{"id":3272,"date":"2020-12-31T08:52:04","date_gmt":"2020-12-31T11:52:04","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3272"},"modified":"2023-05-24T17:26:17","modified_gmt":"2023-05-24T20:26:17","slug":"o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil\/","title":{"rendered":"O que 2020 ensinou sobre racismo ao Brasil?"},"content":{"rendered":"\n<p>Para todo o mundo, este ser\u00e1 um ano para n\u00e3o se esquecer: o receio do coronav\u00edrus, o imperativo da quarentena e a necessidade de quase um ano de isolamento social. Diante do inesperado, do extraordin\u00e1rio, muitos t\u00eam se perguntado: O que 2020 ensinou ao mundo e ao Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, n\u00e3o s\u00f3 a covid-19 marcou o ano. O racismo foi not\u00edcia frequente. De janeiro, quando a prefeita de Ilhabela apresentou denuncia por inj\u00faria racial ap\u00f3s ofensas nas redes sociais, at\u00e9 dezembro, com veicula\u00e7\u00e3o da imagem de um menino chorando durante competi\u00e7\u00e3o de escolinhas de futebol, no Tri\u00e2ngulo Mineiro, passando pelo assassinato de um homem negro em supermercado em Porto Alegre, a dois dias da celebra\u00e7\u00e3o dia da Consci\u00eancia Negra, n\u00e3o houve um m\u00eas sem que algum caso fosse noticiado. A lista \u00e9 imensa.<\/p>\n\n\n\n<p>Racismo estrutural virou categoria repetida em <em>lives<\/em>, notici\u00e1rios, editoriais e programas na m\u00eddia. Aproximando-nos do final deste ano dif\u00edcil, surge uma pergunta: O que 2020 ensinou sobre racismo ao Brasil?<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, sendo um pa\u00eds que passou por longa experi\u00eancia colonial; teve uma das maiores pr\u00e1ticas de escraviza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria; por s\u00e9culos, sustentou sua economia na m\u00e3o de obra escravizada; normalizou a apropria\u00e7\u00e3o dos corpos de mulheres negras, romantizando o resultado, e ainda elaborou um discurso de integra\u00e7\u00e3o nacional baseado na produ\u00e7\u00e3o do consenso de que, por aqui, ra\u00e7a n\u00e3o teria efeito, em alguma hora enfrentaria seus fantasmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Com popula\u00e7\u00e3o com 56% de negros, que representam 75% dos que vivem abaixo da linha de pobreza, menos de 30% das lideran\u00e7as nas empresas nacionais, 66,7% do contingente carcer\u00e1rio, torna-se dif\u00edcil dissimular o fato de que aqui, classe importa, mas ra\u00e7a \u00e9 combust\u00edvel potente para a produ\u00e7\u00e3o de assimetrias.<\/p>\n\n\n\n<p>2020 come\u00e7ou a nos ensinar logo no inicio, quando ap\u00f3s o Carnaval, a covid-19 chegou. As primeiras informa\u00e7\u00f5es confirmavam sua democr\u00e1tica incid\u00eancia: ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres, todos igualmente sujeitos \u00e0 doen\u00e7a e, apesar de baixo risco, \u00e0 morte. Para todos, uma tarefa: quarentena com distanciamento social, m\u00e1scaras e \u00e1lcool gel. Para a humanidade, um aprendizado: uni\u00e3o e solidariedade.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>Nenhuma crise \u00e9 democr\u00e1tica. Quando chega, s\u00e3o os negros que mais rapidamente sentem suas consequ\u00eancias e que primeiro sucumbem<\/em>&#8220;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Breve momento. Assim que foram divulgadas not\u00edcias que contrastavam o perfil das primeiras pessoas a se infectarem (brancas, de classes m\u00e9dia e alta, rec\u00e9m-chegadas de viagens de f\u00e9rias ao exterior) ao das primeiras a morrerem (empregadas dom\u00e9sticas, negras, pobres) a primeira li\u00e7\u00e3o foi dada: <em>Nenhuma crise \u00e9 democr\u00e1tica. Quando chega, s\u00e3o os negros que mais rapidamente sentem suas consequ\u00eancias