{"id":3378,"date":"2021-01-07T10:11:15","date_gmt":"2021-01-07T13:11:15","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3378"},"modified":"2021-01-11T15:29:07","modified_gmt":"2021-01-11T18:29:07","slug":"caminhantes-baleeiros-migracao-venezuelana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/caminhantes-baleeiros-migracao-venezuelana\/","title":{"rendered":"Caminhantes e balseiros: a solid\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o venezuelana"},"content":{"rendered":"\n<p>A migra\u00e7\u00e3o venezuelana come\u00e7ou a ocupar um lugar na agenda regional a partir de 2015, quando o \u00eaxodo come\u00e7ou a ter uma nuance diferente do que nos anos anteriores. Foi ent\u00e3o que principalmente os pa\u00edses vizinhos fixaram seus olhos neste fen\u00f4meno migrat\u00f3rio que exigiu aten\u00e7\u00e3o especial, j\u00e1 que n\u00e3o foi nada parecido com aquela migra\u00e7\u00e3o recebida nos primeiros anos da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Era de se esperar que, enquanto a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social na Venezuela n\u00e3o melhorasse, a migra\u00e7\u00e3o aumentaria. Com o passar do tempo, aqueles que fugiam da crise partiriam em piores condi\u00e7\u00f5es e com maiores necessidades a serem atendidas pelos pa\u00edses de acolhida. Entretanto, devido \u00e0 rapidez da deteriora\u00e7\u00e3o, a regi\u00e3o n\u00e3o teve tempo suficiente para se preparar institucional e socialmente para o que estava por vir.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Uma grande migra\u00e7\u00e3o em um curto per\u00edodo de tempo<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 o primeiro movimento migrat\u00f3rio de grande impacto na Am\u00e9rica Latina, mas \u00e9 o primeiro a se desenvolver em grande escala em um curto per\u00edodo de tempo. Mais de cinco milh\u00f5es e meio de pessoas j\u00e1 migraram desde 2015. Esta \u00faltima onda \u00e9 a que requer mais aten\u00e7\u00e3o devido \u00e0s prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de deslocamento e ao fato de que os locais de recep\u00e7\u00e3o n\u00e3o tiveram assist\u00eancia m\u00ednima, o que gerou dificuldades no atendimento aos migrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas defici\u00eancias est\u00e3o entrela\u00e7adas com as necessidades hist\u00f3ricas das popula\u00e7\u00f5es anfitri\u00e3s que, em certos casos, reivindicam sua prioridade como nacionais. Isto acentuou um aumento das express\u00f5es xen\u00f3fobas e, em alguns casos, os migrantes foram responsabilizados por suas pr\u00f3prias mis\u00e9rias. Durante o ano de 2020, mais de 400 venezuelanos foram assassinados somente na Col\u00f4mbia, e v\u00e1rios desses casos foram relacionados a express\u00f5es de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, n\u00e3o \u00e9 raro que os migrantes sejam responsabilizados por sua situa\u00e7\u00e3o e pelos perigos que tiveram de enfrentar em suas rotas de fuga. Quer sejam &#8220;caminhantes&#8221; que fizeram viagens de um dia a p\u00e9 atrav\u00e9s das montanhas enfrentando baixas temperaturas e press\u00e3o de grupos armados, ou &#8220;balseros&#8221; que decidem fugir por mar em barcos prec\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>O dilema de migrar<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Embora a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tenha ocorrido desde a chegada da revolu\u00e7\u00e3o, a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida tornou-se vis\u00edvel para a comunidade internacional com a chegada de Nicolas Maduro ao poder. Entretanto, a crise \u00e9 meramente a consequ\u00eancia de um projeto destinado a controlar a popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do empobrecimento e depend\u00eancia absoluta do regime, ao qual se somou um aumento geral da viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas migrar n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Com pobreza extrema pr\u00f3xima a 90%, deprecia\u00e7\u00e3o cambial, baixos rendimentos cobrindo apenas 0,4% da cesta b\u00e1sica, um ciclo hiperinflacion\u00e1rio e, al\u00e9m disso, a impossibilidade de obter documentos de identifica\u00e7\u00e3o, iniciar a viagem \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Portanto, a migra\u00e7\u00e3o venezuelana n\u00e3o tem sido homog\u00eanea e fala-se de v\u00e1rias ondas com caracter\u00edsticas diferentes. O empobrecimento marcou a tend\u00eancia dos migrantes nos \u00faltimos anos, o que somado \u00e0 infla\u00e7\u00e3o desenfreada e \u00e0 dolariza\u00e7\u00e3o de fato da economia que tornou as remessas insuficientes, prev\u00ea para este 2021 um aumento significativo da migra\u00e7\u00e3o com a partida de fam\u00edlias inteiras.