{"id":327,"date":"2019-02-28T07:47:05","date_gmt":"2019-02-28T10:47:05","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=327"},"modified":"2023-01-10T21:17:35","modified_gmt":"2023-01-11T00:17:35","slug":"na-argentina-entre-a-retorica-do-grande-acordo-e-a-politica-facciosa-ha-alguma-distancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/na-argentina-entre-a-retorica-do-grande-acordo-e-a-politica-facciosa-ha-alguma-distancia\/","title":{"rendered":"Argentina: Entre a ret\u00f3rica do &#8216;grande acordo&#8217; e a pol\u00edtica facciosa"},"content":{"rendered":"\n<p>Na Argentina, a pol\u00edtica se desenvolve em um entorno faccioso. A desconfian\u00e7a m\u00fatua entre setores, e de todos com rela\u00e7\u00e3o ao futuro, piora as coisas, porque muito pouca gente est\u00e1 disposta a cooperar, por sentir que cooperaria sem recompensa, e por n\u00e3o compreender que esse \u00e9 o pre\u00e7o a pagar por um futuro melhor.<\/p>\n\n\n\n<p>O avesso dessa drama cotidiano \u00e9 a ret\u00f3rica: o palavreado\ndirecionado aos grandes acordos nacionais. A evoca\u00e7\u00e3o do grande projeto\nnacional, que uniria todos os argentinos em apoio a grandes objetivos comuns,\nsaiu um pouco de moda, mas os fogos de artif\u00edcio dos grandes acordos n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 compreens\u00edvel que a percep\u00e7\u00e3o de o quanto somos facciosos\nnos empurre nessa dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 f\u00e1cil associar o faccioso ao conflito e ao\nantagonismo destrutivo. Mas nem conflito e nem antagonismo s\u00e3o necessariamente\nfacciosos. O antagonismo, a contraposi\u00e7\u00e3o, est\u00e3o na natureza da pol\u00edtica, da\nmesma forma que a composi\u00e7\u00e3o e o acordo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Na Argentina de hoje, h\u00e1 muita gente, gente demais, que j\u00e1 n\u00e3o tem o que perder, por ter perdido praticamente tudo&#8221; <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 como superar as divis\u00f5es facciosas com ingenuidade, crendo que todos os interesses sejam concili\u00e1veis. Na Argentina de hoje, h\u00e1 muita gente, gente demais, que j\u00e1 n\u00e3o tem o que perder, por ter perdido praticamente tudo. Mas aqueles que t\u00eam muito, ou o bastante para perder, tamb\u00e9m s\u00e3o numerosos e, se queremos colocar nosso <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/uma-geracao-de-argentinos-com-incerteza-instabilidade-e-medo-do-futuro\/\">pa\u00eds<\/a> no caminho da prosperidade e da equidade, n\u00e3o faz sentido esperar deles um desprendimento irrestrito.<\/p>\n\n\n\n<p>Desmontar as redes de privil\u00e9gios das quais eles se\nbeneficiam h\u00e1 muito tempo \u00e9 uma tarefa \u00e1rdua, que exige conflito e n\u00e3o apenas\ncoopera\u00e7\u00e3o. E \u00e0s vezes a coopera\u00e7\u00e3o \u00e9 enganosa; vende-se de modo positivo mas \u00e9\nreacion\u00e1ria. O senador Pichetto, que costuma ser t\u00e3o l\u00facido, sustenta que o\nfuturo governo ter\u00e1 que &#8220;convocar \u00e0 unidade nacional e implementar seis ou\nsete pol\u00edticas de Estado&#8230; n\u00e3o existe sa\u00edda se n\u00e3o houver acordos nacionais\nimportantes para colocar o pa\u00eds em marcha&#8230; \u00c9 uma trag\u00e9dia. Em alguns supermercados\nh\u00e1 marmelada e doce de leite importados do Chile \u00e0 venda. O ministro Sica, em\nlugar de proteger a ind\u00fastria nacional, importa marmelada e carne de porco. Uma\nmentalidade nefasta&#8221;. (La Naci\u00f3n, 8 de janeiro de 2019)<\/p>\n\n\n\n<p>Parece que a mentalidade nefasta consiste de abrir uma das <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/10\/10\/qual-a-atual-situacao-politica-e-economica-da-argentina\/\">economias<\/a> mais protegidas do mundo \u00e0 concorr\u00eancia, e os acordos nacionais importantes deveriam ter por meta proteger ainda mais a ind\u00fastria, e estipular que os pobres paguem mais caro pela marmelada. H\u00e1 algo que n\u00e3o funciona, nesse culto aos grandes acordos. Mas, claro, \u00e9 muito mais f\u00e1cil incorrer nesse problema se voc\u00ea est\u00e1 na oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Lavagna, depois de se reunir com Miguel Lifschitz,\nnos explicou que &#8220;a conversa\u00e7\u00e3o girou em torno da falta de uma proposta de\nuni\u00e3o nacional, neste ano eleitoral, e do fato de que nenhum dos candidatos\nmais importantes representa essa proposta&#8221;. Pergunto: o que mais poderia\nser dito sobre a falta de uma proposta de uni\u00e3o nacional?