e que primeiro sucumbem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A precariedade no acesso \u00e0 sa\u00fade e saneamento vulnerabilizou a popula\u00e7\u00e3o negra. Sendo a maior parte dos que moram em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e sem acesso \u00e0 \u00e1gua limpa e encanada, muitos n\u00e3o tiveram o b\u00e1sico para a preven\u00e7\u00e3o. Sendo a maioria dos que mais dependem de leitos em hospitais p\u00fablicos, grande parte teve que aguardar vagas para tratamento. Sendo os que menos possuem condi\u00e7\u00f5es para arcar com os altos custos dos exames ou atendimento em hospitais particulares, n\u00e3o tiveram op\u00e7\u00e3o. Assim, a popula\u00e7\u00e3o negra tornou-se, rapidamente, o grupo com mais mortes em decorr\u00eancia a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quando os registros da incid\u00eancia de doen\u00e7a e morte por cor\/ra\u00e7a deixaram de ser divulgados, impedindo a mensura\u00e7\u00e3o dos danos, n\u00e3o somente para os grupos raciais, mas igualmente para moradores de favelas e regi\u00f5es perif\u00e9ricas, 2020 ensinou outra li\u00e7\u00e3o sobre racismo: <em>Invisibiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gia para perpetuar as desigualdades raciais. Se n\u00e3o sabemos a cor, o problema n\u00e3o existe.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Se o problema n\u00e3o existe, o ideal \u00e9 garantir o \u201cnovo normal\u201d.&nbsp; 6,4 milh\u00f5es de negros perderam seus empregos durante a pandemia. Os que n\u00e3o perderam ou se vincularam \u00e0 trabalhos informais foram levados a atravessar as cidades em transportes e condi\u00e7\u00f5es insalubres. Entregadores, motoboys, empregadas dom\u00e9sticas, porteiros, faxineiras, cozinheiras enfim&#8230; O conforto da quarentena de alguns garantido por um ex\u00e9rcito de trabalhadores sem a mesma possibilidade de escolha.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma rela\u00e7\u00e3o desigual representada no tr\u00e1gico cen\u00e1rio, exaustivamente veiculado na m\u00eddia <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/campanha-eleitoral-de-vacinacao\/\">nacional<\/a>: Junho, cidade de Recife. Uma m\u00e3e negra, empregada dom\u00e9stica, leva seu filho pequeno para o local de trabalho e passeia com o cachorro da casa, confiando o cuidado de seu filho \u00e0 patroa. Uma patroa que, embora comprometida com o cuidado da crian\u00e7a, faz suas unhas com uma manicure. Uma crian\u00e7a negra de cinco anos, sozinha em um elevador, se perde e cai do alto de um pr\u00e9dio, enquanto procurava por sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Deste epis\u00f3dio, tantas li\u00e7\u00f5es. Fiquemos com duas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>A intersec\u00e7\u00e3o entre classe e ra\u00e7a \u00e9 insuficiente para a compreens\u00e3o do modus operandi do racismo em um pa\u00eds que mant\u00e9m vivas as heran\u00e7as coloniais. <\/em>Aqui, o racismo n\u00e3o opera apenas na produ\u00e7\u00e3o de desigualdades, mas, sobretudo, atrav\u00e9s de um complexo mecanismo de elabora\u00e7\u00e3o de hierarquiza\u00e7\u00f5es de espa\u00e7os (elevadores de servi\u00e7o, quartos de empregadas), de rela\u00e7\u00f5es (patroa e empregada) e de pessoas (brancas e negras). Sociedade e, especialmente, elites internalizaram um sentido de superioridade\/inferioridade que excede a rela\u00e7\u00e3o riqueza\/pobreza e se expressa, entre outras, na irrefre\u00e1vel necessidade de manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es da casa-grande, atualizadas como trabalhos dom\u00e9sticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mulheres negras, que representam 28% da popula\u00e7\u00e3o nacional, mas est\u00e3o na base