{"id":37068,"date":"2024-01-23T09:00:00","date_gmt":"2024-01-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=37068"},"modified":"2024-01-24T07:42:35","modified_gmt":"2024-01-24T10:42:35","slug":"davos-forum-do-socialismo-a-ascensao-da-extrema-direita-e-o-discurso-extrativista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/davos-forum-do-socialismo-a-ascensao-da-extrema-direita-e-o-discurso-extrativista\/","title":{"rendered":"Davos, &#8220;f\u00f3rum do socialismo&#8221;: a ascens\u00e3o da extrema direita e o discurso extrativista"},"content":{"rendered":"\n<p>Como todos os anos, de 15 a 19 de janeiro, Davos reunir\u00e1 os principais l\u00edderes empresariais e CEOs. Tal evento convoca tamb\u00e9m representantes pol\u00edticos do mundo todo, incluindo o presidente da Argentina, Javier Milei. A Su\u00ed\u00e7a, onde fica esse exclusivo resort alpino, vem sendo fortemente afetada pelo aquecimento global. Com temperaturas que j\u00e1 ultrapassam os 2\u00b0C da m\u00e9dia global, muitas das esta\u00e7\u00f5es de esqui est\u00e3o ficando sem neve. Esse fen\u00f4meno certamente n\u00e3o \u00e9 desconhecido para os organizadores, nem passa despercebido pelos participantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como tem acontecido nos \u00faltimos anos, o \u00faltimo <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/publications\/global-risks-report-2024\/\">relat\u00f3rio de risco global<\/a> publicado anualmente pelo F\u00f3rum Econ\u00f4mico Global destaca o problema ambiental. A emerg\u00eancia clim\u00e1tica, bem como a perda de biodiversidade, ocupa um papel central. Na opini\u00e3o dos entrevistados, o futuro do mundo se mostra sombrio, uma escurid\u00e3o que reconhece m\u00faltiplas causas (conflitos armados, disputas geopol\u00edticas, eventos extremos, aumento das temperaturas, grandes deslocamentos populacionais, agita\u00e7\u00e3o social, intelig\u00eancia artificial e a dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas). Isso \u00e9 motivo de preocupa\u00e7\u00e3o, tanto para os empres\u00e1rios quanto para as pessoas em locais p\u00fablicos. Tal situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nos obriga a repensar a economia, a revisitar os principais conceitos que sustentam a tomada de decis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Se as decis\u00f5es de investimento se concentrarem apenas na efici\u00eancia, certamente estaremos em apuros. Em um contexto marcado por m\u00faltiplas crises, muitas vezes inter-relacionadas, em que prevalece a incerteza radical, a ideia de <strong>resili\u00eancia<\/strong> assume o papel central diante de condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, e a primazia da <strong>efici\u00eancia<\/strong> leva a decis\u00f5es equivocadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A resili\u00eancia se torna uma das virtudes dos sistemas complexos, que priorizam o espa\u00e7o para aprendizagem e adapta\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a da <strong>incerteza<\/strong> aumenta a necessidade de fortalecer o sistema; a experimenta\u00e7\u00e3o e o erro s\u00e3o aceitos. Isso contrasta com a vis\u00e3o econ\u00f4mica tradicional, que coloca a efici\u00eancia em primeiro plano. N\u00e3o menos importante \u00e9 a vis\u00e3o de curto prazo que prevalece atualmente, de escopo restrito, que prioriza o ganho imediato e impede a busca de consensos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando analisamos <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/transicao-energetica-em-tempos-de-obscuridade-climatica\/\">as propostas ambientais do novo governo argentino<\/a>, percebemos o quanto nossos l\u00edderes est\u00e3o distantes das discuss\u00f5es que est\u00e3o ocorrendo no mundo. A agenda de Davos est\u00e1 contaminada pelo socialismo, tal \u00e9 o pensamento do representante m\u00e1ximo da Argentina: a extrema direita no poder. Mas essa demanda n\u00e3o surge no v\u00e1cuo, ela representa o pensamento das principais entidades empresariais do pa\u00eds, exigindo a revoga\u00e7\u00e3o (geleiras, florestas) ou o bloqueio da aprova\u00e7\u00e3o de leis (zonas \u00famidas). O obscurantismo do governo se alia ao imediatismo do &#8220;c\u00edrculo vermelho&#8221;, uma nova alian\u00e7a que ignora o momento cr\u00edtico pelo qual a sociedade est\u00e1 passando atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resili\u00eancia na tomada de decis\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A resili\u00eancia garante o enfrentamento de eventos imprevistos, que surgem em qualquer sociedade complexa: enfrentar os riscos impostos pelo futuro. Resistir a turbul\u00eancias profundas, sobreviver a choques e garantir a continuidade de suas fun\u00e7\u00f5es mais b\u00e1sicas tem sido revelado e reafirmado como fundamental. Esses choques geram dist\u00farbios, desastres naturais com consequ\u00eancias para a vida humana e para a economia. Qualquer que seja o desastre, ele afeta os <em>stocks<\/em> (perdas de ativos) e os fluxos (redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o). A resili\u00eancia tamb\u00e9m implica o reconhecimento dos limites do planeta, o que explica a necessidade de proteger as geleiras ou preservar as florestas nativas.