{"id":3440,"date":"2021-01-12T11:13:33","date_gmt":"2021-01-12T14:13:33","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3440"},"modified":"2021-01-14T06:40:50","modified_gmt":"2021-01-14T09:40:50","slug":"roraima-crescimento-sustentado-pelas-sancoes-dos-eua-a-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/roraima-crescimento-sustentado-pelas-sancoes-dos-eua-a-venezuela\/","title":{"rendered":"Roraima cresce devido \u00e0s san\u00e7\u00f5es dos EUA contra a Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>Em janeiro de 2019, a Am\u00e9rica do Sul acompanhava a posse de Jair Bolsonaro no Brasil e na autoproclama\u00e7\u00e3o de Juan Guaid\u00f3 na Venezuela. No m\u00eas seguinte, o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/02\/chanceler-araujo-convoca-coletiva-a-a-poucos-passos-da-entrada-da-venezuela.shtml\">chanceler brasileiro<\/a>, em coordena\u00e7\u00e3o com os governos EUA, Col\u00f4mbia e a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana, levou at\u00e9 a fronteira entre Brasil e Venezuela dois ve\u00edculos carregados com arroz, leite e medicamentos de baixa complexidade sob a narrativa de ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o auge do fluxo migrat\u00f3rio da Venezuela para o Brasil e da press\u00e3o pol\u00edtica do Brasil e seus aliados contra o regime de Nicol\u00e1s Maduro. A Venezuela manteve a fronteira fechada para a carga de poucos milhares de d\u00f3lares e o efeito pr\u00e1tico da opera\u00e7\u00e3o foi nulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois anos depois, a pandemia arrefeceu a press\u00e3o migrat\u00f3ria, mas o fluxo comercial na fronteira entre Pacaraima e Santa Elena de Uair\u00e9n nunca foi t\u00e3o intenso. Esse fen\u00f4meno \u00e9 ainda mais surpreendente quando se considera que o com\u00e9rcio intrarregional na Am\u00e9rica do Sul fechou 2020 em seu pior n\u00edvel relativo desde a cria\u00e7\u00e3o do Mercosul e que a fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre os pa\u00edses da regi\u00e3o tem aumentado significativamente.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Pela primeira vez na hist\u00f3ria<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Em 2020, pela primeira vez na hist\u00f3ria, dois estados brasileiros tiveram em um \u00fanico pa\u00eds vizinho o principal destino de suas exporta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o foram estados da fronteira sul com a Argentina ou da fronteira oeste com o Peru. No ano passado, Roraima e Amazonas venderam mais para a Venezuela do que para qualquer outro pa\u00eds do mundo. As outras 25 unidades da federa\u00e7\u00e3o do Brasil tiveram como principal destino de suas exporta\u00e7\u00f5es pa\u00edses extrarregionais, sendo que 15 estados venderam majoritariamente para a China e 6 para os EUA.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>O estado de Roraima, que era o menor exportador do Brasil, multiplicou por mais de dez vezes suas vendas externas em dois anos, passando de 15 milh\u00f5es em 2018 para 200 milh\u00f5es em 2020. Mais de tr\u00eas quartos de tudo que Roraima exportou nos \u00faltimos dois anos foi destinado exclusivamente \u00e0 Venezuela. Valor que seria significativamente maior se considerado o com\u00e9rcio informal de fronteira. &nbsp;Nenhum outro estado tem vendas externas t\u00e3o concentradas. Em 2019, o PIB de Roraima cresceu 4,3% enquanto a m\u00e9dia brasileira ficou em 1,1%. O movimento se intensificou em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>As exporta\u00e7\u00f5es do vizinho estado do Amazonas para a Venezuela estavam pr\u00f3ximas a 190 milh\u00f5es de d\u00f3lares anuais entre 2013 e 2015. Ca\u00edram nos anos seguintes at\u00e9 atingir o piso de apenas 10 milh\u00f5es em 2018. Em 2019, cresceram para 80 milh\u00f5es e voltaram ao patamar de 190 milh\u00f5es em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o, evidentemente, n\u00e3o est\u00e1 no dinamismo econ\u00f4mico da Venezuela. O PIB da Venezuela despencou 70% acumulados desde 2013, pior desempenho do mundo. Trata-se de um dos efeitos colaterais das san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas aplicadas pelos Estados Unidos contra o regime de Nicol\u00e1s Maduro e v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es venezuelanas, de um dos frutos da agenda positiva que foi desenhada entre Brasil e Venezuela nos anos noventa e de tr\u00eas d\u00e9cadas de fluxos migrat\u00f3rios, muito acentuados nos \u00faltimos cinco anos, que estimula o com\u00e9rcio de fronteira.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">A migra\u00e7\u00e3o para Roraima<\/h3>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o interna para Roraima foi estimulada pelos governos brasileiros no esfor\u00e7o de ocupar a Amaz\u00f4nia. A maior parte dos migrantes eram oriundos de \u00e1reas pobres do nordeste brasileiro, atra\u00eddos pela expans\u00e3o do garimpo durante o regime militar (1964-1985). Nos governos Sarney (1985-1990) e Collor (1990-1992), o combate ao garimpo ilegal durante os preparativos para a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio-92) levou a uma onda migrat\u00f3ria de Roraima para a Venezuela, acompanhada de v\u00e1rios incidentes e massacres de ind\u00edgenas. Parte significativa dos brasileiros que haviam ido \u00e0 Venezuela migraram novamente para a Guiana e Suriname em busca de garimpos mais isolados.