{"id":3013,"date":"2020-12-07T09:49:55","date_gmt":"2020-12-07T12:49:55","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3013"},"modified":"2023-07-02T14:38:01","modified_gmt":"2023-07-02T17:38:01","slug":"pesquisas-eleitorais-midia-e-democracia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/pesquisas-eleitorais-midia-e-democracia-no-brasil\/","title":{"rendered":"Pesquisas eleitorais, m\u00eddia e democracia no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem trabalha com pesquisas de opini\u00e3o hoje, tanto no Brasil como em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, sabe que h\u00e1 um embargo medi\u00e1tico para a publica\u00e7\u00e3o de pesquisas de opini\u00e3o, superado somente pelos institutos tradicionais de demoscopia de seus respectivos pa\u00edses. Nos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais, somente um c\u00edrculo pequeno de institutos t\u00eam as portas sempre abertas para a divulga\u00e7\u00e3o de pesquisas de inten\u00e7\u00e3o de voto em elei\u00e7\u00f5es, ao passo que empresas menores ou mais recentes no mercado, com frequ\u00eancia, n\u00e3o conseguem publicar seus dados para o grande p\u00fablico. Esta exclusividade em termos de espa\u00e7o midi\u00e1tico n\u00e3o se sustenta por crit\u00e9rios de qualidade ou capacidade preditiva, j\u00e1 que institutos menores v\u00eam demonstrando melhor desempenho que os tradicionais nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. Se trata de uma tradi\u00e7\u00e3o que remonta a uma \u00e9poca na qual existiam somente tais institutos, o que nos dias de hoje n\u00e3o faz mais sentido. Tal reserva de espa\u00e7o na m\u00eddia dificulta um livre mercado no campo da opini\u00e3o p\u00fablica, desestimula o aumento da qualidade das pesquisas, al\u00e9m de impedir que o p\u00fablico tenha acesso a uma maior pluralidade de fontes confi\u00e1veis de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os institutos de pesquisa tradicionais na <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-incapacidade-moral-na-america-latina\/\">Am\u00e9rica Latina<\/a> nasceram e se consolidaram no s\u00e9culo XX, quando havia pouqu\u00edssimas institui\u00e7\u00f5es com a capacidade t\u00e9cnica e intelectual para o \u00e1rduo trabalho de entender o clima social de inteiras popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>No contexto do s\u00e9culo XX, a polit\u00f3loga da Universidade de Harvard Pippa Norris, afirma que um dos tra\u00e7os caracter\u00edsticos da <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/231382907_A_Virtuous_Circle_Political_Communications_in_Postindustrial_Societies\">evolu\u00e7\u00e3o das campanhas eleitorais ao longo do s\u00e9culo XX<\/a> \u00e9 identific\u00e1vel, entre outras coisas, pela centralidade das pesquisas de opini\u00e3o na pol\u00edtica. A autora explica que nas campanhas pr\u00e9-modernas, os candidatos a cargos eletivos se apresentavam com propostas pr\u00f3prias e buscavam o consenso do p\u00fablico sem o uso de pesquisas. Segundo Norris, com o advento das campanhas p\u00f3s-modernas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os pol\u00edticos passaram a usar as pesquisas para entender os eleitores e, com isso, construir uma grande variedade de discursos personalizados, que se adaptassem a cada segmento do eleitorado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Hoje o panorama bem diverso, pois h\u00e1 outras empresas no setor que conseguem rivalizar com os grandes institutos tanto em capacidade operacional quando em qualidade do ponto de vista da previs\u00e3o eleitoral&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Neste contexto, os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o se tornaram parceiros dos institutos de pesquisa tradicionais em uma \u00e9poca na qual estudar o clima de opini\u00e3o era altamente dispendioso, complexo e poss\u00edvel para pouqu\u00edssimos institutos. Hoje o panorama bem diverso, pois h\u00e1 outras empresas no setor que conseguem rivalizar com os grandes institutos tanto em capacidade operacional quando em qualidade do ponto de vista da previs\u00e3o eleitoral. De fato, nos \u00faltimos dez anos, assistimos \u00e0 ascens\u00e3o de novas empresas de pesquisa que, embora radicadas localmente e ainda relativamente pouco conhecidas na regi\u00e3o, puderam demonstrar uma maior capacidade em termos de previs\u00e3o eleitoral que os institutos tradicionais em diversos pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo os dados do agregador de pesquisas <a href=\"https:\/\/projects.fivethirtyeight.com\/2020-election-forecast\/\"><em>FiveThirtyEight<\/em><\/a>, as tradicionais empresas de pesquisa YouGov, Gallup, Pew Research e Ipsos falharam enormemente na elei\u00e7\u00e3o presidencial nos Estados Unidos em 2020. Neste contexto, outros institutos menores foram os mais precisos nas previs\u00f5es, mas nos EUA tamb\u00e9m houve resist\u00eancia a que a m\u00eddia divulgasse pesquisas que n\u00e3o fossem realizadas pelos seus institutos favoritos. Al\u00e9m disso, os jornalistas brasileiros reproduziram o parecer da grande m\u00eddia americana de que os institutos teriam errado em seus progn\u00f3sticos, mas o que aconteceu realmente foi que somente os mais famosos erraram. Os institutos que realmente obtiveram resultados melhores, acabaram sendo silenciados e passou-se a ideia err\u00f4nea de que aquela elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o p\u00f4de ser prevista adequadamente. Algo an\u00e1logo ocorreu durante as