{"id":3279,"date":"2021-01-01T14:31:55","date_gmt":"2021-01-01T17:31:55","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3279"},"modified":"2021-01-04T08:28:42","modified_gmt":"2021-01-04T11:28:42","slug":"a-politica-da-morte-de-bolsonaro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-politica-da-morte-de-bolsonaro\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica da morte de Bolsonaro"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autora Camila De Mario<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se um elemento fundamental da modernidade tardia e do Estado contempor\u00e2neo \u00e9 o direito de matar, Jair Bolsonaro leva esta caracter\u00edstica \u00e0 sua express\u00e3o m\u00e1xima. A pol\u00edtica de Bolsonaro \u00e9 baseada na morte, na elimina\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos cidad\u00e3os de seu pa\u00eds, e particularmente de seus \u201cinimigos\u201d: aqueles que o amedrontam por serem diferentes de seus padr\u00f5es morais. Bolsonaro \u00e9 uma express\u00e3o exemplar da pol\u00edtica baseada na morte, a necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, um esclarecimento. A necropol\u00edtica ou necropoder (pol\u00edtica da morte, poder de morte) \u00e9 um conceito desenvolvido por Achille Mbembe, fil\u00f3sofo pol\u00edtico camaron\u00eas. Aqui a ideia de biopoder de Michel Foucault \u00e9 o ponto de partida. Se biopoder \u00e9 aquela parte da vida sobre a qual o poder tomou o controle, Mbembe vai al\u00e9m e afirma que para entender a modernidade e o Estado contempor\u00e2neo essa ideia n\u00e3o basta. Mais que deixar viver ou expor \u00e0 morte, Mbembe destaca o direito de matar. A pol\u00edtica \u00e9 o trabalho da morte e a soberania \u00e9 o direito de matar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A percep\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do outro como um atentado contra minha vida, como amea\u00e7a mortal ou perigo absoluto, leva a entender sua elimina\u00e7\u00e3o como algo necess\u00e1rio para minha vida e seguran\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Mbembe relaciona a soberania do Estado com a ideia de estado de exce\u00e7\u00e3o. As formas de soberania que lutam por autonomia n\u00e3o s\u00e3o a regra: o comum \u00e9 a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana, a destrui\u00e7\u00e3o material de corpos humanos e popula\u00e7\u00f5es. O estado de exce\u00e7\u00e3o e a rela\u00e7\u00e3o de inimizade s\u00e3o a base normativa do direito de matar. O poder procura inventar exce\u00e7\u00e3o, um inimigo. A percep\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do outro como um atentado contra minha vida, como amea\u00e7a mortal ou perigo absoluto, leva a entender sua elimina\u00e7\u00e3o como algo necess\u00e1rio para minha vida e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A necropol\u00edtica se exemplifica nos colonialismos, nas ocupa\u00e7\u00f5es territoriais armadas, nas guerras contempor\u00e2neas, nas mil\u00edcias, nos Estados parcialmente dissolvidos. Ela define como armas de fogo s\u00e3o desenvolvidas para a destrui\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de pessoas e cria\u00e7\u00e3o de \u201cmundos de morte\u201d, nos quais vastas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o submetidas a condi\u00e7\u00f5es de vida que lhes d\u00e3o um <em>status<\/em> de \u201cmortos-vivos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se esclarecer que o Estado brasileiro sempre praticou o exterm\u00ednio em massa de seus pobres, e que estes t\u00eam cor. Em todas as suas etapas, ele vem eliminando sua popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena (Mbembe percebe a ideia de ra\u00e7a como elemento b\u00e1sico da necropol\u00edtica, e a escravid\u00e3o moderna como fundamental em seu desenvolvimento). O que ocorreu durante a ditadura civil-militar, e agora sob Bolsonaro, \u00e9 apenas a expans\u00e3o da necropol\u00edtica para parcelas brancas da popula\u00e7\u00e3o. Quando a morte se aproxima dos brancos, denunciamos golpes e o avan\u00e7o do autoritarismo. Mas a aus\u00eancia de um Estado de direito sempre marcou as vidas e mortes dos pretos e \u00edndios do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se mencionar tamb\u00e9m que toda a trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Bolsonaro foi baseada no \u00f3dio e na morte. \u00c9 algo que sempre foi evidente, o que torna quem o apoiou nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2018 co-respons\u00e1vel pela viol\u00eancia emanada de seu poder. O sangue que suja as m\u00e3os de Bolsonaro e seu grupo tamb\u00e9m se estende a seus apoiadores \u2013 sejam os pontuais, sejam os mais fi\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro deixou clara sua agenda de poder desde o in\u00edcio. Sempre se esfor\u00e7ou para estabelecer limites entre um \u201cn\u00f3s\u201d formado por patriotas e cidad\u00e3os de