{"id":2903,"date":"2020-11-25T08:15:16","date_gmt":"2020-11-25T11:15:16","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2903"},"modified":"2023-07-15T19:46:37","modified_gmt":"2023-07-15T22:46:37","slug":"a-democracia-latino-americana-sem-trump","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-democracia-latino-americana-sem-trump\/","title":{"rendered":"A democracia latino-americana sem Trump"},"content":{"rendered":"\n<p>A vit\u00f3ria de Joe Biden na corrida presidencial contra Donald Trump \u00e9 uma boa not\u00edcia para a democracia dos EUA, mas uma not\u00edcia ainda melhor para a democracia latino-americana.<\/p>\n\n\n\n<p>Cientistas pol\u00edticos demonstraram que <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/13510347.2018.1516754#.X6WBxFdkyLk.twitter\">o papel dos Estados Unidos \u00e9 importante para compreender as transi\u00e7\u00f5es e rupturas democr\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina<\/a>. De forma direta ou indireta, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos catalisaram golpes de Estado e ditaduras em toda a regi\u00e3o. Da mesma maneira, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim na d\u00e9cada de noventa, os Estados Unidos dirigiram sua influ\u00eancia diplom\u00e1tica e seus recursos para facilitar as transi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nem todas as rupturas democr\u00e1ticas s\u00e3o uma consequ\u00eancia das a\u00e7\u00f5es dos EUA e nem todas as transi\u00e7\u00f5es para a democracia tiveram a ajuda do gigante do norte&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nem todas as rupturas democr\u00e1ticas s\u00e3o uma consequ\u00eancia das a\u00e7\u00f5es dos EUA e nem todas as transi\u00e7\u00f5es para a democracia tiveram a ajuda do gigante do norte. Entretanto, <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/books\/democracies-and-dictatorships-in-latin-america\/9CC511C619C452594287644A905994A1\">a atitude normativa de seus governantes frente \u00e0 democracia \u00e9 um fator importante na an\u00e1lise da ascens\u00e3o e queda de ditaduras e democracias na regi\u00e3o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Donald Trump \u00e9 um l\u00edder com valores autorit\u00e1rios: para ele, a democracia n\u00e3o tem um valor intr\u00ednseco. Sua agenda pol\u00edtica e seus interesses pessoais s\u00e3o sua prioridade e ele est\u00e1 disposto a sacrificar as democracias ou apoiar as ditaduras para alcan\u00e7\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias de tal atitude tiveram um impacto consider\u00e1vel para os seus vizinhos do sul. Desde 2016, a Am\u00e9rica Latina tem visto a ascens\u00e3o de \u2013 pelo menos \u2013 tr\u00eas presidentes com tend\u00eancias autorit\u00e1rias, Jair Bolsonaro no Brasil, Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador no M\u00e9xico e Nayib Bukele em El Salvador, e a consolida\u00e7\u00e3o de duas ditaduras, a de Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela e Daniel Ortega na Nicar\u00e1gua. N\u00e3o se pode culpar os EUA pela habilidade desses l\u00edderes de chegar ao poder, mas o desd\u00e9m com o qual Trump trata a democracia tornou seu trabalho mais f\u00e1cil.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/elfaro.net\/en\/202010\/columnas\/24941\/trump-and-central-america-less-democracy-for-less-migration.htm\">Como Hector Silva Avalos aponta, o presidente estadunidense apertou a m\u00e3o de l\u00edderes corruptos e autorit\u00e1rios da Am\u00e9rica Central em troca de promessas e acordos em temas migrat\u00f3rios<\/a>. Em 2017, os EUA fizeram vista grossa quando Juan Orlando Hernandez ganhou as elei\u00e7\u00f5es em Honduras sob suspeitas de fraude bem documentadas e forneceu, na \u00e9poca, um apoio diplom\u00e1tico essencial para contornar a press\u00e3o internacional e os protestos no interior do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos tamb\u00e9m ignoraram os avan\u00e7os autorit\u00e1rios de Bukele em El Salvador. Recusou-se a rejeitar a invas\u00e3o tempor\u00e1ria do legislativo com o ex\u00e9rcito, as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e o desrespeito do presidente salvadorenho \u00e0s ordens judiciais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Guatemala, Trump retirou o apoio diplom\u00e1tico \u00e0 Comiss\u00e3o Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG). Esta comiss\u00e3o, criada em um esfor\u00e7o multilateral sem precedentes, havia investigado v\u00e1rios casos de corrup\u00e7\u00e3o e impunidade de alto n\u00edvel. Quando as investiga\u00e7\u00f5es bateram \u00e0 porta do ent\u00e3o presidente Jimmy Morales, o executivo decidiu atacar a comiss\u00e3o e acabar com a iniciativa. Sem o respaldo dos EUA, a comiss\u00e3o n\u00e3o conseguiu resistir \u00e0 press\u00e3o e fechou suas portas em 2019. Dadas as defici\u00eancias institucionais da Guatemala, a CICIG estava cumprindo um papel essencial para o desenvolvimento democr\u00e1tico do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes pa\u00edses n\u00e3o foram as \u00fanicas v\u00edtimas do Trump. Desde 2016, Nicol\u00e1s Maduro est\u00e1 consolidado no poder. Enquanto o aprofundamento autorit\u00e1rio na Venezuela se deve em grande parte a fatores dom\u00e9sticos, <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ChrisMurphyCT\/status\/1290656452835713025?s=20\">a desajeitada e m\u00edope pol\u00edtica externa dos EUA desperdi\u00e7ou