{"id":35557,"date":"2023-12-27T09:00:00","date_gmt":"2023-12-27T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=35557"},"modified":"2023-12-28T09:26:34","modified_gmt":"2023-12-28T12:26:34","slug":"riscos-e-desigualdades-nas-crises-climatica-e-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/riscos-e-desigualdades-nas-crises-climatica-e-ambiental\/","title":{"rendered":"Riscos e desigualdades nas crises clim\u00e1tica e ambiental"},"content":{"rendered":"\n<p>As crises clim\u00e1tica e ambiental n\u00e3o s\u00e3o vivenciadas de uma \u00fanica forma. Para cada pessoa, a realidade \u00e9 o que \u00e9 familiar e conhecido, algo que se constr\u00f3i coletivamente a partir de cren\u00e7as, conhecimentos cotidianos, normas sociais e rotinas estabelecidas, localizadas em um lugar espec\u00edfico. Isso significa que as a\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias para enfrentar os desafios que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e ambiental prop\u00f5e n\u00e3o t\u00eam uma \u00fanica defini\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 que as respostas a esses desafios tamb\u00e9m s\u00e3o diversas.<\/p>\n\n\n\n<p>Longe de ser verdade que a heterogeneidade de percep\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o aos riscos ambientais \u00e9 consequ\u00eancia da falta de disponibilidade ou de capacidade de compreens\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, as ci\u00eancias sociais t\u00eam demonstrado que essas diferen\u00e7as se devem principalmente a quest\u00f5es vinculadas a desigualdades materiais e socioculturais estruturalmente incorporadas. A evid\u00eancia nos diz que a quantidade de informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos ambientais \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o est\u00e1 relacionada \u00e0 forma como se trata os problemas identificados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os anos 1980, existe interesse em compreender como se constr\u00f3i a percep\u00e7\u00e3o dos riscos em diferentes p\u00fablicos (acad\u00eamicos, t\u00e9cnicos, formuladores de pol\u00edticas, p\u00fablico em geral) vinculada aos perigos ambientais gerados pelo desenvolvimento tecnol\u00f3gico e industrial e pelos padr\u00f5es culturais de consumo. Diversos autores demonstraram que a percep\u00e7\u00e3o sobre os riscos ambientais e de sa\u00fade se constr\u00f3i, em grande parte, com base em defini\u00e7\u00f5es de riscos impostas sociopoliticamente, ou seja, a partir de quem t\u00eam o poder de definir os problemas nos \u00e2mbitos de decis\u00f5es pol\u00edticas e t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u201cmultiversos\u201d que coexistem em torno da defini\u00e7\u00e3o da crise clim\u00e1tica e ambiental ocorrem em diferentes \u00e2mbitos. Cientistas e decisores pol\u00edticos perpetuam as diverg\u00eancias nos modos de definir o problema e propor poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es. Como menciona a polit\u00f3loga e ativista ambiental argentina Flavia Broffoni, \u201c<a href=\"https:\/\/www.revistaanfibia.com\/ambiente-desarrollo-definir-concepto-controlar-debate\/\">quem define o conceito controla o debate<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, no Uruguai, em meados de 2023, o governo decretou uma crise h\u00eddrica definida por movimentos sociais, acad\u00eamicos e diversas manifesta\u00e7\u00f5es autoconvocadas como consequ\u00eancia do \u201csaqueio\u201d da \u00e1gua por modelos de produ\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos. Essa \u201ccrise h\u00eddrica\u201d veio \u00e0 tona a partir da falta de \u00e1gua pot\u00e1vel, sobretudo para os pequenos produtores da zona metropolitana, como nunca antes havia ocorrido no pa\u00eds. Entretanto, esse problema vem sendo denunciado h\u00e1 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Heterogeneidade das defini\u00e7\u00f5es de riscos ambientais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A realidade \u00e9 carregada de significados a partir de conhecimentos socialmente validados e \u00e9 constru\u00edda sob estruturas de poder. A defini\u00e7\u00e3o de riscos ambientais e clim\u00e1ticos \u00e9 um campo de disputas em que os saberes t\u00e9cnicos e populares se cruzam com interesses, rela\u00e7\u00f5es de poder e a legitima\u00e7\u00e3o do conhecimento pelas pr\u00f3prias sociedades. Tudo depende de como definimos progresso, desenvolvimento, tecnologia, bem-estar, natureza e participa\u00e7\u00e3o, entre outras quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A problematiza\u00e7\u00e3o das crises clim\u00e1tica e ambiental implica definir socialmente os riscos associados a elas em concorr\u00eancia com os riscos vinculados ao crescimento econ\u00f4mico e ao progresso t\u00e9cnico-cient\u00edfico. Como decidimos abordar as consequ\u00eancias de eventos clim\u00e1ticos cada vez mais extremos, a falta de acesso a servi\u00e7os ambientais de qualidade para a vida (\u00e1gua, ar) ou a disponibilidade de espa\u00e7o para o cultivo de alimentos fazem parte dos processos de sele\u00e7\u00e3o de riscos definidos pela ci\u00eancia ou