recentes elei\u00e7\u00f5es municipais brasileiras em 2020 e durante a elei\u00e7\u00e3o presidencial argentina em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 se produzindo neste contexto \u00e9 uma enorme resist\u00eancia por parte da m\u00eddia em entender que est\u00e1 ocorrendo uma renova\u00e7\u00e3o geracional no que se refere ao mercado das pesquisas de opini\u00e3o. Dita resist\u00eancia est\u00e1 refor\u00e7ando o oligop\u00f3lio da exposi\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica, no qual institutos de demonstrada capacidade preditiva n\u00e3o conseguem publicar suas pesquisas em certos meios por expl\u00edcita decis\u00e3o editorial em favor dos institutos tradicionais. Ao questionar alguns jornalistas sobre o assunto em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, eles alegam n\u00e3o poder divulgar dados de \u201coutras\u201d empresas de pesquisa por decis\u00e3o editorial. Dita escolha, em alguns casos, est\u00e1 justificada por um acordo de exclusividade entre a m\u00eddia e o instituto e, em outros casos, por um sentimento de <em>omert\u00e0<\/em>, por temor a uma retalia\u00e7\u00e3o no acesso a futuros dados. Em outros casos, h\u00e1 uma clara e expl\u00edcita orienta\u00e7\u00e3o editorial em n\u00e3o divulgar pesquisas que possam \u201cmelindrar\u201d alguma figura pol\u00edtica ou partido espec\u00edfico. H\u00e1 casos em que os \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia temem retalia\u00e7\u00f5es de certos pol\u00edticos no recorte de verbas publicit\u00e1rias p\u00fablicas caso os mesmos ganhem a elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, o setor acad\u00eamico tamb\u00e9m tem a sua parcela de responsabilidade, pois n\u00e3o questiona o suficiente a qualidade do que se produz em termos de pesquisa. De modo geral, tende-se a acreditar erroneamente que a \u00e1rea das pesquisas como um todo se encontra em crise devido ao aumentos dos erros nos \u00faltimos anos, mas ningu\u00e9m est\u00e1 vendo que quem est\u00e1 em crise s\u00e3o somente algumas poucas empresas.<\/p>\n\n\n\n<p>Este panorama \u00e9 nefasto para a \u00e1rea da opini\u00e3o p\u00fablica, pois limita a liberdade de mercado, favorecendo a concentra\u00e7\u00e3o e enfraquecendo a profissionaliza\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o fato que a m\u00eddia continue preferindo os mesmos institutos que sempre erram em suas previs\u00f5es, termina por minar a credibilidade de um inteiro campo profissional, alimentando fantasiosas teorias da conspira\u00e7\u00e3o. Do pondo de vista midi\u00e1tico, em tempos de <em>p\u00f3s-verdade<\/em>, reproduzir dados que erram suas previs\u00f5es n\u00e3o faz que incrementar a desconfian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es, em especial na pr\u00f3pria m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Alguns \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia se demonstram pouco dispostos a realizar um debate aberto sobre a qualidade das pesquisas de opini\u00e3o veiculadas por eles&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, alguns \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia se demonstram pouco dispostos a realizar um debate aberto sobre a qualidade das pesquisas de opini\u00e3o veiculadas por eles, comparando o desempenho de cada instituto com o fim de fomentar um incremento da qualidade do trabalho realizado pela transpar\u00eancia. Quem melhor do que o jornalismo profissional para realizar um debate p\u00fablico sobre o desempenho comparado de cada instituto? A exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica de erros e acertos fomenta, pela competi\u00e7\u00e3o no livre mercado, o aprimoramento da qualidade das pesquisas, al\u00e9m de informar o p\u00fablico sobre o assunto com a complexidade que o tema requer.<\/p>\n\n\n\n<p>De modo geral, <a href=\"http:\/\/www.logos.uerj.br\/PDFS\/27\/03_MARIA_WEBER.pdf\">a qualidade da comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica afeta diretamente a qualidade da pr\u00f3pria democracia<\/a>, como afirma em seus trabalhos acad\u00eamicos a Prof.\u00aa Maria Helena Weber, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e9 a melhor fonte de informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel para que o p\u00fablico se oriente e tome decis\u00f5es de natureza pol\u00edtica. De fato, j\u00e1 foi demonstrado empiricamente por diversos estudos pelo mundo que as pesquisas de opini\u00e3o t\u00eam a capacidade de influenciar o voto. Se pesquisas afetam o voto, \u00e9 um dever da m\u00eddia, como guardi\u00e3 da democracia, orientar o p\u00fablico sobre o desempenho dos institutos durante as elei\u00e7\u00f5es, publicando mais pesquisas desde diferentes fontes, para que o eleitor forme a sua pr\u00f3pria opini\u00e3o tendo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o toda a informa\u00e7\u00e3o realmente dispon\u00edvel. Por \u00faltimo, em especial pelos tempos de \u201cterraplanismo ideol\u00f3gico\u201d que vivemos, \u00e9 importante instaurar um debate sobre como trabalham os institutos e por que os resultados das pesquisas variam tanto entre eles.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto por Iv\u00e1n PC en Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No campo da opini\u00e3o p\u00fablica na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 um embargo da m\u00eddia \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de pesquisas de opini\u00e3o. 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