oportunidades preciosas de mudan\u00e7a e gerou condi\u00e7\u00f5es para solidificar o controle do presidente de facto<\/a>. Em 2019, aproveitando uma conjuntura muito particular, Juan Guaid\u00f3 se posicionou como presidente interino. Foi um movimento inteligente que pegou o governo desprevenido e deu \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o reconhecimento internacional. Guaid\u00f3 havia conseguido o imposs\u00edvel, catalisar uma oposi\u00e7\u00e3o fragmentada em torno de uma \u00fanica estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/politics\/2019\/03\/25\/us-is-thinking-invading-venezuela-thats-unlikely-lead-democracy\/\">Donald Trump amea\u00e7ou o governo venezuelano com uma invas\u00e3o improv\u00e1vel<\/a>, encorajou a fracassada revolta de abril de 2019 e <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ChrisMurphyCT\/status\/1290656460226035712?s=20\">boicotou as tentativas de negocia\u00e7\u00e3o da Noruega<\/a>&#8220;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com o apoio dos Estados Unidos e de dezenas de pa\u00edses ao redor do mundo, esta foi uma oportunidade sem precedentes para levar o governo a negociar. Infelizmente, em vez de trabalhar em mecanismos para for\u00e7ar as negocia\u00e7\u00f5es (ou seja, neutralizar o apoio de Cuba, R\u00fassia e China e fortalecer as fac\u00e7\u00f5es moderadas da oposi\u00e7\u00e3o), <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/politics\/2019\/03\/25\/us-is-thinking-invading-venezuela-thats-unlikely-lead-democracy\/\">Donald Trump amea\u00e7ou o governo venezuelano com uma invas\u00e3o improv\u00e1vel<\/a>, encorajou a fracassada revolta de abril de 2019 e <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ChrisMurphyCT\/status\/1290656460226035712?s=20\">boicotou as tentativas de negocia\u00e7\u00e3o da Noruega<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, Trump instaurou san\u00e7\u00f5es que n\u00e3o serviram para quebrar o governo de Maduro, <a href=\"https:\/\/www.foreignaffairs.com\/articles\/venezuela\/2020-10-09\/united-states-helps-venezuelas-regime-survive\">mas aumentaram a depend\u00eancia dos venezuelanos em rela\u00e7\u00e3o ao governo, reduzindo a possibilidade de futuros protestos que poderiam desestabiliz\u00e1-lo<\/a>. Al\u00e9m da ret\u00f3rica de guerra para ganhar votos na Fl\u00f3rida, Trump n\u00e3o fez nada para promover a democracia na Venezuela. Dois anos ap\u00f3s Guaid\u00f3 se posicionar como presidente interino, a oposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 ainda mais fragmentada e Maduro consolidou ainda mais o seu controle sobre o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Joe Biden n\u00e3o tem as mesmas prefer\u00eancias normativas para a democracia que Donald Trump. Tudo indica que para o futuro presidente a democracia tem um valor intr\u00ednseco e vale a pena ter vizinhos democr\u00e1ticos, mesmo que eles discordem dos EUA. Mais importante ainda, Biden deixa a sensa\u00e7\u00e3o de que para ele a democracia no continente tem um valor estrat\u00e9gico fundamental e que este valor \u00e9 o que promete mudan\u00e7as importantes para a regi\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.cfr.org\/article\/presidential-candidates-venezuela\">De Biden podemos esperar n\u00e3o uma pol\u00edtica mais (ou menos) dura do que a proposta por Donald Trump, mas uma pol\u00edtica mais inteligente<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/theconversation.com\/in-central-america-gangs-like-ms-13-are-bad-but-corrupt-politicians-may-be-worse-86113\">A corrup\u00e7\u00e3o e a impunidade fomentaram a viol\u00eancia que tem levado milhares de centro-americanos a deixar seus pa\u00edses para migrar para os Estados Unidos<\/a>. Apoiar iniciativas que reduzam a corrup\u00e7\u00e3o e a impunidade na Guatemala, El Salvador e Honduras \u00e9, portanto, n\u00e3o s\u00f3 normativamente importante, mas um passo fundamental para solucionar os temas de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, a ditadura venezuelana amea\u00e7a os principais interesses dos Estados Unidos na Am\u00e9rica do Sul, incluindo temas de seguran\u00e7a e narcotr\u00e1fico. Acabar com a ditadura n\u00e3o \u00e9 um problema eleitoral para Biden; \u00e9 um problema de seguran\u00e7a hemisf\u00e9rica. Fazer cair o regime \u00e9 mais importante para ele do que parecer &#8220;duro&#8221; para o ditador.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os latino-americanos geralmente tenham bons motivos para desconfiar da pol\u00edtica externa estadunidense, \u00e9 de se esperar, pelo menos em temas de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-dano-causado-pela-democracia\/\">democracia<\/a>, que os pr\u00f3ximos quatro anos sejam mais favor\u00e1veis do que os que acabamos de passar. N\u00e3o apenas porque Biden \u2013 diferente de Trump \u2013 valoriza a democracia, mas porque ele tem uma vis\u00e3o mais ampla e estrat\u00e9gica do que significa para os Estados Unidos a presen\u00e7a de regimes democr\u00e1ticos na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de jorgemejia en Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vit\u00f3ria de Joe Biden \u00e9 uma boa not\u00edcia para a democracia dos Estados Unidos e tamb\u00e9m para a Am\u00e9rica Latina. Nem todas as rupturas democr\u00e1ticas s\u00e3o uma conseq\u00fc\u00eancia das a\u00e7\u00f5es dos EUA. 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