{"id":37826,"date":"2024-02-13T07:00:00","date_gmt":"2024-02-13T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=37826"},"modified":"2024-02-12T16:16:01","modified_gmt":"2024-02-12T19:16:01","slug":"america-latina-a-politica-economica-em-um-contexto-de-disputa-de-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-a-politica-economica-em-um-contexto-de-disputa-de-poder\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: a pol\u00edtica econ\u00f4mica em um contexto de disputa de poder"},"content":{"rendered":"\n<p>Em janeiro de 2023, as cinco maiores economias da Am\u00e9rica Latina tinham governos que se reconheciam como progressistas ou de esquerda. Em v\u00e1rios desses pa\u00edses, os governos de esquerda foram o resultado recente de um longo per\u00edodo em que foram implementados a agenda do Consenso de Washington e um projeto de transforma\u00e7\u00e3o da economia e da sociedade definido como neoliberalismo. No Brasil, apenas em 1\u00ba de janeiro Luiz In\u00e1cio Lula da Silva tomou posse como presidente, deixando para tr\u00e1s quatro anos de governo de Jair Bolsonaro, que foi amplamente qualificado como de ultradireita. Na Col\u00f4mbia, a continuidade dos governos que realizaram as chamadas reformas estruturais n\u00e3o foi afetada, apesar da persist\u00eancia de conflitos pol\u00edtico-militares. No M\u00e9xico, a aplica\u00e7\u00e3o do ajuste estrutural e de todo o programa de reformas realizado no \u00e2mbito do Consenso de Washington come\u00e7ou no final da d\u00e9cada de 1980 e continuar\u00e1 at\u00e9 o final do governo de Enrique Pe\u00f1a Nieto, em dezembro de 2018. Em v\u00e1rios desses pa\u00edses, as crises banc\u00e1rias, do mercado de a\u00e7\u00f5es e cambiais assumiram uma dimens\u00e3o internacional. A recorr\u00eancia desses processos \u00e9 uma caracter\u00edstica da execu\u00e7\u00e3o de reformas estruturais, que s\u00e3o acompanhadas por recess\u00f5es econ\u00f4micas de diversas propor\u00e7\u00f5es e pela manuten\u00e7\u00e3o de uma consider\u00e1vel desigualdade social.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto de cont\u00ednuas crises financeiras e not\u00e1vel desigualdade social n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo para que o mapa da regi\u00e3o sofra mudan\u00e7as em poucos meses que reflitam a cont\u00ednua disputa pelo poder que se abriu com a emerg\u00eancia de governos progressistas nos \u00faltimos anos. Na Argentina, em dezembro de 2023, inicia-se um governo que, desde o primeiro dia, realiza um programa econ\u00f4mico de ajuste radical. Ele sustenta que todos os problemas da economia se devem ao d\u00e9ficit fiscal e que a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 implementar o que ele denomina de plano de estabiliza\u00e7\u00e3o de <em>shock<\/em>, que compreende uma pol\u00edtica monet\u00e1ria, fiscal e cambial que assume a forma do decreto intitulado <a href=\"https:\/\/www.boletinoficial.gob.ar\/web\/utils\/pdfView?file=%2Fpdf%2Faviso%2Fprimera%2F301122%2F20231221\"><em>Bases para a reconstru\u00e7\u00e3o da economia argentina<\/em><\/a>, que ele est\u00e1 tentando impor com base na figura da Necessidade e da Urg\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, houve um protesto social generalizado contra as medidas do governo de Javier Milei, e o uso da for\u00e7a para enfrent\u00e1-lo est\u00e1 se multiplicando. Entre as medidas que est\u00e1 tentando estabelecer, ele est\u00e1 preparando um decreto para permitir a interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas na seguran\u00e7a interna sob o pretexto de enfrentar agress\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es terroristas. No campo da pol\u00edtica econ\u00f4mica, o governo argentino tem <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/es\/News\/Articles\/2023\/12\/12\/pr23441-imf-spokesperson-statement-on-argentina\">o apoio do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI)<\/a>, que declarou por meio de seu porta-voz: &#8220;A equipe do FMI respalda as medidas anunciadas hoje [12 de dezembro de 2023] pelo novo ministro da Fazenda da Argentina, Luis Caputo. Essas fortes a\u00e7\u00f5es iniciais visam melhorar significativamente as finan\u00e7as p\u00fablicas de uma forma que proteja os mais vulner\u00e1veis da sociedade e fortale\u00e7a o regime cambial&#8221;. Mais recentemente, o conselho executivo do FMI aprovou o desembolso de US$4,7 bilh\u00f5es para apoiar os esfor\u00e7os do governo de Milei para restaurar a estabilidade macroecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, esses t\u00eam sido os termos de refer\u00eancia constantes do FMI para qualificar