v\u00ednculos com o ex\u00e9rcito e com uma burocracia fortemente ideol\u00f3gica, o risco \u00e9 de que dentro de 60 anos (como acontece em Cuba desde 1959), seus descendentes ainda estejam no poder, exaltando como fa\u00e7anha de resist\u00eancia ao imperialismo uma mistura de pobreza distribu\u00edda (mais ou menos) equitativamente, partido \u00fanico e bocas rigorosamente seladas. \u00c9 da\u00ed que surge a press\u00e3o para que o regime inaugurado por Hugo Ch\u00e1vez seja desmontado antes que se petrifique e elimine toda possibilidade de reconstruir uma normalidade democr\u00e1tica que, desta vez, demonstre maior aten\u00e7\u00e3o ao social do que foi o caso nos 40 anos anteriores \u00e0 chegada de <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2013\/03\/130103_obituario_chavez_cj\">Ch\u00e1vez<\/a> ao poder. O que est\u00e1 em jogo no momento s\u00e3o muitas d\u00e9cadas de futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>O ex-guerrilheiro Teodoro Petkoff descreveu o regime de Ch\u00e1vez como uma conflu\u00eancia de militarismo nacionalista e correntes distintas de marxismo-leninismo, em forma de um governo essencialmente personalista, sob a ef\u00edgie glorificada de Sim\u00f3n Bol\u00edvar. Um <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/derrotas-da-esquerda\/\">governo<\/a>, cabe acrescentar, no qual apesar do nacionalismo, do marxismo-leninismo e dos mitos patri\u00f3ticos, as decis\u00f5es cabiam a uma s\u00f3 pessoa, capaz de anular todos os demais poderes do Estado ao seu redor. Terra (institucionalmente) arrasada em torno do Pal\u00e1cio de Miraflores. Um retrocesso secular que algu\u00e9m teve a hilariante ideia de batizar de &#8220;socialismo do s\u00e9culo 21&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Um pa\u00eds quebrado, em meio a proclama\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e alegres fanfarras patri\u00f3ticas. Nem mesmo o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional mexicano chegou a tanto &#8211; e eles foram bem longe&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se passam duas d\u00e9cadas desde que as Miss\u00f5es em Favor dos Pobres, Empresas de Produ\u00e7\u00e3o Social e, enfim, Comunas come\u00e7aram a representar uma fuga ininterrupta rumo ao futuro, sem dinamismo end\u00f3geno e em geral impulsionadas pelo objetivo de capturar votos na pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o. Uma opereta autorit\u00e1ria que, de 2014 para c\u00e1, queimou cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano, e resultou no ressurgimento de ondas de fome imensas, \u00edndices de criminalidade pavorosos, e hospitais nos quais pacientes morrem por enfermidades cur\u00e1veis. Desconsiderando a infinita criatividade l\u00e9xica dos governantes venezuelanos, nem socialismo, nem s\u00e9culo 21, nem pudor ou o m\u00ednimo sentido de responsabilidade social. Um pa\u00eds quebrado, em meio a proclama\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias e alegres fanfarras patri\u00f3ticas. Nem mesmo o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional mexicano chegou a tanto &#8211; e eles foram bem longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Tratemos agora de um livrinho escrito 60 anos atr\u00e1s por um intelectual venezuelano que foi diplomata, romancista e professor universit\u00e1rio: Mariano Pic\u00f3n Salas (1901-1965). O livrinho em quest\u00e3o se chama &#8220;Regresso de Tr\u00eas Mundos&#8221; e, apesar do tempo transcorrido, ainda tem um frescor que permite iluminar de modo in\u00e9dito a fren\u00e9tica hist\u00f3ria da Venezuela (e n\u00e3o s\u00f3).