{"id":37726,"date":"2024-02-11T07:00:00","date_gmt":"2024-02-11T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=37726"},"modified":"2024-02-10T02:47:32","modified_gmt":"2024-02-10T05:47:32","slug":"quando-a-polarizacao-politica-chega-ao-bolso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quando-a-polarizacao-politica-chega-ao-bolso\/","title":{"rendered":"Quando a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica chega ao bolso"},"content":{"rendered":"\n<p>Na semana em que Mauricio Macri, ex-presidente da Argentina, assumiu o poder, a fac\u00e7\u00e3o mais intransigente do partido cessante, o kirchnerismo, circulou um \u201cmanual de micromilit\u00e2ncia K\u201d para instruir seus ac\u00f3litos sobre como resistir ao governo entrante. Das v\u00e1rias t\u00e9cnicas de resist\u00eancia ali descritas, sobressaiam as que usavam o consumo e a elei\u00e7\u00e3o privada em \u00e2mbitos de natureza habitualmente neutros, como o mercado, para minar a legitimidade e os recursos governistas e seus apoiadores. Entre as iniciativas listadas figuravam intervir com desenhos e frases ou rasgar os jornais que normalmente eram encontrados nos bares de Buenos Aires, realizar <em>actings <\/em>ou simula\u00e7\u00f5es de protestos ou <em>performances<\/em> teatrais de conscientiza\u00e7\u00e3o em supermercados, boicotar empresas de donos apoiadores do novo governo ou \u2013 ao contr\u00e1rio \u2013 comprar produtos alinhados ao kirchnerismo, como o jornal <em>P\u00e1gina12<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A arena privada e de consumo que o pr\u00f3prio kirchnerismo e seus aliados de esquerda associavam n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 apatia, mas tamb\u00e9m \u00e0 aliena\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o pelo interesse p\u00fablico e pela pol\u00edtica, foi subitamente projetada como uma nova e entusiasmada trincheira.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa inesperada extens\u00e3o do conflito partid\u00e1rio ao mundo dos bens de consumo, produtos e servi\u00e7os n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio dos populismos de centro-esquerda. A extrema direita brasileira, por exemplo, n\u00e3o perdeu a oportunidade e mobilizou simpatizantes e militantes para beneficiar empresas cujos propriet\u00e1rios apoiavam publicamente o bolsonarismo. A ordem do dia era comer hamb\u00fargueres nos restaurantes da rede Madero ou camar\u00e3o nos do <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/blogs\/cozinha-bruta\/2022\/05\/vai-ter-camarao-do-coco-bambu-no-golpe-de-bolsonaro.shtml\">Coco Bambu<\/a>, comprar roupas e tecidos nas <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2024\/01\/justica-condena-hang-a-pagar-r-85-milhoes-por-assedio-durante-campanha-eleitoral.shtml\">lojas Havan<\/a>, decorar a casa com m\u00f3veis Sierra Moveis e passear no <em>shopping<\/em> Barra World, no Rio. De fato, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2022\/08\/veja-quem-sao-os-oito-empresarios-bolsonaristas-alvo-de-operacao-da-pf.shtml\">os donos dessas empresas<\/a> excederam a express\u00e3o de simpatias individuais a ponto de chegarem a ser investigados pela Pol\u00edcia Federal por <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2023\/10\/bolsonaro-presta-depoimento-a-pf-em-caso-dos-empresarios-que-defenderam-golpe.shtml\">conspirar e apoiar uma tentativa de golpe de Estado<\/a> cujo benefici\u00e1rio seria o ex-presidente, hoje impedido de concorrer ao cargo, Jair Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Da rua da frente, lulistas e simpatizantes de op\u00e7\u00f5es progressistas evitavam ritmos musicais considerados bolsonaristas, como sertanejo e pagode, associados a grupos de direita, como o agroneg\u00f3cio, o sindicato de caminhoneiros e mil\u00edcias controladoras de favelas fortemente infiltradas por for\u00e7as policiais e de seguran\u00e7a. Os