{"id":297,"date":"2019-03-14T05:41:46","date_gmt":"2019-03-14T08:41:46","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=297"},"modified":"2023-01-12T21:29:55","modified_gmt":"2023-01-13T00:29:55","slug":"derrotas-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/derrotas-da-esquerda\/","title":{"rendered":"Derrotas da esquerda"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 duas categorias de derrota. A primeira, em regimes\ndemocr\u00e1ticos, vem de erros e de lentid\u00f5es pol\u00edticas que se combinam a demandas\nsociais vistas como desatendidas, ou que de fato n\u00e3o est\u00e3o sendo atendidas.\nNessa categoria, podemos incluir as elei\u00e7\u00f5es recentes no Brasil e no Chile. J\u00e1\nas derrotas disfar\u00e7adas de vit\u00f3rias s\u00e3o outro assunto, e entre elas Venezuela e\nNicar\u00e1gua est\u00e3o em primeiro plano. Para n\u00e3o falar de Cuba, uma vit\u00f3ria\nenvelhecida, petrificada no tempo e convertida em fardo pesado para a esquerda\nlatino-americana, com seu modelo de partido \u00fanico, falta de liberdades e pobreza\nigualit\u00e1ria \u2013e a sedu\u00e7\u00e3o que imagina-se isso possa exercer sobre a popula\u00e7\u00e3o da\nAm\u00e9rica Latina. \u00c9 dif\u00edcil decidir se \u00e9 mais dolorosa a derrota da esquerda\ndemocr\u00e1tica ou a vit\u00f3ria da esquerda autocr\u00e1tica. Pessoalmente, acho que a\nsegunda op\u00e7\u00e3o d\u00f3i mais. Uma derrota eleitoral pode ser revertida no pr\u00f3ximo\npleito; libertar-se de um autocrata (que encarna e na verdade substitui o povo)\n\u00e9 uma empreitada mais complexa, que pode durar gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer maneira, as derrotas da <a href=\"https:\/\/bibliotecadigital.tse.jus.br\/xmlui\/handle\/bdtse\/4915\">esquerda<\/a> indicam inadequa\u00e7\u00e3o (de natureza distinta) ante o momento que o mundo vive. Nos casos da Venezuela e da Nicar\u00e1gua (com Cuba ao fundo como uma obstinada tenta\u00e7\u00e3o imitativa), os descalabros camuflados de vit\u00f3rias v\u00eam da persistente argamassa cultural forjada no s\u00e9culo 20 entre o marxismo-leninismo, populismo, nacionalismo exasperado e sucessivos &#8220;homens fortes&#8221; surgidos para guiar os pa\u00edses rumo a um progresso indefinido. Que nunca aconteceu, nem mesmo em longo prazo, desde que entendamos por &#8220;progresso&#8221; a consolida\u00e7\u00e3o (institucional e cultural) da democracia, em companhia de uma menor segmenta\u00e7\u00e3o social e um percurso na dire\u00e7\u00e3o de um bem-estar coletivo maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre par\u00eanteses, \u00e9 desoladora a analogia vaga, mas\npersistente, entre os autocratas de esquerda da atualidade e os antigos\ncaudilhos da hist\u00f3ria latino-americana, pessoas para as quais era inconceb\u00edvel\nseparar o pr\u00f3prio destino do destino de seus pa\u00edses, separar sua vida privada\nde sua exist\u00eancia p\u00fablica. Basta recordar o Garc\u00eda M\u00e1rquez de&#8221;O Outono do\nPatriarca&#8221; para entender a profundidade das ra\u00edzes que ligam presente e\npassado em diversos pontos deste subcontinente.<\/p>\n\n\n\n<p>A esquerda democr\u00e1tica, por outro lado, foi e tenta continuar a ser um esfor\u00e7o para deixar de lado a tradi\u00e7\u00e3o dos caudilhos, diante de culturas rochosas e interesses conservadores. Nesse caminho, \u00e0s vezes surgem vit\u00f3rias e \u00e0s vezes derrotas. Quanto a isso se pode mencionar a hist\u00f3ria recente do <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/brasil-luzes-e-sombras-de-uma-disputa-anunciada\/\">Brasil<\/a> e do Chile, ainda que o ocorrido nos dois pa\u00edses provavelmente tenha raz\u00f5es diferentes. No primeiro a derrota veio da incapacidade de reformar um sistema partid\u00e1rio superdimensionado que terminou por obrigar primeiro Lula e depois Dilma Rousseff a pactos que favoreceram a corrup\u00e7\u00e3o, gerando a percep\u00e7\u00e3o social da pol\u00edtica como um mercado de compra e venda de bens, empregos p\u00fablicos e mordomias variadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, contentar tantos aliados no Congresso\nsignificou renunciar a reformas, entre as