{"id":375,"date":"2019-01-02T14:10:06","date_gmt":"2019-01-02T17:10:06","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=375"},"modified":"2022-12-14T19:55:51","modified_gmt":"2022-12-14T22:55:51","slug":"deixem-de-ferrar-o-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/deixem-de-ferrar-o-povo\/","title":{"rendered":"Deixem de ferrar o povo"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Deixem de ferrar o povo&#8221;: foi esse o t\u00edtulo que An\u00edbal Ford escolheu para um forte artigo que publicou na alvorada da democracia argentina, indignado com aqueles que sustentavam que as grandes maiorias haviam fechado os olhos \u00e0 repress\u00e3o e terrorismo de Estado e tinham alguma responsabilidade, por seu apoio maci\u00e7o \u00e0 aventura das Malvinas em 1982. Eu n\u00e3o estava de acordo com ele; timidamente \u2013porque, afinal, An\u00edbal Ford era An\u00edbal Ford\u2013, argumentei que, de qualquer modo, era um tema que deveria ser discutido, que dever\u00edamos indagar sobre todas as responsabilidades sociais, incluindo as dos setores populares, por aquela trag\u00e9dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Oscar Landi, menos t\u00edmido e mais risonho do que eu, tampouco concordava com An\u00edbal. Embora compreend\u00eassemos a indigna\u00e7\u00e3o de Ford ante os oportunistas e aproveitadores intelectuais de toda laia, nos parecia que o tema das responsabilidades n\u00e3o podia passar sem discuss\u00e3o. Trinta e cinco anos mais tarde, \u00e9 curioso. Dizemos crer na democracia, mas \u00e0s vezes buscamos extrair os pensamentos das <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/uma-geracao-de-argentinos-com-incerteza-instabilidade-e-medo-do-futuro\/\">pessoas<\/a> com instrumentos que mais parecem os da tortura. Ou que reproduzem o senso comum, sobretudo a forma habitualmente tosca com que o senso comum pode se manifestar na espontaneidade da bronca, da frustra\u00e7\u00e3o, da c\u00f3lera, como se aquilo fosse o que as pessoas &#8220;realmente&#8221; sentem ou pensam. <\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 manipula\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 produzir uma suposta prefer\u00eancia\nsocial com base em impulsos prim\u00e1rios, em lugar de dar lugar \u00e0 pol\u00edtica da\npalavra, do argumento, da reflex\u00e3o, que nunca s\u00e3o espont\u00e2neos, nem est\u00e3o ao\nalcance da m\u00e3o, e nem se expressam de modo direto ou imediato. Precisam da\nmedia\u00e7\u00e3o, da pondera\u00e7\u00e3o, do refino, do di\u00e1logo. Da boa pol\u00edtica, em uma\npalavra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Produzir uma pol\u00edtica sustentada por essa fabrica\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias baseadas em impulsos prim\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica democr\u00e1tica, e nada tem de promissor em termos de resultados em longo prazo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m pode negar ter escutado o &#8220;esse a\u00ed merece uns tiros&#8221;, o &#8220;tem que matar todos eles&#8221;, ou talvez ter testemunhado as rea\u00e7\u00f5es espontaneamente selvagens de transeuntes indignados com um ladr\u00e3o apanhado em flagrante. Dizer que tudo isso expressa prefer\u00eancias pol\u00edticas ou de pol\u00edtica p\u00fablica quanto a quest\u00f5es de <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-37619071\">seguran\u00e7a<\/a> e de direitos humanos \u00e9 insensato. Querer extrair de uma s\u00f3 pergunta, formulada a queima-roupa, um &#8220;n\u00edvel de acordo&#8221; qualquer quanto a um fato traum\u00e1tico ou uma pol\u00edtica mais ampla carece de sentido. Na verdade, isso \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do que a pol\u00edtica deve ser. Produzir uma pol\u00edtica sustentada por essa fabrica\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias baseadas em impulsos prim\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 uma pol\u00edtica