<\/p>\n\n\n\n<p>Pic\u00f3n Salas descreve Bol\u00edvar como um Dom Quixote &#8220;febril e insone que sai em campo aberto a combater toda a Idade M\u00e9dia espanhola e toda a m\u00e1gica proto-hist\u00f3ria dos imp\u00e9rios ind\u00edgenas desfeitos que persistia no imenso territ\u00f3rio indo-americano&#8221;. Ele venceu, e de alguma forma tamb\u00e9m perdeu, uma guerra desigual na qual o passado estava fortemente enraizado no presente que pretendia super\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quase simbolicamente, se pode dizer que em Ayacucho,\nquando os espanh\u00f3is terminaram derrotados, muitos dos her\u00f3is que participaram\nda batalha voltaram \u00e0s suas p\u00e1trias &#8211; ao norte e ao sul &#8211; para estabelecer o\nsonho de Bol\u00edvar, sua hegemonia como caudilhos. H\u00e1 &#8220;gauchos&#8221; que\nvoltaram \u00e0 Argentina e poucos anos mais tarde acompanharam Dom Juan Manuel de\nRosas, para impor sua restaura\u00e7\u00e3o a golpes de lan\u00e7a; &#8220;llaneros&#8221; que\nconspiraram contra a rep\u00fablica venezuelana de P\u00e1ez; e &#8220;cholos&#8221;\ngeniais como Santa Cruz, que aspirava a se converter, nos fr\u00edgidos altiplanos,\nem um novo Manco Capac.<\/p>\n\n\n\n<p>Os &#8220;profetas furiosos&#8221; de que fala Pic\u00f3n Salas eram &#8220;condottieri&#8221; de uma modernidade que j\u00e1 nasceu enferma, pela debilidade de suas institui\u00e7\u00f5es e pela profundidade de suas fraturas sociais, Uma hist\u00f3ria que n\u00e3o termina: o &#8220;condottiero&#8221;, em sua armadura reluzente, ressurge periodicamente como pesadelo, para substituir uma democracia d\u00e9bil por um regime decisivo, supostamente eficaz e infalivelmente autorit\u00e1rio. Uma promessa que desde o s\u00e9culo 19 assume, e essa \u00e9 sua outra desgra\u00e7a, tra\u00e7os positivistas. Tudo \u00e9 jogado em um terreno de racionalidade abstrata no qual a ideologia se disfar\u00e7a por tr\u00e1s de n\u00fameros e esquemas que encarnam profecias radiantes. Voltemos a Pic\u00f3n Salas: &#8220;Conheci nesses anos juvenis [os do autor] pessoas que se prepararam muito para o dia do triunfo ou do apocalipse, que previram todos os esquemas, todos os c\u00e1lculos, todos os planos, para que a nova sociedade sa\u00edsse de suas m\u00e3os como um vestido bem feito&#8221;. Retornando aos cl\u00e1ssicos, \u00e9 como Atena, que nasce perfeita, adulta e armada, da cabe\u00e7a de seu pai, Zeus.<\/p>\n\n\n\n<p>As gera\u00e7\u00f5es passam e, como um destino mal\u00e9volo, a hist\u00f3ria\nse repete. Algu\u00e9m sempre termina por acreditar que as sociedades s\u00e3o\nmaquinarias cujas pe\u00e7as podem ser reorganizadas sem reconhecer os v\u00ednculos do\ntempo hist\u00f3rico, do contexto mundial ou das culturas pr\u00e9-existentes. Como se\ncada sociedade existisse em um v\u00e1cuo c\u00f3smico. O chavismo foi isso: um\nvoluntarismo vaidoso e incompetente, alimentado, para causar desgra\u00e7a ainda\nmaior, por milh\u00f5es de barris de petr\u00f3leo. Uma forma de anular o mundo em nome\nde um ego t\u00e3o prim\u00e1rio quanto desmedido; a cren\u00e7a firme de que o mundo se move\nde acordo com os bons desejos de quem o governa, onde o bem-estar social\noferecido e a perpetua\u00e7\u00e3o do poder do caudilho convivem. Rei s\u00e1bio, pai da\np\u00e1tria, guia moral e comandante em chefe convertidos em um redemoinho no qual a\npuls\u00e3o da eternidade do l\u00edder \u00e9 a \u00fanica racionalidade poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Pic\u00f3n Salas nos ajuda a compreender que Ch\u00e1vez e o chavismo n\u00e3o s\u00e3o uma