{"id":2940,"date":"2020-11-28T19:47:42","date_gmt":"2020-11-28T22:47:42","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2940"},"modified":"2023-07-12T18:22:06","modified_gmt":"2023-07-12T21:22:06","slug":"maradona-o-gladiador-argentino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/maradona-o-gladiador-argentino\/","title":{"rendered":"Maradona, o gladiador argentino"},"content":{"rendered":"\n<p>Morreu o \u00faltimo grande \u00eddolo popular argentino do s\u00e9culo 20, Diego Armando Maradona, o rei do futebol que associou seu nome ao de seu pa\u00eds em todos os rinc\u00f5es do planeta: uma \u201cmarca registrada\u201d da Argentina. Foi a \u201ccr\u00f4nica de uma morte anunciada\u201d \u2013 mas n\u00e3o por isso menos imprevista \u2013 j\u00e1 que h\u00e1 muito tempo ele vivia no limite entre a vida a morte, por seu v\u00edcio em drogas, \u00e1lcool e medicamentos, distante dos tempos de esportista nos quais deslumbrou multid\u00f5es nos est\u00e1dios e campeonatos, de suas origens pobres e plebeias \u00e0 consagra\u00e7\u00e3o internacional com todas as honrarias e reconhecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de conquistar o t\u00edtulo mundial juvenil em 1979, aos 19 anos, com a sele\u00e7\u00e3o argentina, e triunfar dois anos depois no Boca Juniors, ele iniciou um p\u00e9riplo europeu que o conduziu ao Barcelona (1982-1984), Napoli (1984-1991) e Sevilla (1992-1993). De volta \u00e0 <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/argentina-peronismos-de-todas-as-cores\/\">Argentina<\/a>, Maradona jogou no Newell&#8217;s Old Boys e no Boca antes de aposentar em 1997. Com a sele\u00e7\u00e3o argentina, participou de quatro mundiais, e conquistou o t\u00edtulo da Copa do Mundo do M\u00e9xico em 1986, um torneio no qual sua atua\u00e7\u00e3o foi inesquec\u00edvel. Foi ent\u00e3o que aconteceu sua partida contra a Inglaterra, talvez a mais recordada de sua carreira, pelos dois gols que deram a vit\u00f3ria aos argentinos, e entraram para a Hist\u00f3ria como \u201co gol do s\u00e9culo\u201d e \u201ca m\u00e3o de Deus\u201d, e pelas implica\u00e7\u00f5es extracampo da partida, acontecida apenas quatro anos depois da guerra das Malvinas (1982), quando as feridas ainda estavam abertas. Em numerosas ocasi\u00f5es, esse foi o papel de Maradona: o de art\u00edfice de uma recupera\u00e7\u00e3o do orgulho nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O genial jogador de futebol e menino de bairro que ganhou fortunas se tornou referencial para muitas outras quest\u00f5es, um \u00edcone do \u201cmundo do futebol\u201d, com toda a parafern\u00e1lia que se move ao seu redor e a celebridade da \u201ctela quente\u201d; do espet\u00e1culo do qual parece ser poss\u00edvel representar e explicar a realidade mesma em todas as suas express\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O homem que encarnou o personagem e o carregou nas costas enquanto p\u00f4de disse &#8216;basta\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Superlativo, inigual\u00e1vel, p\u00edcaro e irreverente, pol\u00eamico, controvertido, caprichoso, desmesurado, continuou a participar da cena p\u00fablica depois de se aposentar dos gramados; como diretor de futebol e treinador, como comentarista ou estrela de televis\u00e3o. Como ator de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, com suas bebedeiras e infidelidades, amores e desafetos. Dessa \u00faltima etapa ser\u00e1 recordada sua ades\u00e3o \u00e0s esquerdas populistas latino-americanas representadas por Hugo Ch\u00e1vez e Lula, e sua simpatia por N\u00e9stor e Christina Kirchner. O <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2020\/11\/25\/diego-maradona-morre-aos-60-anos.ghtml\">homem<\/a> que encarnou o personagem e o carregou nas costas enquanto p\u00f4de disse \u201cbasta\u201d no dia 25 de novembro, aos 60 anos. Uma catarse coletiva de tristeza e desconsolo foi gerada por sua despedida. Catarse, desconsolo e revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ao desaparecer o Maradona terreno, de carne e osso, se revela e ganha voo pr\u00f3prio o Maradona de mito e lenda; nacional e universal, transversal e multiclassista, que transp\u00f5e as divis\u00f5es e unifica as camisas. Agora existe um Maradona para cada pessoa. Onde colocar as melhores recorda\u00e7\u00f5es de