democr\u00e1tica, e nada tem de promissor em termos de resultados em longo prazo. Sem pensar, todos ficam bem perto de responder a seus piores impulsos prim\u00e1rios, porque o problema do &#8220;mal-estar na cultura&#8221;, magistralmente identificado por Freud, afeta a todos n\u00f3s. Porque entre &#8220;tenho vontade de matar esse cara&#8221;, que usamos apenas como express\u00e3o, e matar por lei ou tolerar a morte alheia por obra de agentes p\u00fablicos vai um oceano de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Os impulsos prim\u00e1rios das pessoas, populares ou n\u00e3o, s\u00e3o de fato espantosos. Fugir, agredir, deixar-nos levar pela ira ou indigna\u00e7\u00e3o, sentir alegria maldosa por inveja ou ressentimento, zombar impiedosamente do time que est\u00e1 sendo goleado por nossa equipe, humilhar, s\u00e3o caracter\u00edsticas pr\u00f3prias do ser humano. Muitas delas, exclusivas; e outras, e n\u00e3o s\u00e3o poucas, pr\u00f3ximas das caracter\u00edsticas dos animais. O lobo de Rub\u00e9n Dar\u00edo o sabia muito bem; por isso pedia a Francisco de Assis que tomasse cuidado com ele: &#8220;Irm\u00e3o Francisco, n\u00e3o se aproxime demais&#8221;. A sabedoria b\u00edblica ensina que pe\u00e7amos a Deus que n\u00e3o nos deixe cair em tenta\u00e7\u00e3o. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um primeiro impulso, e nada tenho contra ela, mas quem n\u00e3o deseje incorrer em tenta\u00e7\u00e3o precisa elaborar o que sente, refletir sobre o que se passa; \u00e9 para isso que serve a pol\u00edtica, n\u00e3o para se orientar ou justificar nas pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que aqueles que sofrem diretamente as piores condi\u00e7\u00f5es\nde vida, inseguran\u00e7a, priva\u00e7\u00f5es, nada h\u00e1 de raro em que lhes falte a temperan\u00e7a\ne a modera\u00e7\u00e3o que caracterizam os que vivem em condi\u00e7\u00f5es muito melhores. Mas\nnem mesmo isso \u00e9 t\u00e3o seguro; muitos dos que vivem de modo privilegiado pedem\ngatilho r\u00e1pido, enquanto muitos pobres n\u00e3o o fazem.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, se querem, no governo ou fora dele, linha dura com\nqualquer delinquente, suposto ou verdadeiro; linha branda e mimos ao aparato de\nseguran\u00e7a que continua p\u00e9ssimo, e maltrata e at\u00e9 tortura; se n\u00e3o querem colocar\nseriamente na linha o sistema de repress\u00e3o estatal \u2013que deveria deixar de\noperar com serrotes e aprender a operar com bisturis\u2013; se desejam empurrar o\np\u00eandulo do ponto extremo de abolicionismo insensato que Zaffaroni simboliza e\nconduzi-lo a outro ponto extremo, punitivo, brutal e indiscriminado, eu lhes\npediria com todo o respeito que deixem de ferrar o povo; que n\u00e3o atribuam a ele\nsuas prefer\u00eancias, que n\u00e3o as atribuam ao senso comum popular, nem a supostas\nades\u00f5es populares ao &#8220;mete bala&#8221;, pena de morte ou qualquer dessas\ncoisas. Que n\u00e3o manipulem as pessoas perversamente. N\u00e3o se metam com as\npessoas, assumam suas responsabilidades. Parem de ferrar o povo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi esse o t\u00edtulo que An\u00edbal Ford escolheu para um artigo que publicou na alvorada da democracia argentina, indignado com aqueles que sustentavam que as grandes maiorias haviam fechado os olhos \u00e0 repress\u00e3o e tinham alguma responsabilidade, por seu apoio maci\u00e7o \u00e0 aventura das Malvinas.<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":373,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-375","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=375"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/375\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=375"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=375"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=375"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=375"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}