enfermidade imprevista na hist\u00f3ria venezuelana (e latino-americana), mas sim uma recorr\u00eancia por meio da qual pa\u00edses inteiros retrocedem ao s\u00e9culo 19 em nome do futuro, o que leva alguns de n\u00f3s a questionar quando terminar\u00e1 essa desgra\u00e7a, na qual o desejo de progresso ami\u00fade tem o efeito contr\u00e1rio. Isso tudo tem algo a ver com a realidade atual do M\u00e9xico? A resposta \u00f3bvia \u00e9 n\u00e3o. Nada a ver, exceto por uma advert\u00eancia e uma singular analogia. A advert\u00eancia \u00e9 que economias vi\u00e1veis (pela efic\u00e1cia e bem-estar que possam produzir) n\u00e3o s\u00e3o constru\u00eddas \u00e0 margem do mundo. Romper todos os v\u00ednculos com o mundo (tenta\u00e7\u00e3o compreens\u00edvel, sobretudo quando prevalecem personagens como Trump, Putin ou Xi Jinping), em nome do combate ao neoliberalismo, pode parecer atraente mas \u00e9 um caminho falso, que conduz a lugar nenhum. Os problemas econ\u00f4micos (e sociais) do M\u00e9xico certamente come\u00e7aram muito antes do neoliberalismo, o que o atual presidente do M\u00e9xico tende a esquecer. E isso implica o risco de que dispare suas flechas na dire\u00e7\u00e3o errada. O que tem a ver um antiquado presidencialismo absoluto, um sistema corporativista de l\u00edderes sociais ligados ao Estado e a inconsist\u00eancia institucional com o neoliberalismo?<\/p>\n\n\n\n<p>A analogia \u00e9 que Ch\u00e1vez todos os domingos comandava seu\nprograma &#8220;Al\u00f3 Presidente&#8221;, em cadeia nacional, tagarelando sobre o\nimperialismo, sobre seus filhos, e sobre tudo mais que lhe ocorresse. O\npresidente do M\u00e9xico re\u00fane os jornalistas todas as manh\u00e3s \u00e0s 7h para\nentrevistas coletivas. Ainda que o estilo seja outro, a puls\u00e3o de assumir o\npapel principal \u00e9 a mesma, e n\u00e3o faz bem algum ao pa\u00eds. Seria melhor que o\npresidente se afastasse do debate cotidiano, a menos que aceite o desgaste\ninevit\u00e1vel que ele causa, e a menos que queira correr o risco de improvisar e\nde fazer com que os cidad\u00e3os creiam que ele sozinho, sem ministros, sem\nassessores, sem funcion\u00e1rios qualificados, dirige o pa\u00eds. Uma mensagem que pode\nfazer bem ao seu ego mas vai em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 da constru\u00e7\u00e3o de\ninstitui\u00e7\u00f5es cada vez mais ricas, de compet\u00eancias interdependentes e de centros\ndecis\u00f3rios aut\u00f4nomos, reciprocamente controlados. O M\u00e9xico tem o formid\u00e1vel\ndesafio de construir institui\u00e7\u00f5es cr\u00edveis e eficazes e, quanto a isso, n\u00e3o fica\nclaro para que serve um presidente que faz declara\u00e7\u00f5es a cada manh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se Maduro conseguir consolidar seus v\u00ednculos com o ex\u00e9rcito e com uma burocracia ideol\u00f3gica, o risco \u00e9 de que seus descendentes ainda estejam no poder, exaltando como fa\u00e7anha de resist\u00eancia ao imperialismo uma mistura de pobreza distribu\u00edda equitativamente, partido \u00fanico e bocas seladas. <\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":281,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721,16721,16706,16706,16708,16708,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-285","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","9":"category-mexico-pt-br","11":"category-politica-pt-br","13":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=285"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/285\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=285"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}