pela pol\u00edtica. N\u00e3o importa s\u00f3 o que sabemos, mas o que podemos fazer com o que sabemos, individual e coletivamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As respostas sobre quais s\u00e3o os riscos e problemas e como devem ser tratados s\u00e3o diversas e, muitas vezes, contradit\u00f3rias. H\u00e1 debates sobre quais deveriam ser os crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o dos riscos ambientais, segundo os grupos ou refer\u00eancias sociais que se analisa. A imposi\u00e7\u00e3o de narrativas em rela\u00e7\u00e3o a essas defini\u00e7\u00f5es de riscos e suas consequ\u00eancias tem impactos econ\u00f4micos, sociais e ambientais significativos. Essas imposi\u00e7\u00f5es ocorrem tanto dentro dos pa\u00edses, entre grupos socioeconomicamente hegem\u00f4nicos, quanto entre pa\u00edses ou regi\u00f5es \u201cmais desenvolvidos\u201d em rela\u00e7\u00e3o a outros que tamb\u00e9m recebem o peso do modelo de desenvolvimento em suas consequ\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As causas e as consequ\u00eancias das amea\u00e7as globais, como <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-mudancas-climaticas-e-o-aumento-de-casos-de-dengue-na-regiao\/\">a prolifera\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as e eventos clim\u00e1ticos<\/a>, s\u00e3o distribu\u00eddas de forma desigual no planeta, assim como os recursos para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desigualdade e alternativas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma d\u00edvida pouco mencionada em \u00e2mbitos t\u00e9cnicos e pol\u00edticos que tem a ver com as responsabilidades e as causas vinculadas \u00e0s m\u00faltiplas desigualdades geradas e aprofundadas nesse contexto de crise clim\u00e1tica. Apesar da gravidade da situa\u00e7\u00e3o socioambiental que o planeta atravessa, muitos pa\u00edses ainda n\u00e3o ratificaram o <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/organos-subsidiarios\/regional-agreement-access-information-public-participation-and-justice\/texto-acuerdo-regional\">Acordo de Escaz\u00fa<\/a> (que estabelece como norma internacional a ampla participa\u00e7\u00e3o social, a justi\u00e7a e o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria ambiental) e s\u00e3o poucos os que consideram a d\u00edvida socioecol\u00f3gica. Pelo contr\u00e1rio, o clima de viol\u00eancia contra ativistas e movimentos ambientais se intensificou na regi\u00e3o nos \u00faltimos anos, e as condi\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es mais desfavorecidas socioeconomicamente continuam se deteriorando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns acad\u00eamicos sa\u00edram do modo de gera\u00e7\u00e3o de conhecimento puramente cient\u00edfico para propor e buscar transforma\u00e7\u00f5es concretas que atendam a m\u00faltiplas desigualdades. Quem defende o <a href=\"https:\/\/www.opendemocracy.net\/es\/transiciones-justas-america-latina-mundo\/\">Pacto Ecossocial e Intercultural do Sul<\/a>, por exemplo, argumentam que a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, social e digital deve ser projetada a partir dos territ\u00f3rios que suportam o sacrif\u00edcio material, cultural e ambiental para salvar o planeta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um contexto em que as defini\u00e7\u00f5es de crise ambiental n\u00e3o s\u00e3o \u00fanicas, em que o excesso de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o soluciona problemas e em que h\u00e1 diferentes responsabilidades geopol\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o aos riscos planet\u00e1rios, \u00e9 necess\u00e1rio discutir os mecanismos que poderiam reverter as desigualdades sociais que se reproduzem e se aprofundam no planeta. Isso pressup\u00f5e a aceita\u00e7\u00e3o das m\u00faltiplas realidades que coexistem em torno do tema, tomando as narrativas acad\u00eamicas e pol\u00edticas como constru\u00e7\u00f5es carregadas de sentido, visibilizando as estruturas que perpetuam os mecanismos de desigualdade e dando espa\u00e7o a solu\u00e7\u00f5es alternativas com licen\u00e7a social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As a\u00e7\u00f5es e estrat\u00e9gias para enfrentar os desafios que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e ambiental prop\u00f5em n\u00e3o tem uma defini\u00e7\u00e3o social \u00fanica, portanto, as respostas aos desafios tamb\u00e9m s\u00e3o diversas.<\/p>\n","protected":false},"author":533,"featured_media":35540,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,17137,16973],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-35557","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-comunicacion-pt-br","9":"category-crisis-climatica-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/533"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35557"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35557\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35540"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35557"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=35557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}