{"id":2950,"date":"2020-11-30T20:23:40","date_gmt":"2020-11-30T23:23:40","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2950"},"modified":"2023-07-10T15:51:58","modified_gmt":"2023-07-10T18:51:58","slug":"efeitos-colaterais-da-covid-19-sobre-a-integracao-latino-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/efeitos-colaterais-da-covid-19-sobre-a-integracao-latino-americana\/","title":{"rendered":"COVID-19: Efeitos sobre a integra\u00e7\u00e3o de A.L."},"content":{"rendered":"\n<p>Em meados de novembro, durante um evento organizado pelo Banco Central da Rep\u00fablica Argentina, a secret\u00e1ria executiva da CEPAL comentou &#8220;que retrocedemos em termos de integra\u00e7\u00e3o regional&#8221;. Alicia B\u00e1rcena tem toda a raz\u00e3o. A pandemia da COVID-19 produziu efeitos colaterais para os processos de integra\u00e7\u00e3o regional. A COVID-19 desembarcou na Am\u00e9rica Latina e no Caribe em um momento de grande vulnerabilidade e fragilidade de suas economias e institui\u00e7\u00f5es multilaterais. Ela explodiu quando o regionalismo j\u00e1 estava em crise com a Uni\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Sul-Americanas (UNASUL) em processo de dissolu\u00e7\u00e3o, a Comunidade dos Estados da Am\u00e9rica Latina e Caribe (CELAC) semiparalisada e um Mercado Comum do Sul (Mercosul) em busca de sua miss\u00e3o e sua futura inser\u00e7\u00e3o na economia global.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia tem repercuss\u00f5es multidimensionais para o regionalismo latino-americano.&nbsp; Na esfera econ\u00f4mica, a pandemia aprofundou a crise. Ap\u00f3s o fim do boom das mat\u00e9rias-primas, no per\u00edodo 2014-2019, a taxa de crescimento do PIB regional (0,4%) foi a menor desde a d\u00e9cada de 1950. Segundo o progn\u00f3stico mais recente do FMI de outubro, o PIB da Am\u00e9rica Latina e do Caribe se contrair\u00e1 em 8,1% em 2020 e se recuperar\u00e1 3,6% em 2021. A m\u00e9dio prazo, lidar com a crise econ\u00f4mica dominar\u00e1 a pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A predomin\u00e2ncia do setor prim\u00e1rio nas exporta\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses latino-americanos tem sido um grande obst\u00e1culo para alcan\u00e7ar uma maior regionaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A predomin\u00e2ncia do setor prim\u00e1rio nas exporta\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses latino-americanos tem sido um grande obst\u00e1culo para alcan\u00e7ar uma maior regionaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, baseada em setores industriais e na cria\u00e7\u00e3o de cadeias de valor regionais. As sequelas da pandemia poderiam aumentar a depend\u00eancia econ\u00f4mica da China e, assim, intensificar ainda mais a repress\u00e3o das economias. Enquanto no primeiro semestre de 2020 as exporta\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Latina para os Estados Unidos (-19,5%) e a UE (-18,6%) ca\u00edram significativamente, a redu\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es para a China foi muito menor (-1,0%); e as exporta\u00e7\u00f5es do MERCOSUL para a China aumentaram em 13,2%. \u00c9 marcante o caso do Brasil, onde a soja representou 43% das exporta\u00e7\u00f5es para a China.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise causada pela COVID-19 tem um impacto negativo sobre o com\u00e9rcio intrarregional.&nbsp; Segundo as estat\u00edsticas do BID-INTAL, os fluxos comerciais intrarregionais j\u00e1 haviam ca\u00eddo 8,3% em 2019. Como resultado da recess\u00e3o causada pela COVID-19 no primeiro semestre de 2020, o com\u00e9rcio intrarregional caiu mais 23,2%. Como resultado, o coeficiente de com\u00e9rcio intrarregional para a Am\u00e9rica Latina caiu para 11%; com valores muito mais baixos a n\u00edvel sub-regional (com exce\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Central). Segundo os c\u00e1lculos da CEPAL, a participa\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio intrarregional no com\u00e9rcio total caiu para 9% no Mercosul, 7,3% na Comunidade Andina e 2,7% na Alian\u00e7a do Pac\u00edfico. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, na UE \u00e9 superior a 60%. Para dar um novo impulso ao regionalismo latino-americano, a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica deve ser promovida e aprofundada.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise da COVID-19 exp\u00f4s impiedosamente os d\u00e9ficits estruturais do regionalismo latino-americano. Uma crise tamb\u00e9m pode ser uma oportunidade. Mas isto requer lideran\u00e7a e uma agenda comum. A Uni\u00e3o Europeia (UE), por exemplo, tem demonstrado que est\u00e1 preparada para reagir no caso de crises profundas. Parece que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pandemia tem conduzido a um fortalecimento da UE atrav\u00e9s de um pacote de revitaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em uma escala sem precedentes que inclui um endividamento europeu comum para seu financiamento. H\u00e1 tamb\u00e9m coordena\u00e7\u00e3o entre os estados-membros e a UE quando se trata de comprar vacinas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Em contraste, a