<\/p>\n\n\n\n<p>O investimento em resili\u00eancia imp\u00f5e custos no curto prazo, o que compromete os (imediatos) ganhos. No entanto, em m\u00e9dio prazo, os benef\u00edcios de tais investimentos superam em muito os custos. Essa \u00e9 a conclus\u00e3o destacada em um <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/publications\/building-a-resilient-tomorrow-concrete-actions-for-global-leaders\/\">relat\u00f3rio da empresa de consultoria McKinsey para o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Global<\/a>, que analisa experi\u00eancias p\u00fablicas e privadas. Para alguns, assim como para outros, considerar aspectos de resili\u00eancia envolve pesar o longo prazo ao tomar decis\u00f5es. Essas considera\u00e7\u00f5es, no entanto, costumam ser negligenciadas nas economias emergentes porque essa inclus\u00e3o pressiona as finan\u00e7as p\u00fablicas: implica maior endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resili\u00eancia e contrato e social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A grande diversidade que evidencia toda sociedade implica que, diante de um desastre natural, certos grupos ser\u00e3o mais afetados do que outros. Isso n\u00e3o significa que os cidad\u00e3os estejam indefesos diante de situa\u00e7\u00f5es extremas como as discutidas aqui, pelo menos n\u00e3o necessariamente. As sociedades com sistemas de prote\u00e7\u00e3o social est\u00e3o mais bem preparadas para lidar com uma crise do que aquelas que n\u00e3o os t\u00eam. Toda rede de seguran\u00e7a tende a proteger os mais vulner\u00e1veis; ela \u00e9 entendida como um mecanismo de compartilhamento de riscos. Assim, a ideia de resili\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 ligada apenas ao conceito de robustez e adapta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e0 capacidade de transforma\u00e7\u00e3o. Em um mundo marcado por eventos extremos, a resili\u00eancia institucional torna-se fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a import\u00e2ncia da busca de consensos e a constru\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es: a preven\u00e7\u00e3o ajuda a enfrentar os mais diversos riscos e reduz a incerteza. Se as regras n\u00e3o forem impostas, mas consensuais e sujeitas a mudan\u00e7as, \u00e9 mais prov\u00e1vel que o sistema seja mais robusto. O relat\u00f3rio mencionado anteriormente destaca o risco de aumento da polariza\u00e7\u00e3o e seu poss\u00edvel impacto no decl\u00ednio econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos olhar para o futuro, mas n\u00e3o mais com as cortinas do passado e o olhar estreito do presente. Um sistema resiliente n\u00e3o \u00e9 aquele que volta ao normal ap\u00f3s um choque, mas aquele que pode antecipar, absorver, recuperar e adaptar-se a um conjunto diversificado de amea\u00e7as sist\u00eamicas. Ao enfrentar a incerteza que o futuro nos reserva, os desafios s\u00e3o muitos, mas isso ajuda a entender a sociedade atual, na qual convivem diferentes interesses, valores e vis\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema da resili\u00eancia est\u00e1 associado a quest\u00f5es como o estabelecimento de regras flex\u00edveis o suficiente para responder \u00e0 incerteza e \u00e0s mudan\u00e7as inesperadas, mas ao mesmo tempo dur\u00e1veis, no sentido de recriar um ambiente de credibilidade institucional em que as pessoas possam confiar. Isso aumenta a import\u00e2ncia do <strong>contrato social<\/strong>, entendido como um mecanismo reconhecido por diferentes setores da sociedade para lidar com os desafios e riscos que enfrentam. Esse contrato ser\u00e1 resiliente se puder impor limites \u00e0 propaga\u00e7\u00e3o de externalidades negativas de alguns sobre outros, mas tamb\u00e9m assegurar a sociedade contra riscos externos. Dessa forma, as normas sociais enfatizam um senso de pertencimento e proporcionam um sentimento de comunidade. Essa identidade \u00e9 fundamental, algo cr\u00edtico para manter a coes\u00e3o de uma sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso contr\u00e1rio, se continuarmos ultrapassando os limites do planeta, se os &#8220;pontos de inflex\u00e3o&#8221; forem atingidos, a adapta\u00e7\u00e3o poder\u00e1 n\u00e3o ser suficiente. Da resili\u00eancia passamos ao desastre. E, \u00e0 medida que nos aproximamos do ponto de inflex\u00e3o (tamb\u00e9m associado \u00e0 ideia de &#8220;ponto sem retorno&#8221;), quanto mais pr\u00f3ximo o desastre for percebido, maior ser\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de &#8220;cada um por si&#8221; que reina em vastos setores da sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um contexto marcado por m\u00faltiplas crises, muitas vezes interrelacionadas, no qual predomina a incerteza radical frente a condi\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias, a ideia de resili\u00eancia adquire protagonismo e a primazia da efici\u00eancia induz decis\u00f5es err\u00f4neas. <\/p>\n","protected":false},"author":213,"featured_media":37053,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16716],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-37068","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37068","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/213"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37068"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37068\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37053"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37068"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37068"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37068"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=37068"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}