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dos governos Itamar Franco (1992-1994) e Rafael Caldera (1994-1998) foi a constru\u00e7\u00e3o de uma agenda positiva, o Protocolo de La Guzmania, articulado pelo chanceler Celso Amorim em 1994. Tratava-se de uma agenda positiva e de integra\u00e7\u00e3o entre os dois pa\u00edses. Levou a pavimenta\u00e7\u00e3o da Troncal 10 e da BR-173 e a interconex\u00e3o das hidroel\u00e9tricas do Baixo Caron\u00ed com Boa Vista. Em menos de uma d\u00e9cada, centenas de quil\u00f4metros de novas estradas e redes de transmiss\u00e3o de energia integraram fisicamente os dois pa\u00edses. Roraima passou a receber energia el\u00e9trica venezuelana e Manaus, banhada pelo rio Amazonas, se vinculou a Puerto Ordaz, \u00e0s margens do Orinoco, por 1580 Km de estrada adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>As boas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas entre Lula da Silva (2003-2010) e Hugo Ch\u00e1vez (1999-2013) estimularam aumento expressivo do com\u00e9rcio bilateral entre Brasil e Venezuela, que passou de 1 bilh\u00e3o em 2003 para mais de 6 bilh\u00f5es em 2012. Muito das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras \u00e0 Venezuela era viabilizado por cr\u00e9ditos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) e cursava via Conv\u00eanio de Cr\u00e9ditos Rec\u00edprocos (CCR) da Associa\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Desenvolvimento, um instrumento para estimular o com\u00e9rcio intrarregional que tinha no Brasil seu principal benefici\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A Venezuela foi um dos tr\u00eas pa\u00edses do mundo com que o Brasil teve os maiores super\u00e1vits comerciais entre 2007 e 2012. A balan\u00e7a era bastante favor\u00e1vel ao Brasil. A amplia\u00e7\u00e3o comercial, por\u00e9m, n\u00e3o foi acompanhada de integra\u00e7\u00e3o produtiva. O BNDES diminuiu drasticamente seu protagonismo externo desde 2014 e o Brasil se retirou unilateralmente da CCR em abril de 2019.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>A crise econ\u00f4mica venezuelana<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A crise econ\u00f4mica venezuelana, o menor protagonismo regional e o afastamento pol\u00edtico entre os dois pa\u00edses fizeram que o com\u00e9rcio bilateral despencasse entre 2014 e 2018. Tanto as manufaturas de S\u00e3o Paulo como produtos agr\u00edcolas eram transportados por navios e o com\u00e9rcio formal na fronteira terrestre era insignificante.<\/p>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio do governo Donald Trump (2017-2021), os EUA ampliaram as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra a Venezuela. Se antes se concentravam em indiv\u00edduos da c\u00fapula do governo, as san\u00e7\u00f5es passaram a envolver v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas venezuelanas e empresas de diversos pa\u00edses que se relacionam com o pa\u00eds. A embarca\u00e7\u00e3o que levasse arroz do Rio Grande do Sul ou do sudeste asi\u00e1tico para a Venezuela n\u00e3o poderia atracar posteriormente nos EUA; as empresas que participassem dessa opera\u00e7\u00e3o teriam suas contas congeladas.<\/p>\n\n\n\n<p>As san\u00e7\u00f5es dos EUA \u00e0 Venezuela n\u00e3o alcan\u00e7aram as consequ\u00eancias anunciadas por Trump e Mike Pompeo: debilitar Nicol\u00e1s Maduro, fortalecer Juan Guaid\u00f3, for\u00e7ar uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Pelo contr\u00e1rio. Aparentemente, Maduro tem mais poder pol\u00edtico interno hoje do que tinha h\u00e1 dois anos. Antes os recursos das exporta\u00e7\u00f5es formais venezuelanas ingressavam via banco central, tesouro venezuelano ou subsidi\u00e1rias da estatal petroleira e iam para as estruturas formais do Estado. Agora as exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o informais e geridos por estruturas paralelas associadas ao regime, com muito mais discricionariedade.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Exporta\u00e7\u00f5es informais<\/h3>\n\n\n\n<p>S\u00e3o essas exporta\u00e7\u00f5es informais que garantem as divisas para as importa\u00e7\u00f5es de alimentos brasileiros transportados por via terrestre em quantidades milhares de vezes maiores do que aquela pretensa ajuda humanit\u00e1ria de fevereiro de 2019. O significativo aumento do fluxo comercial entre os estados de Roraima e Amazonas a Venezuela nos \u00faltimos 24 meses s\u00f3 foi vi\u00e1vel pela infraestrutura pr\u00e9via e pela n\u00e3o ades\u00e3o do Brasil \u00e0s san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. Al\u00e9m da Venezuela, Roraima faz fronteira com a Guiana, \u00fanico pa\u00eds das Am\u00e9ricas que teve crescimento econ\u00f4mico em 2020. A defici\u00eancia de infraestrutura adequada entre Boa Vista e a capital Georgetown tem impedido que Roraima e o Brasil se associem ao desenvolvimento recente desse pa\u00eds vizinho.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m das quest\u00f5es geopol\u00edticas envolvidas, o dinamismo econ\u00f4mico recente da fronteira entre o Brasil e a Venezuela mostra o potencial pouco explorado do com\u00e9rcio intrarregional na Am\u00e9rica do Sul e a relev\u00e2ncia de se possuir infraestrutura adequada. Eis um tema importante para compor a agenda de retomada do crescimento p\u00f3s-pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Paolostefano1412<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O com\u00e9rcio entre Pacaraima e Santa Elena de Uair\u00e9n nunca foi t\u00e3o intenso. 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