quais algumas no campo agr\u00e1rio. Poder\ngovernar significou, para a esquerda brasileira, se adaptar \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do\nclientelismo, que terminaram por corroer seu prest\u00edgio e sua credibilidade. As\nalian\u00e7as pol\u00edticas foram t\u00e3o essenciais quanto mort\u00edferas, no Brasil. E isso\nsem mencionar a puls\u00e3o corrupta do pr\u00f3prio Partido dos Trabalhadores. Que o\npresidente mais amado da hist\u00f3ria do Brasil esteja agora encarcerado conduz a\nreflex\u00f5es amargas. No Chile, entre esc\u00e2ndalos na fam\u00edlia Bachelet, mal-estar\ndos moradores urbanos marginalizados e estudantes universit\u00e1rios que se sentiam\ndiscriminados, o desgaste dos socialistas se provou irrevers\u00edvel. Sem esquecer,\nnaturalmente, que a classe m\u00e9dia e a classe alta do Chile est\u00e3o entre as mais\nconservadoras da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 preciso convir em que essas raz\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o mais do que\ncontingentes. Se estendemos nosso olhar, as dificuldades de governo da esquerda\ndemocr\u00e1tica s\u00e3o muito maiores: como criar empregos bem remunerados em um\nplaneta globalizado onde sempre existe algu\u00e9m disposto a fazer o mesmo trabalho\npor pre\u00e7o mais baixo? Como superar (na cultura e na realidade) segmenta\u00e7\u00f5es\nsociais seculares? Como promover a produtividade e a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\nquando o lucro de muitas empresas se deve ao baixo sal\u00e1rio dos trabalhadores ou\na faturamento protegido politicamente? Como superar a praga da corrup\u00e7\u00e3o na\nadministra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que solapa o potencial de progresso de qualquer pol\u00edtica\np\u00fablica? Com que alian\u00e7as pol\u00edticas se pode delinear um caminho que conduza a\navan\u00e7os significativos, nesse terreno? Ao redor dessas quest\u00f5es, o debate, a\nelabora\u00e7\u00e3o de ideias e a busca de coaliz\u00f5es internacionais continuam a ser\nfracos, em nossa e em outras regi\u00f5es do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, estamos entre dois polos: de um lado, uma\nesquerda democr\u00e1tica insegura e mais preocupada com o sucesso eleitoral no\npr\u00f3ximo pleito do que com a constru\u00e7\u00e3o de programas in\u00e9ditos e acordos sociais\nduradouros, e do outro uma esquerda iliberal para a qual todas as respostas j\u00e1\nest\u00e3o estabelecidas em um passado de verdades inoxid\u00e1veis em que reluzem\nimperec\u00edveis as figuras de Marx, Per\u00f3n, Bol\u00edvar, ou seja l\u00e1 o que for que\ncorresponda a elas nos mitos patri\u00f3ticos nacionais. O eterno fasc\u00ednio pela\nsubstitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es e por uma ind\u00fastria sob controle p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nos lugares em que a esquerda autorit\u00e1ria governou ressurgem direitas agressivas, com pouca ou nenhuma considera\u00e7\u00e3o pelas normas democr\u00e1ticas que o mundo vem estabelecendo laboriosamente&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, nos lugares em que a esquerda autorit\u00e1ria\ngovernou ressurgem direitas agressivas, com pouca ou nenhuma considera\u00e7\u00e3o pelas\nnormas democr\u00e1ticas que o mundo vem estabelecendo laboriosamente (e n\u00e3o sem\nretrocessos peri\u00f3dicos dram\u00e1ticos) desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Depois da Uni\u00e3o\nSovi\u00e9tica vem Putin, como demonstra\u00e7\u00e3o de que Estados autorit\u00e1rios n\u00e3o preparam\nsociedades de cultura democr\u00e1tica. E \u00e9 melhor n\u00e3o citar a Pol\u00f4nia, Hungria ou\nos nacionalismos \u00e9tnicos da antiga Iugosl\u00e1via. De uma coisa podemos estar\nrazoavelmente seguros: o dia em que ca\u00edrem os regimes &#8220;socialistas&#8221;\nde Cuba e da Venezuela ser\u00e1 o dia em que florescer\u00e3o nesses pa\u00edses diversos\nBolsonaros em vers\u00f5es nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sejamos brutalmente honestos: a Am\u00e9rica Latina jamais foi o\nNovo Mundo &#8211; entre latif\u00fandios, caudilhos e segmenta\u00e7\u00f5es