<\/p>\n\n\n\n<p>Muita ret\u00f3rica, nenhuma subst\u00e2ncia. Derivar para o culto aos\ngrandes acordos exibe as melhores inten\u00e7\u00f5es, e custa barato. Alguns\nintelectuais p\u00fablicos advogam a discuss\u00e3o coletiva de todos os nossos\nproblemas. N\u00e3o \u00e9 raro que os Pactos de Moncloa, na Espanha, sejam invocados,\ncomo parte dessa orat\u00f3ria. Mas, sejamos francos: o general\u00edssimo [Franco] n\u00e3o\ndeixou um Estado destru\u00eddo como o que temos aqui. Al\u00e9m de um Estado\n(pr\u00e9-requisito b\u00e1sico para estruturar o espa\u00e7o indispens\u00e1vel aos grandes\nacordos), existiam l\u00edderes de for\u00e7as pol\u00edticas organizadas, e uma monarquia disposta\na garantir a transi\u00e7\u00e3o. E duas grandes promessas de futuro: a consolida\u00e7\u00e3o da\ndemocracia e a Europa. Mas, caso algu\u00e9m deseje dizer coisa alguma de\ncomprometedor, basta falar \u2013como faz Sergio Massa\u2013 da cria\u00e7\u00e3o de um Conselho\nEcon\u00f4mico e Social e das grandes pol\u00edticas de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>E o governo da Argentina? Pressionado, recorre menos a esses dispositivos ret\u00f3ricos, por sofrer na pr\u00f3pria carne as crueldades do dia a dia, os dilemas da tomada de decis\u00f5es, as amarguras de pagar o custo dos erros &#8211; seus e alheios. De que pol\u00edticas de Estado os pol\u00edticos est\u00e3o falando se em Neuqu\u00e9n um candidato ao governo do estado prop\u00f5e desmantelar a [forma\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica] Vaca Morta? Ou se existem sindicalistas que continuam a tomar os cidad\u00e3os como ref\u00e9ns? Ou se o Legislativo da prov\u00edncia de Buenos Aires aprova a constru\u00e7\u00e3o de um megaest\u00e1dio em Villa Crespo com isen\u00e7\u00e3o de impostos por 40 anos? Assim fica dif\u00edcil sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas podemos sonhar, sim. Podemos batalhar em favor da\nvirtude pol\u00edtica republicana, que oponha aos interesses das minorias\nintensamente privilegiadas o dos cidad\u00e3os, e que gere for\u00e7a pol\u00edtica para\ncombat\u00ea-los, por meio de acordos de alcance m\u00e9dio, limitados mas efetivos, que\ncriem uma comunidade de interesses nova, e de longa dura\u00e7\u00e3o, entre agentes\ndiversos. O condicionante b\u00e1sico disso \u00e9 a opini\u00e3o p\u00fablica. A argumenta\u00e7\u00e3o\npol\u00edtica deve deixar para tr\u00e1s os lugares comuns, trapaceiros e ing\u00eanuos, dos\n&#8220;grandes acordos&#8221;, e abrir caminho para a politiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do\nprivil\u00e9gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos podemos sonhar com nossas vis\u00f5es da Argentina futura,\nmas o que devemos discutir s\u00e3o os privil\u00e9gios do judici\u00e1rio, os empres\u00e1rios que\ngozam de prote\u00e7\u00f5es e benef\u00edcios injustific\u00e1veis, a parcialidade tribut\u00e1ria\ncontra a equidade, os sindicalistas que se enriquecem de modo alucinante, os\ngovernos provinciais que moldaram as regras do jogo pol\u00edtico para se\nperpetuarem, os senadores e deputados protegidos por seu direito a foro\nespecial contra as consequ\u00eancias de seus atos criminosos, a incr\u00edvel leni\u00eancia\ncom que \u00e9 mantida a injusti\u00e7a da coparticipa\u00e7\u00e3o federal, aqueles que se\nbeneficiam dos pre\u00e7os pagos pelo Estado para adquirir rem\u00e9dios, e muitas coisas\nmais. Se n\u00e3o, de pouco servir\u00e1 que sonhemos com uma Argentina pr\u00f3spera e justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Argentina, a pol\u00edtica se desenvolve em um entorno faccioso. 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