nossas vidas, os sonhos e alegrias. E as esperan\u00e7as e promessas de \u201creden\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Do futebol \u00e0 pol\u00edtica, e das mais remotas aldeias \u00e0s grandes cidades da aldeia global, representa-se em sua figura \u2013 em seu surgimento, ascens\u00e3o, apogeu e decl\u00ednio \u2013 o destino heroico \u2013 e ao mesmo tempo tr\u00e1gico \u2013 dos gladiadores. Os lutadores que representavam as grandes batalhas na arena do circo romano e tamb\u00e9m entretinham o p\u00fablico e ofereciam um modelo aos espectadores; ao combater e morrer com dignidade, eram capazes de inspirar admira\u00e7\u00e3o e reconhecimento popular. \u201cO Gladiador\u201d, com Russell Crowe, filme que chegou aos 20 anos neste 2020 neomedieval, \u00e9 um aut\u00eantico guerreiro convertido em escravo, que se liberta do jugo a que foi submetido ofertando sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFazia-nos sentir que era o gladiador argentino diante do mundo. Encheu-nos de alegrias, era assim que atuava. Foi um homem que deu a n\u00f3s, como povo, imensas satisfa\u00e7\u00f5es \u201c, disse sobre Maradona o presidente argentino Alberto Fern\u00e1ndez. O jornal The New York Times resumiu a not\u00edcia de sua morte em quatro linhas: \u201cO argentino que se converteu em um dos grandes jogadores de futebol morreu aos 60 anos. Sua lenda foi maculada por seus v\u00edcios e excessos\u201d. O cientista pol\u00edtico e assessor presidencial Marcelo Leiras respondeu em um tuite: \u201cO que significa que eles nada entendem\u201d: a lenda n\u00e3o foi maculada, e resiste \u00e0s suas manchas e opacidades.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 esse o drama argentino; \u00e9 o que se v\u00ea no espelho de argentinidade que Diego Armando Maradona encarnou&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Resiste a elas mas \u00e0s vezes tamb\u00e9m as encobre ou at\u00e9 as justifica. \u00c9 esse o drama argentino; \u00e9 o que se v\u00ea no espelho de argentinidade que Diego Armando Maradona encarnou: a hist\u00f3ria real com todos os seus \u201cchiaroscuros\u201d, os mitos populares e as lendas e narrativas que constru\u00edmos sobre ele. Todos registros igualmente v\u00e1lidos e representativos de nossa cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 quando se confundem realidades e fic\u00e7\u00f5es, defeitos e atributos, fa\u00e7anhas e frustra\u00e7\u00f5es. Maradona agora descansa em paz. P\u00f4de ter seu repouso final na intimidade do \u00e2mbito familiar do qual a fama h\u00e1 muito o havia privado, e que ele n\u00e3o chegou a recuperar e desfrutar em vida. Enquanto isso, l\u00e1 fora, a Argentina toda chora e o mundo recorda seus momentos de gl\u00f3ria. Ele n\u00e3o p\u00f4de ter o grande e pac\u00edfico funeral que o governo improvisou na Casa Rosada, tentando emular o de N\u00e9stor Kirchner 10 anos atr\u00e1s. Tudo terminou dolorosamente, perturbado por dist\u00farbios, protestos, g\u00e1s lacrimog\u00eanio e duras cruzes pol\u00edticas que trouxeram de volta essa outra imagem de que Maradona foi imagem e v\u00edtima: excepcional talento individual e incompreens\u00edveis desarranjos coletivos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Copyright Clar\u00edn e Latinoam\u00e9rica21, 2020.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de lainformacion.com em Foter.com \/ CC BY-NC<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maradona p\u00f4de descansar na intimidade de sua fam\u00edlia enquanto a Argentina o lamentou. Mas ele n\u00e3o podia fazer um funeral em massa em paz. Tudo acabou manchado por motins que devolveram aquela outra imagem da qual Maradona era a imagem e v\u00edtima: talento individual excepcional e uma incompreens\u00edvel desordem coletiva.<\/p>\n","protected":false},"author":72,"featured_media":2929,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16871,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2940","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-futbol-pt-br","8":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/72"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2940"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2940\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2940"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}