{"id":2972,"date":"2020-12-04T06:01:32","date_gmt":"2020-12-04T09:01:32","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=2972"},"modified":"2023-07-06T16:17:48","modified_gmt":"2023-07-06T19:17:48","slug":"o-populismo-economico-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-populismo-economico-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"O populismo econ\u00f4mico de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<p>Bolsonaro introduziu o populismo de direita na Am\u00e9rica Latina. Como um t\u00edpico populista, ele recusa-se a enfrentar problemas concretos, muda de posicionamento ao sabor da opini\u00e3o p\u00fablica e promete feitos inexequ\u00edveis. O problema \u00e9 que, com isso, o presidente periga afundar o pa\u00eds em crises, sobretudo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sustentabilidade das contas p\u00fablicas, um grande desafio da economia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O uso excessivo do termo \u201cpopulismo\u201d gera controv\u00e9rsias.\u00a0 Muito se critica sua aplica\u00e7\u00e3o indiscriminada a l\u00edderes que fogem do padr\u00e3o, geralmente pol\u00edticos de esquerda. O populismo de direita \u00e9 novo na Am\u00e9rica Latina e, portanto, causa desconforto a compara\u00e7\u00e3o entre o direitista extremado Bolsonaro e esquerdistas como Ch\u00e1vez, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/precisamos-falar-da-bolivia\/\">Evo Morales<\/a> e Cristina Kirchner.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Populistas governam como se estivessem em uma eterna campanha eleitoral, propondo pol\u00edticas p\u00fablicas inconsistentes e financeiramente insustent\u00e1veis&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Entretanto, o conceito \u201cpopulismo\u201d pode ser pertinente, desde que seja aplicado com crit\u00e9rio. Uma boa defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a seguinte: populistas governam como se estivessem em uma eterna campanha eleitoral, propondo pol\u00edticas p\u00fablicas inconsistentes e financeiramente insustent\u00e1veis. Deste ponto de vista, Bolsonaro \u00e9 uma refer\u00eancia de populismo, principalmente no que toca a economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua longa carreira legislativa, Bolsonaro sempre foi um ferrenho defensor do nacionalismo estatista promovido durante o regime militar, que governou o Brasil entre 1964 e 1984. Fiel a este princ\u00edpio, o ent\u00e3o deputado votou consistentemente contra medidas liberalizantes, tais como privatiza\u00e7\u00f5es de empresas estatais e a reforma do oneroso sistema nacional de previd\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como em um passe de m\u00e1gica, Bolsonaro converteu-se em um liberal nas elei\u00e7\u00f5es de 2018. O candidato entendeu que levaria vantagem ao se apresentar como o campe\u00e3o nacional da causa anti-PT, aproveitando-se da forte rejei\u00e7\u00e3o aos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff. A mudan\u00e7a foi surpreendente. Bolsonaro \u00e9 um cr\u00edtico ferrenho da agenda social dos petistas, a quem entende por comunistas degenerados. Contudo, em economia ele aproximava-se das iniciativas do partido, cujas administra\u00e7\u00f5es notadamente gastadoras e nacionalistas levaram o pa\u00eds \u00e0 crise fiscal na qual nos encontramos h\u00e1 cinco anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A metamorfose liberal de Bolsonaro tornou-se cr\u00edvel quando o candidato se associou ao atual ministro da economia Paulo Guedes, um PhD em Chicago e ex-<em>trader<\/em> do mercado financeiro. Durante a campanha, Guedes prometia resolver o problema fiscal deixado pelo PT em um agressivo programa de privatiza\u00e7\u00f5es. A venda de ativos p\u00fablicos geraria \u201ctrilh\u00f5es\u201d de reais com os quais o d\u00e9ficit fiscal seria rapidamente zerado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Ap\u00f3s dois anos de governo, as privatiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o sa\u00edram do papel&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s dois anos de governo, as privatiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o sa\u00edram do papel. As contas p\u00fablicas permaneciam no vermelho at\u00e9 que a pandemia as piorou substancialmente: para 2020, projeta-se que o d\u00e9ficit nominal ser\u00e1 de 12% do PIB e que a raz\u00e3o d\u00edvida-PIB alcan\u00e7ar\u00e1 in\u00e9ditos 93%. \u00c9 fato que o COVID-19 foi o principal respons\u00e1vel pela deteriora\u00e7\u00e3o das contas p\u00fablicas neste ano. Mas mesmo antes do aparecimento da doen\u00e7a j\u00e1 era claro que os trilh\u00f5es de Guedes e o liberalismo de Bolsonaro n\u00e3o passavam de quimeras eleitoreiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Guedes desmoralizou-se de vez quando o general Braga Neto, Chefe da Casa Civil, lan\u00e7ou o programa Pr\u00f3-Brasil, uma carta de inten\u00e7\u00f5es cujo objetivo \u00e9 aumentar os investimentos p\u00fablicos. &nbsp;O Pr\u00f3-Brasil foi lan\u00e7ado em plena pandemia, que desnudou a dicotomia em pol\u00edtica econ\u00f4mica existente dentro de um governo ac\u00e9falo. Enquanto Guedes declarava que reformas desestatizantes contrabalanceariam a recess\u00e3o que estava por vir, Braga Neto apresentava solu\u00e7\u00f5es diametricamente opostas.