direitistas fizeram o mesmo, por exemplo, com artistas de teatro e m\u00fasicos que defendiam posturas democr\u00e1ticas contr\u00e1rias ao autoritarismo promovido pelo Estado no interregno 2018-2022. Essa politiza\u00e7\u00e3o de \u00e2mbitos privados afetou at\u00e9 mesmo certas marcas de chocolates propagandeadas por <em>influenciers<\/em> cr\u00edticos de Bolsonaro, como <a href=\"https:\/\/f5.folha.uol.com.br\/celebridades\/2023\/10\/garoto-propaganda-de-chocolate-felipe-neto-e-atacado-por-bolsonaristas-que-promovem-boicote.shtml\">Felipe Neto<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos posteriores \u00e0 campanha eleitoral de 2022 sobre as distintas <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/narrativa-populista-polarizacao-e-fadiga-da-democracia\/\">express\u00f5es da polariza\u00e7\u00e3o afetiva<\/a> que dividiu os brasileiros revelam que ao menos 20% dos cidad\u00e3os (um em cada cinco) n\u00e3o estavam dispostos a comprar produtos ou marcas que favorecessem um candidato contr\u00e1rio aos seus desejos. Os cientistas pol\u00edticos Felipe Nunes e Thomas Trauman rotulam essa invas\u00e3o da mesa, arm\u00e1rio e lar dos brasileiros por crit\u00e9rios partid\u00e1rios de \u201ccalcifica\u00e7\u00e3o\u201d da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, uma express\u00e3o ineg\u00e1vel de que os antagonismos partid\u00e1rios saltaram ao n\u00edvel dos sentimentos e do cotidiano. Na literatura da ci\u00eancia pol\u00edtica, faz tempo que esse fen\u00f4meno \u00e9 conhecido como \u201cconsumo pol\u00edtico\u201d, uma pr\u00e1tica executada h\u00e1 d\u00e9cadas at\u00e9 mesmo na Am\u00e9rica Latina. Vale recordar os protestos nos port\u00f5es dos bancos argentinos no per\u00edodo posterior ao corralito de 2001-2002, os discursos contra o abastecimento de gasolina nos postos Shell e Esso pelo ex-presidente Kirchner em meados dos anos 2000, o exerc\u00edcio do poder individual em supermercados para denunciar aumentos inflacion\u00e1rios de pre\u00e7os al\u00e9m dos acordos por parte daqueles do governo central brasileiro que foram chamados de fiscais de Sarney (pelo ex-presidente na segunda metade da d\u00e9cada de 1980), ou as campanhas na internet e nas portas das lojas Zara no Brasil no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010 pelo uso de trabalho escravo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa propor\u00e7\u00e3o de politiza\u00e7\u00e3o das esferas do cotidiano por um quinto da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 alinhado com o que pesquisas anteriores no Brasil e em outros pa\u00edses da regi\u00e3o revelam sobre as faces do chamado \u201cconsumo pol\u00edtico\u201d, ou seja, o uso do poder de compra do consumidor para perseguir objetivos pol\u00edticos ou \u00e9ticos. Essa pr\u00e1tica objetiva cidadanizar ou politizar as rela\u00e7\u00f5es com empresas e organiza\u00e7\u00f5es, com a inten\u00e7\u00e3o de influenci\u00e1-las a seguir valores e defender pol\u00edticas favor\u00e1veis ao modelo de sociedade desejado.<\/p>\n\n\n\n<p>Pesquisas realizadas pela consultora Market Analysis revelam que, j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, um n\u00famero significativo de brasileiros premiava empresas ou marcas por seu comportamento social, ambiental ou \u00e9tico. Em 2000, eram 26%. Esse percentual diminuiu durante o auge econ\u00f4mico do pa\u00eds sob o governo do PT para entre 12% e 22%. E \u00e0 medida que o pa\u00eds foi se polarizando partidariamente, mas tamb\u00e9m sua economia foi piorando, essa ferramenta de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica por outros meios voltou a disparar, chegando a 29% antes da pandemia. No in\u00edcio de 2024, a porcentagem chegou a pouco mais de 32%, ou seja: um em cada tr\u00eas brasileiros recompensou (nos doze meses anteriores) uma empresa ou marca por suas posturas pol\u00edticas ou socioambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas formas de premiar incluem comprar produtos, falar bem de marcas e empresas e recomend\u00e1-las a terceiros. Mas o consumo pol\u00edtico tamb\u00e9m passa por castigar esses agentes quando mant\u00eam condutas percebidas como indesej\u00e1veis. Esse boicote adota diferentes formas: deixar de comprar, falar mal de marcas, associ\u00e1-las a eventos negativos e inclusive disseminar informa\u00e7\u00e3o \u2013 independentemente de serem confi\u00e1veis ou n\u00e3o \u2013 para prejudicar sua reputa\u00e7\u00e3o e imagem p\u00fablica. Os brasileiros come\u00e7aram o s\u00e9culo com 19% dos cidad\u00e3os abra\u00e7ando essas a\u00e7\u00f5es. Esse percentual caiu nos anos seguintes, mas \u2013 tal como ocorreu com o consumo pol\u00edtico de premia\u00e7\u00e3o \u2013 a crise econ\u00f4mica e a polariza\u00e7\u00e3o afetiva provocaram seu crescimento, recuperando o terreno perdido. Em 2019, quase 24% reconheceram ter boicotado uma empresa. Um ano depois, essa porcentagem era menor: quase 19%, o que ainda era o dobro da porcentagem m\u00e9dia dos anos anteriores. No in\u00edcio de 2024, 22% puniram uma empresa ou marca (nos doze meses anteriores) em fun\u00e7\u00e3o de seus valores, a\u00e7\u00f5es ou omiss\u00f5es com repercuss\u00f5es consideradas negativas para a sociedade, na \u00e9tica p\u00fablica ou no meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Argentina, ap\u00f3s a brutal crise de 2001, 43% dos adultos em \u00e1reas urbanas boicotaram marcas, produtos ou empresas, embora dez anos depois \u2013 passado o auge da frustra\u00e7\u00e3o contra pr\u00e1ticas prejudiciais ao interesse p\u00fablico e sem mobiliza\u00e7\u00e3o da c\u00fapula do poder contra qualquer organiza\u00e7\u00e3o em particular \u2013 esse percentual tenha diminu\u00eddo para 10%. Os mexicanos tamb\u00e9m come\u00e7aram o novo s\u00e9culo dispostos a respingar suas rela\u00e7\u00f5es de mercado e cotidiano com a pol\u00edtica: 28% exerciam o consumo pol\u00edtico punitivo em 2001. Quase dez anos depois, essa porcentagem diminuiu um pouco para 21%.<\/p>\n\n\n\n<p>As fronteiras entre o que \u00e9 politiz\u00e1vel e o que permanece neutro aos antagonismos partid\u00e1rios foram borrados ou s\u00e3o cada vez mais t\u00eanues. E isso n\u00e3o deveria surpreender em momentos em que a polariza\u00e7\u00e3o contamina as rela\u00e7\u00f5es familiares, separa amizades e condiciona v\u00ednculos amorosos ou \u00edntimos. Se as simpatias ou antipatias partid\u00e1rias regulam os afetos e endurecem vis\u00f5es de mundo, os modelos de sociedade e os progn\u00f3sticos sobre o futuro de modo t\u00e3o opostas, n\u00e3o \u00e9 surpresa que cada aspecto da vida se torne uma trincheira. \u00c9 assim que a polariza\u00e7\u00e3o afetiva molda nosso cotidiano e \u2013 naturalmente \u2013 nossa comida, sala de estar, vestu\u00e1rio e entretenimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se as simpatias ou antipatias partid\u00e1rias regulam os afetos e endurecem vis\u00f5es de mundo, modelos de sociedade e progn\u00f3sticos sobre o futuro de modo t\u00e3o oposto, n\u00e3o deveria ser surpresa que cada aspecto da vida se transforme em uma trincheira.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":37759,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16797,16750],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-37726","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-polarizacion-pt-br","9":"category-economia-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37726","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37726"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37726\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37759"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37726"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=37726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}