da estrutura social, com poucas chances de serem absorvidas pelo mercado de trabalho formal, frequentemente inserem-se em ocupa\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e subalternizadas onde s\u00e3o desconsideradas em sua subjetividade e reduzidas \u00e0 m\u00e1quinas de trabalho. Revela-se, neste momento, uma das principais heran\u00e7as coloniais: objetifica\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>E, para o caso das crian\u00e7as negras, tanto quanto a desumaniza\u00e7\u00e3o, a \u201cadultiza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma estrat\u00e9gia potente na produ\u00e7\u00e3o do racismo estrutural. <\/em>Tomadas como adultas, crian\u00e7as negras t\u00eam negada sua condi\u00e7\u00e3o de fragilidade e, portanto, de necessidade de cuidados, tornam-se objeto de neglig\u00eancia e alvos potenciais das in\u00fameras balas perdidas que, neste ano, mataram mais de uma dezena somente no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>S\u00e3o negros 75% das crian\u00e7as e adolescentes entre 10 e 19 anos vitimas de homic\u00eddio; 75,4% dos mortos pela pol\u00edcia&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Desconsideradas como crian\u00e7as, integram um projeto necropol\u00edtico de banaliza\u00e7\u00e3o da morte. S\u00e3o negros 75% das crian\u00e7as e adolescentes entre 10 e 19 anos vitimas de homic\u00eddio; 75,4% dos mortos pela pol\u00edcia e, 75,7% das v\u00edtimas de mortes violentas. Neste ponto, 2020 tamb\u00e9m ensinou que: <em>Racismo \u00e9 catalizador para mortes violentas e, quando associado \u00e0 desumaniza\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o da vida nas periferias, \u00e9 fogo na p\u00f3lvora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas, essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o antiga. H\u00e1 d\u00e9cadas, estudiosos das rela\u00e7\u00f5es raciais, ativistas antirracistas e integrantes dos movimentos negros denunciam. \u00c9 hist\u00f3rico: <em>\u201cparem de nos matar\u201d.<\/em> Contudo, quando cenas do assassinato de George Floyd e das manifesta\u00e7\u00f5es subsequentes correram o mundo, a pergunta exaustivamente repetida foi: Por que aqui, n\u00e3o se manifestam como l\u00e1? Mais uma li\u00e7\u00e3o: <em>No Brasil, luta antirracista boa \u00e9 a que acontece em outro pa\u00eds.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Um engano. No Brasil a resist\u00eancia \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia de negros e as estrat\u00e9gias s\u00e3o seculares. Os casos de racismo fortaleceram os novos movimentos negros, as articula\u00e7\u00f5es em redes e o ativismo antirracista digital. Por outro lado, as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es municipais realizadas entre outubro e novembro tiveram como pauta potente a defesa da candidatura de mulheres negras, um movimento que organizado h\u00e1 anos, ganhou for\u00e7a com a recente decis\u00e3o do <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/internacional\/default.asp?idioma=es_es\">STF<\/a> sobre destina\u00e7\u00e3o de recursos, por partidos pol\u00edticos, para campanhas de candidatos negros.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia ainda n\u00e3o acabou, embora 2020 esteja encerrado, deixando uma \u00faltima li\u00e7\u00e3o: <em>Racismo \u00e9 para ser combatido. <\/em>Se 2020 ensinou muito ao Brasil, a tarefa, para 2021 \u00e9 a de responder \u00e0 pergunta: <em>E, o Brasil, aprendeu a li\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Midia NINJA&nbsp;<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a covid-19 chegou, as primeiras informa\u00e7\u00f5es confirmaram seu impacto democr\u00e1tico. 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