{"id":3168,"date":"2020-12-19T06:00:50","date_gmt":"2020-12-19T09:00:50","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3168"},"modified":"2023-06-10T14:26:36","modified_gmt":"2023-06-10T17:26:36","slug":"as-multiplas-guerras-da-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-multiplas-guerras-da-colombia\/","title":{"rendered":"As m\u00faltiplas guerras da Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"\n<p>Faz apenas quatro anos que o Acordo de Paz foi assinado entre a guerrilha das FARC-EP e o governo de Col\u00f4mbia. Um acordo que foi assinado, n\u00e3o sem dificuldades, ap\u00f3s quatro anos de di\u00e1logo em Havana, na v\u00e9spera da morte de Fidel Castro, e como corol\u00e1rio de um longo s\u00e9culo XX, dispensando Eric Hobsbawm. O conflito colombiano, al\u00e9m de ser o mais longo da Am\u00e9rica Latina, \u00e9 tamb\u00e9m o \u00faltimo remanescente da experi\u00eancia guerrilheira que ocorreu no continente desde meados do s\u00e9culo passado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>A assinatura de um Acordo de Paz n\u00e3o implica uma redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de viol\u00eancia <em>per se<\/em>&#8220;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A assinatura de um Acordo de Paz n\u00e3o implica uma redu\u00e7\u00e3o dos n\u00edveis de viol\u00eancia <em>per se<\/em>. A Am\u00e9rica Central ou o pr\u00f3prio pa\u00eds produtor de caf\u00e9 nos convidam, com suas realidades violentas, a uma reflex\u00e3o. Um acordo tampouco significa necessariamente, como nos mostra a renomada cientista pol\u00edtica Pippa Norris, um avan\u00e7o positivo na qualidade da democracia. Da mesma forma, em geral, nos anos posteriores o confronto armado n\u00e3o termina ao chegar o conhecido dividendo de paz, pelo qual as despesas associadas a um conflito, quando desaparecem, permitem o reinvestimento dos gastos p\u00fablicos em outras \u00e1reas e necessidades da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo contr\u00e1rio, a din\u00e2mica dos gastos com seguran\u00e7a e defesa permanece est\u00e1vel &#8211; como \u00e9 o caso da Col\u00f4mbia &#8211; e os processos de reincorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 vida civil nunca s\u00e3o plenos e, n\u00e3o est\u00e3o carentes de dissid\u00eancias ou novas mobiliza\u00e7\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia. A este respeito, as experi\u00eancias recentes nos dizem como \u00e9 natural a forma\u00e7\u00e3o de dissidentes ou de novas estruturas criminosas, pelo menos, entre 8% e 14% do n\u00famero total de membros antigos de uma estrutura armada.<\/p>\n\n\n\n<p>Um Acordo de Paz \u00e9 apenas o in\u00edcio de um processo de transforma\u00e7\u00e3o estrutural, territorial e institucional de um cen\u00e1rio antes violento, que \u00e9 quase sempre t\u00e3o imperfeito quanto complexo. No caso da Col\u00f4mbia, n\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, e \u00e9 necess\u00e1rio partir dessas premissas, embora o Acordo assinado com as FARC-EP possa ser o mais ambicioso e completo das \u00faltimas d\u00e9cadas. No entanto, com a \u00fanica e extraordin\u00e1ria exce\u00e7\u00e3o de que o Governo, ao contr\u00e1rio de qualquer outra experi\u00eancia comparativa, \u00e9 o principal sabotador e o mais respons\u00e1vel pelas viola\u00e7\u00f5es at\u00e9 agora observadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-orcamento-que-desencadeou-a-furia-na-guatemala\/\">viol\u00eancia<\/a> associada ao conflito armado interno e as fontes il\u00edcitas de financiamento associadas a ele &#8211; tr\u00e1fico de drogas, minera\u00e7\u00e3o ilegal, extors\u00e3o, etc. &#8211; hoje \u00e9 substancialmente superior ao que aconteceu durante os \u00faltimos oito anos. Embora o pa\u00eds tenha uma taxa de <a href=\"https:\/\/www.eltiempo.com\/vida\/mujeres\/violencia-contra-la-mujer-ninas-y-mujeres-asesinadas-en-colombia-en-el-2020-550683\">mortes violentas<\/a> por 100.000 habitantes que \u00e9 inferior aos 25 homic\u00eddios, e representa o melhor registro dos \u00faltimos 25 anos, este n\u00famero tamb\u00e9m \u00e9 mais que o dobro naqueles cen\u00e1rios com maior viol\u00eancia associada ao conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, desde a assinatura do Acordo, n\u00e3o s\u00f3 mais de 700 l\u00edderes sociais e 250 ex-guerrilheiros das FARC-EP foram assassinados, mas a velha geografia da viol\u00eancia, em sua maioria perif\u00e9rica, tem se intensificado, como resultado de um aumento da disputa territorial dos atores criminosos. Entre outros, o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, os dissidentes mal nomeados das FARC-EP &#8211; uma vez que s\u00e3o em sua maioria compostos por novos reclusos &#8211; ou os grupos criminosos de Los Pelusos ou o Cl\u00e3 do Golfo, protagonizam uma disputa pela hegemonia na qual h\u00e1 dezenas de estruturas armadas e um total de mais de 7.000 membros na disputa.