{"id":37114,"date":"2024-01-24T07:00:00","date_gmt":"2024-01-24T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=37114"},"modified":"2024-01-23T13:28:21","modified_gmt":"2024-01-23T16:28:21","slug":"o-que-e-entao-ser-de-esquerda-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-entao-ser-de-esquerda-hoje\/","title":{"rendered":"O que \u00e9, ent\u00e3o, ser de esquerda hoje?"},"content":{"rendered":"\n<p>A pergunta do t\u00edtulo vem \u00e0 mente porque autores acad\u00eamicos e colunistas da m\u00eddia seguem utilizando a etiqueta \u201cesquerda\u201d como se caracterizasse uma orienta\u00e7\u00e3o definida. Segundo esse uso bastante difundido, tratando-se da Am\u00e9rica Latina de hoje, classifica-se como \u201cgovernos de esquerda\u201d os encabe\u00e7ados por L\u00f3pez Obrador no M\u00e9xico, Gustavo Petro na Col\u00f4mbia, Lula da Silva no Brasil, Luis Arce na Bol\u00edvia e Gabriel Boric no Chile. Nesse mesmo saco foram colocados o peruano Pedro Castillo e a argentina Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura da lista gera algumas interroga\u00e7\u00f5es: o que esses personagens e seus governos t\u00eam em comum para serem colocados na mesma categoria? Uma ret\u00f3rica anti-imperialista? Talvez uma tend\u00eancia a dar um papel central ao Estado como o principal ator econ\u00f4mico, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 livre iniciativa e ao livre mercado? Se, deixando o discurso de lado, examinarmos a atua\u00e7\u00e3o desses governos, veremos rapidamente que nem todos compartilham esses elementos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se estamos, como parece ser, diante de uma diversidade dificilmente agrup\u00e1vel, que capacidade explicativa a palavra <em>esquerda<\/em> tem para justificar seu uso? Ou seja, de que serve chamar \u201cde esquerda\u201d um governo ou determinado personagem? E o que \u00e9 exatamente <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/direita-ou-esquerda-qual-e-a-diferenca\/\">ser esquerdista hoje?<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma denomina\u00e7\u00e3o que perdeu significado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na origem do termo \u201cesquerda\u201d est\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o dos revolucion\u00e1rios nos assentos da primeira assembleia nacional da Fran\u00e7a, que em agosto de 1789 ganharam a vota\u00e7\u00e3o para limitar o poder do rei. Desde ent\u00e3o, as for\u00e7as opostas \u00e0 ordem tradicional s\u00e3o conhecidas como esquerda. Talvez os que causaram maior repercuss\u00e3o hist\u00f3rica foram aqueles que, em 1917, acabaram com o czarismo na R\u00fassia. Mas, no caminho at\u00e9 os dias de hoje, a experi\u00eancia com Stalin na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com Pol Pot no Camboja, com Kim Il-Sung na Coreia do Norte ou, mais de perto, com os Castros em Cuba, com Ortega na Nicar\u00e1gua ou com Ch\u00e1vez-Maduro na Venezuela apontou para algo diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A linha autorit\u00e1ria da \u201cesquerda\u201d teve antecedentes entre os revolucion\u00e1rios franceses. Mas foi L\u00eanin quem deu consist\u00eancia \u00e0 tend\u00eancia ao incorporar a no\u00e7\u00e3o de \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d, uma esp\u00e9cie de contradi\u00e7\u00e3o em termos que se mostrou \u00fatil para esmagar os advers\u00e1rios que surgiram dentro das filas. O camarada Stalin, primeiro, e Pol Pot, mais recentemente, levaram a tend\u00eancia a n\u00edveis singularmente sangrentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo sem chegar a esses excessos terr\u00edveis, hoje bastante documentados, \u201ca esquerda\u201d construiu partidos que, usando toda a roupagem e adotando todos os s\u00edmbolos que poderiam ser considerados \u201crevolucion\u00e1rios\u201d, giravam em torno de um l\u00edder iluminado: Mao, os Kims e Fidel. Alguns conseguiram constituir linhagens que, como na Coreia, se perpetuaram passando o poder de uma gera\u00e7\u00e3o para a outra.