bem, e um \u201coutro\u201d constitu\u00eddo por esquerdistas, comunistas, minorias, defensores dos direitos humanos, ambientalistas, todos aqueles cujo discurso ele caracteriza como \u201ccoitadismo\u201d e defesa do \u201cpoliticamente correto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u00c0s minorias Bolsonaro avisou: \u201cque se adequem ou perecer\u00e3o\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os recados foram claros. \u00c0s minorias Bolsonaro avisou: \u201cque se adequem ou perecer\u00e3o\u201d. \u00c0 esquerda prometeu a \u201cponta da praia\u201d (alus\u00e3o a uma base da Marinha da Restinga da Marambaia no Rio de Janeiro, usada durante a ditadura civil-militar para a execu\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos). Aos cidad\u00e3os de bem garantiu que faria uma \u201climpeza nunca vista na hist\u00f3ria do Brasil\u201d. Prometeu a morte. Suas propostas de campanha consistiram na elimina\u00e7\u00e3o do inimigo e na destrui\u00e7\u00e3o do Brasil atual, pois a \u00fanica forma de construir algo novo \u00e9 \u201clibertando o Brasil da ideologia nefasta da esquerda\u201d, como declararou em jantar para apoidores logo ap\u00f3s o in\u00edcio de seu mandato.<\/p>\n\n\n\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o est\u00e1 em marcha, a promo\u00e7\u00e3o da morte tamb\u00e9m. Sua necropol\u00edtica se manifesta no afrouchamento das leis de tr\u00e2nsito, como \u00e9 o caso do fim das multas para quem n\u00e3o usar cintos de seguran\u00e7a e assentos para as crian\u00e7as nos bancos traseiros dos carros, ou do fim dos radares m\u00f3veis e ocultos. Est\u00e1 na facilita\u00e7\u00e3o da posse de arma e nos reiterados esfor\u00e7os para liberar o porte de armas. Seu governo promove a morte ao desmontar a legisla\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ambiental, o que se faz evidente em sua omiss\u00e3o no combate ao desmatamento e \u00e0s queimadas no Pantanal e na Amaz\u00f4nia. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Integra este mesmo projeto o desmonte de pol\u00edticas p\u00fablicas, servi\u00e7os e a\u00e7\u00f5es voltadas para a prote\u00e7\u00e3o de minorias sistematicamente assassinadas ou v\u00edtimas de diferentes formas de viol\u00eancia: ind\u00edgenas, quilombolas, mulheres, homossexuais, pretos pobres, todos entregues \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Soma-se aqui a nega\u00e7\u00e3o e o silenciamento perante o racismo, mecanismo central para a marcha da necropol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica da morte de Bolsonaro alcan\u00e7a sua plenitude na sua gest\u00e3o da pandemia do coronav\u00edrus. Seus discursos e a\u00e7\u00f5es transitaram da nega\u00e7\u00e3o da pandemia para a minimiza\u00e7\u00e3o dos sintomas da COVID-19 (que n\u00e3o passaria de uma \u201cgripezinha\u201d), para agora culminarem na ado\u00e7\u00e3o de uma ret\u00f3rica antivacina e no boicote \u00e0 implanta\u00e7\u00e3o de um plano nacional de vacina\u00e7\u00e3o. Sua principal t\u00e1tica foi destacar o desemprego e a pobreza como efeitos delet\u00e9rios de um \u201cdescabido p\u00e2nico coletivo\u201d e da \u201cirrespons\u00e1vel\u201d atua\u00e7\u00e3o de governadores e prefeitos provocada pelo medo da doen\u00e7a e da morte. Este \u00e9 um ponto importante. H\u00e1 um esfor\u00e7o em naturalizar a morte pela COVID-19, como se esta fosse inevit\u00e1vel \u2013 tal como a morte em si, destino de todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Decorre dessa naturaliza\u00e7\u00e3o dois entendimentos imediatos: (1) quem teme a doen\u00e7a \u00e9 covarde; (2) quem age para combat\u00ea-la \u00e9 inimigo do povo, inimigo do Brasil. Trata-se de uma constru\u00e7\u00e3o que adota a l\u00f3gica da guerra, da polariza\u00e7\u00e3o que opera de forma antidemocr\u00e1tica, servindo \u00e0 necropol\u00edtica e alimentando a oposi\u00e7\u00e3o entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d (que aos olhos de Bolsonaro n\u00e3o passam de \u201cmaricas\u201d que querem fugir da realidade, afinal todos vamos morrer um dia).<\/p>\n\n\n\n<p>No momento em que escrevemos esse artigo, o Brasil vive uma nova onda da pandemia. Com m\u00e9dia di\u00e1ria de casos e \u00f3bitos em ascens\u00e3o, o pa\u00eds se aproxima da marca de 200 mil mortos, com mais de 7 milh\u00f5es de casos de COVID-19 registrados. Enquanto isso, Bolsonaro declara que n\u00e3o h\u00e1 pressa para a vacina, pois \u201cos n\u00fameros t\u00eam mostrado que a pandemia est\u00e1 chegando ao fim\u201d. Com tudo isso, devemos frisar: Bolsonaro \u00e9 respons\u00e1vel pela morte de milhares de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto do Pal\u00e1cio del Planalto em Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autora Camila De Mario<br \/>\nSe um elemento fundamental da modernidade tardia e do estado contempor\u00e2neo \u00e9 o direito de matar. 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