pandemia evidenciou mais uma vez as defici\u00eancias do regionalismo latino-americano&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em contraste, a pandemia evidenciou mais uma vez as defici\u00eancias do regionalismo latino-americano. Atualmente, n\u00e3o h\u00e1 lideran\u00e7a suficientemente forte na Am\u00e9rica Latina (seja singular ou compartilhada) que possa promover projetos regionais ou acabar com a paralisia que algumas das organiza\u00e7\u00f5es regionais est\u00e3o sofrendo. Pior ainda, o que pode ser observado \u00e9 uma lideran\u00e7a negativa do Brasil (e em alguns aspectos tamb\u00e9m do M\u00e9xico) durante a pandemia. Nem o Brasil nem o M\u00e9xico t\u00eam sido um modelo para lidar com a pandemia da COVID-19. O M\u00e9xico, no \u00e2mbito de sua presid\u00eancia <em>pro tempore<\/em> da CELAC, tentou ao menos colocar o assunto na agenda do debate latino-americano. O Brasil, por outro lado, renunciou a todas as reivindica\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a no tema da pandemia na agenda regional e n\u00e3o demonstrou nenhuma vontade de participar ativamente na forma\u00e7\u00e3o do mundo posterior \u00e0 COVID-19.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aus\u00eancia de uma lideran\u00e7a regional, os atores externos poderiam impulsionar a integra\u00e7\u00e3o regional. Mas tamb\u00e9m aqui a constela\u00e7\u00e3o internacional \u00e9 bastante desfavor\u00e1vel. A UE, que apoiou processos de integra\u00e7\u00e3o regional no passado, est\u00e1 atualmente muito ocupada consigo mesma e revela uma falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica a longo prazo. O acordo com o Mercosul poderia dar um maior protagonismo internacional a este bloco regional. Mas o acordo est\u00e1 no limbo por causa dos inc\u00eandios na Amaz\u00f4nia e do protecionismo para o setor agr\u00edcola da UE. Deve-se admitir tamb\u00e9m que a pol\u00edtica populista de Bolsonaro e a crise permanente na Argentina n\u00e3o fazem do Mercosul um parceiro particularmente atraente no momento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A atra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da China e a press\u00e3o pol\u00edtica dos EUA est\u00e3o tendo um efeito negativo sobre a integra\u00e7\u00e3o regional&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A UE compete na Am\u00e9rica Latina com a China e os Estados Unidos. Embora esta competi\u00e7\u00e3o possa ter efeitos positivos no <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-democracia-latino-americana-sem-trump\/\">regionalismo latino-american<\/a>o, este n\u00e3o \u00e9 o caso do conflito entre a China e os Estados Unidos. Enquanto a China utiliza a r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica para expandir sua influ\u00eancia na Am\u00e9rica Latina, os Estados Unidos est\u00e3o praticando uma pol\u00edtica de conten\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China na regi\u00e3o. Isto resultou em uma maior politiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es comerciais com a Am\u00e9rica Latina. A atra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da China e a press\u00e3o pol\u00edtica dos EUA est\u00e3o tendo um efeito negativo sobre a integra\u00e7\u00e3o regional. Em vez de fortalecer a coes\u00e3o regional e conduzir a uma a\u00e7\u00e3o coordenada, as for\u00e7as centr\u00edfugas est\u00e3o aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia ainda n\u00e3o terminou. De uma perspectiva otimista, pode-se dizer que o processo de desintegra\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, que culminou com a retirada de quase todos os pa\u00edses membros da UNASUL, n\u00e3o continuou. Mas parece que foi mais resultado da in\u00e9rcia institucional do que da resili\u00eancia do regionalismo latino-americano. N\u00e3o houve uma resposta mais abrangente e coordenada para enfrentar os muitos desafios colocados pela pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Surge a pergunta de se as organiza\u00e7\u00f5es regionais latino-americanas est\u00e3o adequadamente preparadas e equipadas para os desafios do mundo p\u00f3s-COVID-19. Em seu discurso, Alicia B\u00e1rcena lamentou que, no processo de reorganiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do mundo, &#8220;nossa regi\u00e3o n\u00e3o define sua estrat\u00e9gia&#8221;. Existe o risco de que, como resultado da <a href=\"https:\/\/hia.paho.org\/es\/covid22-resposta\">pandemia<\/a>, o peso da Am\u00e9rica Latina na economia mundial continue diminuindo e seu papel se limite ao de um fornecedor de mat\u00e9rias-primas. A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o tem voz no debate sobre os desafios atuais da pol\u00edtica internacional e o futuro da ordem global. Atualmente n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para ser otimista.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Gobierno de Chile en Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe o risco de que, como resultado da pandemia, o peso da Am\u00e9rica Latina na economia mundial continue a diminuir e seu papel seja limitado ao de um fornecedor de mat\u00e9rias-primas. 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