sociais duras. E\napesar de alguns progressos aqui e acol\u00e1, continua a n\u00e3o s\u00ea-lo. As novidades\nmundiais n\u00e3o surgem aqui. E \u00e9 mais que evidente que precisamos de novidades, e\nde uma esquerda capaz de aliment\u00e1-las, em um mundo que continua a acumular\ndeteriora\u00e7\u00e3o ambiental potencialmente catastr\u00f3fica, em um mundo no qual a dist\u00e2ncia\nentre ricos e pobres s\u00f3 aumenta, em um mundo que produz migra\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e\nretrocessos culturais que levam personagens inveross\u00edmeis como Donald Trump,\nJair Bolsonaro ou Jimmy Morales \u00e0 presid\u00eancia de seus pa\u00edses. Uma feira do\ntranstorno coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma esquerda capaz de enfrentar os desafios de uma\nmodernidade fren\u00e9tica jamais foi t\u00e3o necess\u00e1ria (especialmente na Am\u00e9rica\nLatina). Apesar de tudo, uma parte nem t\u00e3o pequena da esquerda regional\ncontinua aprisionada entre res\u00edduos persistentes de L\u00eanin e Per\u00f3n: uma mistura\nfat\u00eddica de positivismo autorit\u00e1rio e messianismo eg\u00f3latra. E, do outro lado,\numa esquerda liberal que demora demais a gerar ideias e projetos a um s\u00f3 tempo\nradicais e democr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 certa: o capitalismo, na forma em que se apresenta\natualmente, cria riscos ambientais e sociais insustent\u00e1veis. E se bem seja\nverdade que n\u00e3o se v\u00ea coisa alguma no horizonte que possa substitui-lo, tamb\u00e9m\n\u00e9 verdade que chegou o momento para mudan\u00e7as profundas que reduzam o peso das\nfinan\u00e7as na economia mundial, revertam a tend\u00eancia de segmenta\u00e7\u00e3o social e\nabram as portas para experi\u00eancias de novas formas de equidade, nos pa\u00edses e nas\nrela\u00e7\u00f5es entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois exemplos: hoje, a \u00c1frica tem 1,2 bilh\u00e3o de habitantes,\ne dentro de 30 anos sua popula\u00e7\u00e3o vai dobrar. Quem administrar\u00e1 os fluxos\nmigrat\u00f3rios de um continente superpovoado, ambientalmente degradado e tomado\npor del\u00edrios religiosos, se n\u00e3o houver desde agora uma a\u00e7\u00e3o mundial de apoio ao\nseu desenvolvimento? Enquanto isso, na Am\u00e9rica Latina, assistiremos a um\nenvelhecimento acelerado da popula\u00e7\u00e3o, o que gerar\u00e1 dificuldade ainda maior\npara manter os servi\u00e7os sociais, j\u00e1 escassos e de baixa qualidade. Sem exagero,\ndeveria ser evidente para qualquer pessoa dotada de bom senso que o capitalismo\nchegou a uma etapa de seu percurso hist\u00f3rico na qual ou aceita mudan\u00e7as\nfisiol\u00f3gicas fundamentais ou aproximar\u00e1 a humanidade de uma era de caos e\nconflitos com consequ\u00eancias potencialmente catastr\u00f3ficas.<\/p>\n\n\n\n<p>E considerando que as direitas de muitas partes do mundo est\u00e3o\nentregues h\u00e1 bastante tempo \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o das maravilhas do progresso\ntecnol\u00f3gico e da globaliza\u00e7\u00e3o, cabe \u00e0 esquerda democr\u00e1tica a maior parte do\ntrabalho de organizar ideias e press\u00f5es sociais para promover as mudan\u00e7as\nimprescind\u00edveis. Mas, por enquanto, os sinais disso s\u00e3o escassos, e o tempo vem\ncorrendo mais r\u00e1pido que nossa capacidade de fazer frente aos problemas que ele\ntraz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 duas categorias de derrota. 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J\u00e1 as derrotas disfar\u00e7adas de vit\u00f3rias s\u00e3o outro assunto.<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":295,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721,16721,16727,16727,16728,16728,14411,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-297","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","9":"category-izquierda-pt-br","11":"category-brasil-pt-br","13":"category-esquerda","14":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/297\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/295"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=297"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}