<\/p>\n\n\n\n<p>E Bolsonaro? Enquanto sua equipe desentendia-se no primeiro semestre de 2020, o presidente parecia n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o aos urgentes problemas que o pa\u00eds atravessava. Como bom populista, ele recusou-se a apresentar medidas concretas para lidar com a calamidade sanit\u00e1ria, tentando evitar os custos pol\u00edticos que inevitavelmente surgem em gest\u00f5es de crise. O presidente minimizou o v\u00edrus e atacou as medidas de distanciamento social impostas por prefeitos e governadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro foi finalmente for\u00e7ado a agir quando Congresso e governo negociaram a implementa\u00e7\u00e3o de um aux\u00edlio emergencial para sustentar a renda de trabalhadores vulner\u00e1veis, cujo sustento tendia a desaparecer com a pandemia. A equipe econ\u00f4mica do governo prop\u00f4s um aux\u00edlio tempor\u00e1rio de 200 reais mensais, valor considerado baixo pela oposi\u00e7\u00e3o. Sob a lideran\u00e7a de Rodrigo Maia, presidente da C\u00e2mara dos Deputados, o Congresso aprovou um aux\u00edlio de 400 reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Maia representa a direita tradicional e, por vezes, apresenta-se como advers\u00e1rio de Bolsonaro. Portanto, a aprova\u00e7\u00e3o dos 400 reais foi um rev\u00e9s pol\u00edtico para o presidente, cuja rea\u00e7\u00e3o foi r\u00e1pida: com apoio de partidos de esquerda, seu governo aumentou o aux\u00edlio para R$600. Chegou-se a tal cifra sem nenhum estudo de viabilidade ou de custo e benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O populismo de Bolsonaro resultou no maior programa de sustenta\u00e7\u00e3o de renda em tempos de pandemia do continente&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O populismo de Bolsonaro resultou no maior programa de sustenta\u00e7\u00e3o de renda em tempos de pandemia do continente, o que tornar\u00e1 a recess\u00e3o brasileira em 2020 relativamente branda. Mas o custo do aux\u00edlio emergencial ser\u00e1 de nada menos do que R$322 bilh\u00f5es, o que equivale a quase 5% do PIB. Por m\u00eas, o gasto com o \u201ccoronavaucher\u201d \u00e9 maior do que o bem-sucedido Bolsa Fam\u00edlia em todo o ano.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os efeitos pol\u00edticos do aux\u00edlio emergencial foram not\u00e1veis. O programa condicionou o aumento da popularidade do governo: segundo o Datafolha, a avalia\u00e7\u00e3o \u00f3timo ou bom subiu de 32% para 37% entre junho e agosto de 2020. Esta eleva\u00e7\u00e3o foi substancial no Nordeste, at\u00e9 agora reduto do PT, aonde concentra-se boa parte da popula\u00e7\u00e3o pobre do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>De olho nas elei\u00e7\u00f5es municipais de novembro, Bolsonaro manteve o aux\u00edlio emergencial at\u00e9 dezembro, reduzindo-o para 300 reais nestes dois \u00faltimos meses. O governo continuou gastando muito apesar da reabertura do com\u00e9rcio e do moment\u00e2neo arrefecimento da pandemia durante o segundo semestre. Com o pleito j\u00e1 finalizado, o aux\u00edlio aparentemente terminar\u00e1, mesmo com ind\u00edcios de que o <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/noticia\/2020\/11\/18\/ibge-mais-da-metade-dos-brasileiros-tem-alguma-doenca-cronica.ghtml\">pa\u00eds<\/a> est\u00e1 prestes a entrar em uma segunda onda do COVID-19. Ou seja, a pol\u00edtica populista e n\u00e3o a pandemia parece determinar o aux\u00edlio emergencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta saber o que acontecer\u00e1 no ano que vem. Com o jogo pol\u00edtico j\u00e1 ditado pelas elei\u00e7\u00f5es gerais de 2022, muito provavelmente o governo jogar\u00e1 fora de vez sua agenda liberal e se recusar\u00e1 a cortar gastos. No rastro destas indecis\u00f5es e desacertos, as contas p\u00fablicas se deterioram, junto com a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o. A incapacidade do presidente de tomar decis\u00f5es dif\u00edceis aumenta o risco de retorno da infla\u00e7\u00e3o e de explos\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Populistas s\u00e3o m\u00edopes e inconsequentes; suas pol\u00edticas insustent\u00e1veis causam crises que podem arruinar pa\u00edses. Foi assim na Argentina de Per\u00f3n e dos Kirchner, na Venezuela de Ch\u00e1vez e Maduro e, infelizmente, pode acontecer no Brasil de Bolsonaro. Seu governo bota em s\u00e9rio risco a sustentabilidade das contas p\u00fablicas e a estabilidade da economia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto del Palacio del Planalto em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bolsonaro, como um populista t\u00edpico, recusa-se a enfrentar problemas concretos. Ele muda sua posi\u00e7\u00e3o para se adequar \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica e promete realiza\u00e7\u00f5es irrealistas. O problema \u00e9 que isto levar\u00e1 o pa\u00eds a uma crise de sustentabilidade das contas p\u00fablicas.<\/p>\n","protected":false},"author":151,"featured_media":2970,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16728,16728,16746,16746,16748,16748],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-2972","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil-pt-br","9":"category-jair-bolsonaro-pt-br","11":"category-populismo-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2972","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/151"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2972"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2972\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2972"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=2972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}