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Quest\u00e3o de normas e de humanidade<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Aqueles que finalmente embarcam em sua viagem enfrentam uma jornada cheia de dificuldades e riscos. Embora a vulnerabilidade dos migrantes venezuelanos tenha sido reconhecida internacionalmente, eles nem sempre recebem prote\u00e7\u00e3o adequada e, em muitos casos, tamb\u00e9m s\u00e3o violados nos pa\u00edses de tr\u00e2nsito e de recebimento. Por essa raz\u00e3o, muitas institui\u00e7\u00f5es internacionais est\u00e3o pedindo urgentemente a prote\u00e7\u00e3o dos migrantes e a imposi\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es e responsabilidades tanto para a Venezuela quanto para os outros pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Especial aten\u00e7\u00e3o deve ser dada ao caso da migra\u00e7\u00e3o entre Venezuela e Trinidad e Tobago, onde mais de 100 pessoas atravessando em barcos morreram no \u00faltimo ano ao tentarem chegar \u00e0 ilha. Em certos casos, os migrantes, ao inv\u00e9s de serem devolvidos, s\u00e3o abandonados \u00e0 sua sorte no meio do mar, independentemente de sua condi\u00e7\u00e3o ou idade. Em outros casos, eles s\u00e3o privados de sua liberdade e sujeitos a tratamento desumano em viola\u00e7\u00e3o \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es internacionais, ou s\u00e3o submetidos a redes de tr\u00e1fico e explora\u00e7\u00e3o sexual, sendo particularmente vulner\u00e1veis as mulheres e as crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, at\u00e9 agora os governantes desses dois pa\u00edses parecem n\u00e3o levar isso em considera\u00e7\u00e3o e utilizam a viola\u00e7\u00e3o de direitos e raz\u00f5es pol\u00edticas como justificativas. De fato, para o Primeiro Ministro de Trinidad e Tobago, a entrada irregular de um migrante no pa\u00eds o torna automaticamente uma pessoa indesej\u00e1vel, o que n\u00e3o s\u00f3 limita suas pr\u00f3prias possibilidades, mas tamb\u00e9m coloca em risco a situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria de qualquer outro venezuelano que o ajude.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Migra\u00e7\u00e3o antes do Covid-19<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Como se a crise venezuelana n\u00e3o fosse suficiente, em mar\u00e7o a pandemia e seus ataques econ\u00f4micos foram acrescentados. Para aqueles que tentam sobreviver no pa\u00eds bolivariano, a Covid-19 \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o menor. Mas, para os migrantes, a chegada do v\u00edrus tornou suas condi\u00e7\u00f5es mais complexas, com um aumento significativo das express\u00f5es xen\u00f3fobas. A associa\u00e7\u00e3o do fluxo migrat\u00f3rio com a expans\u00e3o da doen\u00e7a deixou os migrantes ainda mais desamparados, al\u00e9m de serem os primeiros a serem afetados em seu trabalho, uma vez que s\u00e3o, em sua maioria, parte da economia informal.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desta situa\u00e7\u00e3o, quase 100.000 migrantes tentaram voltar \u00e0 Venezuela, em muitos casos a p\u00e9, chocando-se com um novo muro, o de seu pr\u00f3prio pa\u00eds. O regime bolivariano havia impedido a reentrada de seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, acusando-os de serem armas biol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o tem incentivado o uso de travessias de fronteira irregulares, somente no departamento de Norte de Santander, mais de 80 cruzamentos desse tipo j\u00e1 foram identificados. Conhecidos como &#8220;trochas&#8221;, eles se encontram controlados por grupos ilegais que controlam a travessia e fazem parte de redes de tr\u00e1fico e de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, embora ainda seja necess\u00e1rio muito esfor\u00e7o em n\u00edvel regional para combater a pandemia e suas consequ\u00eancias, a gest\u00e3o coordenada da migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser abandonada. Pa\u00edses fronteiri\u00e7os como a Col\u00f4mbia e o Brasil n\u00e3o t\u00eam capacidade institucional para apoiar sozinho o cuidado dos migrantes, um fluxo que certamente aumentar\u00e1 este ano e que, dadas suas novas caracter\u00edsticas, representa novos desafios na aten\u00e7\u00e3o diferenciada.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Cristal Montanez Venezuela em Foter.com \/ CC BY-SA<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A migra\u00e7\u00e3o venezuelana come\u00e7ou a ocupar um lugar na agenda regional a partir de 2015, quando o \u00eaxodo come\u00e7ou a ter uma nuance diferente do que nos anos anteriores. 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