<\/p>\n\n\n\n<p>O desarmamento das FARC-EP, a falta de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio pelas For\u00e7as Militares &#8211; em um pa\u00eds que tradicionalmente tem mais territ\u00f3rio do que soberania &#8211; e uma enorme quantidade de recursos ilegais &#8211; como os mais de 150.000 hectares cultivados com coca &#8211; alimentaram uma geometria vari\u00e1vel da viol\u00eancia. Isto em um espa\u00e7o onde as alian\u00e7as e os confrontos entre todos estes atores criminosos foram subsumidos em uma l\u00f3gica mut\u00e1vel e oportunista, em cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 poss\u00edvel identificar cerca de trinta grupos armados que se consideram a continua\u00e7\u00e3o, de uma forma ou de outra, das extintas FARC-EP. Embora estes grupos guerrilheiros da Col\u00f4mbia tivessem uma presen\u00e7a de mais de 240 munic\u00edpios no final de 2012, a atual continuidade da viol\u00eancia j\u00e1 \u00e9 contabilizada, segundo a Funda\u00e7\u00e3o Ideias para a Paz, em pelo menos metade destes munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas frentes hist\u00f3ricas, como a Frente 1 ou a Frente 7, desde os primeiros passos da implementa\u00e7\u00e3o do Acordo, dissociaram-se do processo e levantaram a continuidade da guerrilha extinta, insatisfeitos com o cen\u00e1rio de interc\u00e2mbios e concess\u00f5es que haviam sido assinados com o Governo. \u00c9 assim que se destacam os grupos comandados por &#8220;Gentil Duarte&#8221; ou &#8220;Iv\u00e1n Mordisco&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, os nomes dos dois principais comandantes das FARC-EP \u00e0 frente do di\u00e1logo de paz em Havana, &#8220;Iv\u00e1n M\u00e1rquez&#8221; e &#8220;Jes\u00fas Santrich&#8221;, comp\u00f5em a estrutura criminosa &#8220;Segunda Marquetalia&#8221;. Esta estrutura foi estabelecida como uma continua\u00e7\u00e3o das FARC-EP, uma vez que abandonaram o processo de reincorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 vida civil, em agosto de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente, os l\u00edderes assumiram que o passo natural da reorganiza\u00e7\u00e3o armada deveria levar a um processo de converg\u00eancia, pelo menos, com as estruturas de &#8220;Gentil Duarte&#8221; ou &#8220;Iv\u00e1n Mordisco&#8221;, mais pr\u00f3ximas da ess\u00eancia guerrilheira. Nada poderia estar mais longe de uma realidade caracterizada pelo confronto no controle do territ\u00f3rio e dos recursos, especialmente no leste da Col\u00f4mbia. Todos estes grupos est\u00e3o presentes ali, assim como outros n\u00e3o menos importantes, com maiores ra\u00edzes no nordeste (Arauca e Norte de Santander), como \u00e9 o caso de Los Pelusos e, principalmente, do ELN com quase 4.000 soldados.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, na regi\u00e3o do Caribe da Col\u00f4mbia predominam os grupos p\u00f3s-paramilitares, entre os quais se destaca o Cl\u00e3 do Golfo, com 1.800 membros, aos quais se deve acrescentar a distribui\u00e7\u00e3o e o confronto com as estruturas do ELN e outras dissidentes das FARC-EP com ra\u00edzes especiais na costa do Pac\u00edfico &#8211; Choc\u00f3, Cauca, Valle del Cauca e Nari\u00f1o &#8211; ou nos departamentos do sul do pa\u00eds, como Caquet\u00e1 ou Putumayo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali, as estruturas armadas herdeiras ou continua\u00e7\u00f5es das FARC-EP na Col\u00f4mbia atuam com um car\u00e1ter mais flex\u00edvel e clientelista, sujeito \u00e0 correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e \u00e0s particularidades do ambiente local. Embora as estruturas de &#8220;Duarte&#8221; e &#8220;Mordisco&#8221; tentassem coordenar uma boa parte dos grupos criminosos na regi\u00e3o do Pac\u00edfico, eles n\u00e3o tiveram sucesso em sua tentativa. Pelo contr\u00e1rio, o resultado tem sido uma guerra de todos contra todos, parcialmente motivada pela natureza aut\u00f4noma de algumas das estruturas mais poderosas, como a frente redefinida &#8220;\u00d3liver Sinisterra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 um conflito muito mais fraturado, complexo e mut\u00e1vel do que aquele que existia quando as FARC-EP operavam&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>O resultado de tudo isso, portanto, \u00e9 um conflito muito mais fraturado, complexo e mut\u00e1vel do que aquele que existia quando as FARC-EP operavam. Com o objetivo de hegemonia local, est\u00e3o ocorrendo tr\u00eas enclaves que, atualmente, s\u00e3o particularmente violentos. Primeiro, a parte sul do Cauca, onde o ELN e a Frente &#8220;Carlos Pati\u00f1o&#8221; est\u00e3o em disputa; depois, a parte sul da Putumayo, onde uma estrutura &#8220;Duarte&#8221; est\u00e1 em conflito com o grupo M\u00e1fia Sinaloa; e finalmente, Nari\u00f1o, onde h\u00e1 mais de dez atores armados lutando uns contra os outros. Em todos os tr\u00eas, o fator comum \u00e9 tamb\u00e9m a aus\u00eancia do Estado. E isto porque outros complexos como o Catatumbo &#8211; no Norte de Santander- ou Choc\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o levados em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, estamos diante de m\u00faltiplas guerras a n\u00edvel local que est\u00e3o protagonizando e diluindo uma viol\u00eancia cada vez mais dif\u00edcil de ser caracterizada, embora com um padr\u00e3o explicativo inalterado, que tem se mostrado n\u00e3o resolvido ao longo dos anos. Toda essa viol\u00eancia continua ocorrendo na Col\u00f4mbia esquecida, perif\u00e9rica e cocaleira, onde o Acordo de Paz e qualquer sinal de implementa\u00e7\u00e3o permanecem hoje uma mera quimera.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos diante de m\u00faltiplas guerras que est\u00e3o liderando e diluindo uma viol\u00eancia que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil de ser caracterizada. 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