<\/p>\n\n\n\n<p>As diferentes constru\u00e7\u00f5es sociais levantadas em nome do socialismo nos revelaram, ao longo dos anos, os presos e mortos, o que poderia ser feito sob as bandeiras da esquerda. A \u201cditadura do proletariado\u201d mostrou que era ditadura e que tinha pouco do proletariado de carne e osso.<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos seguir chamando de \u201cesquerda\u201d essas constru\u00e7\u00f5es degenerativas que congelaram certos grupos no poder, s\u00f3 porque mantiveram uma linguagem que soa revolucion\u00e1ria enquanto reprimiam seus opositores?<\/p>\n\n\n\n<p>No final, esses regimes autorit\u00e1rios se autoproclamaram como \u201csocialismo realmente existente\u201d, para descr\u00e9dito da tradi\u00e7\u00e3o socialista pela qual tantos se sacrificaram e inclusive deram suas vidas. Assim, a ideologia de \u201cesquerda\u201d foi convertida em um instrumento de combate para defender regimes pol\u00edticos indefens\u00e1veis, nos quais, como George Orwell ironizou h\u00e1 80 anos em <em>A revolu\u00e7\u00e3o dos bichos<\/em>, enquanto proclamava a igualdade, \u201cuns animais eram mais iguais do que outros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de nossos partidos pol\u00edticos considerados de esquerda reproduziu esse curso. As sucessivas divis\u00f5es internas corresponderam mais a lutas de dirigentes ambiciosos do que a distintas defini\u00e7\u00f5es de linhas de a\u00e7\u00e3o e eixos program\u00e1ticos. A autocr\u00edtica foi usada uma ou outra vez para acusar o outro, n\u00e3o para revisar e corrigir os pr\u00f3prios erros. Expuls\u00f5es de dissidentes e \u201crefunda\u00e7\u00f5es\u201d de setores dissidentes continuam a povoar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>De volta ao in\u00edcio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Talvez seja hora de perguntar-se para onde foi o inconformismo da esquerda com a ordem \u2013 a velha e a nova \u2013 e sua capacidade de contesta\u00e7\u00e3o. E onde est\u00e1 sua proposta de uma sociedade verdadeiramente distinta da ordem injusta que tent\u00e1vamos deixar para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra prova adicional da perda do norte da esquerda est\u00e1 nos diversos movimentos de contesta\u00e7\u00e3o que atualmente n\u00e3o vestem essa camisa. De fato, os feminismos, os ativistas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, os movimentos LGTBI e outras mobiliza\u00e7\u00f5es que pedem mudan\u00e7as profundas na ordem existente n\u00e3o se amparam nas bandeiras um tanto desbotadas da esquerda. Muitos de seus ativistas podem votar na esquerda, mas suas lutas n\u00e3o est\u00e3o organicamente inscritas na esquerda porque a esquerda foi despojada de sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mundo sem esperan\u00e7a por tantas raz\u00f5es, faz falta a ilus\u00e3o de uma realidade diferente a ser constru\u00edda por nossos esfor\u00e7os. Que nos permita sair do consumismo cotidiano e do t\u00e9dio laboral para poder pagar-lo. Poderemos voltar a construir sujeitos coletivos que assumam um projeto, respeitando as diversidades e as diferen\u00e7as?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1 algo que substitua o que a esquerda p\u00f4de e o que comprovamos que n\u00e3o \u00e9? Se houver, poderemos integrar em um vasto projeto comum as lutas que cada um trava agora em seu pr\u00f3prio setor, como n\u00e1ufragos em sua pr\u00f3pria balsa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os governos de L\u00f3pez Obrador, Gustavo Petro, Lula, Luis Arce e Gabriel Boric s\u00e3o considerados de esquerda. Mas eles realmente tem algo em comum?<\/p>\n","protected":false},"author":54,"featured_media":37096,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,17058,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-37114","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-ideologias-es-pt-br","9":"category-politica-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/54"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37114\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37114"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=37114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}