as a\u00e7\u00f5es tomadas pelos governos da regi\u00e3o na aplica\u00e7\u00e3o das medidas contidas nos programas de ajuste estrutural e para explicar suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Outras organiza\u00e7\u00f5es financeiras e econ\u00f4micas multilaterais, como o Banco Mundial, a OCDE e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, tamb\u00e9m utilizam considera\u00e7\u00f5es semelhantes para se relacionar com os pa\u00edses da regi\u00e3o, defendendo esse tipo de propostas, argumentando que elas s\u00e3o necess\u00e1rias para promover o crescimento econ\u00f4mico. As propostas de pol\u00edtica econ\u00f4mica e as medidas implementadas para garantir sua realiza\u00e7\u00e3o defendidas por essas organiza\u00e7\u00f5es fazem parte de uma disputa que est\u00e1 presente em toda a regi\u00e3o e que, em graus variados, se materializa na atividade pol\u00edtica e molda o conte\u00fado da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Sua a\u00e7\u00e3o se soma \u00e0 de outros atores sociais que defendem o mesmo projeto em cada um dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Uma de suas consequ\u00eancias \u00e9 que, at\u00e9 o momento, o crescimento econ\u00f4mico sustentado n\u00e3o foi alcan\u00e7ado, mas tem sido um fator que gera dificuldades na implementa\u00e7\u00e3o das propostas de mudan\u00e7a apresentadas pelos governos progressistas. No Equador, o resultado da elei\u00e7\u00e3o presidencial extraordin\u00e1ria implicou a continuidade das propostas de pol\u00edtica econ\u00f4mica no contexto das reformas estruturais. Na Guatemala, por outro lado, o governo de Ar\u00e9valo conseguiu assumir o cargo em meio a disputas cont\u00ednuas com os \u00f3rg\u00e3os do poder judici\u00e1rio e com diversos setores pol\u00edticos da direita do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao percorrer toda a geografia do subcontinente, observa-se que, nos pa\u00edses em que existem governos que se definem como progressistas ou de esquerda, a lideran\u00e7a pol\u00edtica e a implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica enfrentam uma oposi\u00e7\u00e3o constante com pesos variados. Um exemplo not\u00e1vel \u00e9 a trajet\u00f3ria do governo chileno, que n\u00e3o conseguiu aprovar uma nova Constitui\u00e7\u00e3o que se distanciava da aprovada durante o governo de Augusto Pinochet, mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu realizar uma reforma fiscal apresentada como necess\u00e1ria para poder executar v\u00e1rias das medidas de pol\u00edtica econ\u00f4mica que fazem parte da proposta de transforma\u00e7\u00e3o que defende. Entretanto, o maior ponto de discrep\u00e2ncia est\u00e1 entre o conte\u00fado da pol\u00edtica monet\u00e1ria conduzida pelos bancos centrais e grande parte do restante da pol\u00edtica econ\u00f4mica promovida por esses governos.<\/p>\n\n\n\n<p>O contexto geral em que predomina a pol\u00edtica monet\u00e1ria \u00e9 o de um crescimento debilitado liderado pelas principais economias avan\u00e7adas. A prioridade \u00e9 combater a infla\u00e7\u00e3o, considerando que ela \u00e9, antes de tudo, um fen\u00f4meno monet\u00e1rio. O excesso de oferta monet\u00e1ria, de cr\u00e9dito ou de gastos p\u00fablicos est\u00e1 em sua origem, e diante disso, o recurso \u00e9 aumentar as taxas de juros de refer\u00eancia. Os comunicados da Reserva Federal, do Banco Central Europeu e do Banco da Inglaterra indicam que as taxas de juros permanecer\u00e3o nos n\u00edveis elevados em que se encontram h\u00e1 meses e inclusive n\u00e3o descartam novos aumentos, principalmente porque n\u00e3o se observa uma debilidade significativa e sustentada nos mercados laborais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, as diretorias dos bancos centrais, incluindo os pa\u00edses com governos progressistas, compartilham a mesma opini\u00e3o. O argumento monetarista \u00e9 aceito, gerando dificuldades adicionais para o avan\u00e7o do <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quais-sao-as-perspectivas-economicas-para-a-america-latina\/\">crescimento das economias<\/a> e dificuldades ainda maiores para a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas econ\u00f4micas que reduzam a desigualdade social e promovam o desenvolvimento. Os meios de financiamento das atividades econ\u00f4micas na regi\u00e3o est\u00e3o sujeitos a uma esp\u00e9cie de restri\u00e7\u00e3o externa, na medida em que n\u00e3o h\u00e1 capacidade de controlar os movimentos internacionais de capital devido \u00e0s regras estabelecidas nos pr\u00f3prios pa\u00edses da regi\u00e3o. Trata-se de uma disputa de grande import\u00e2ncia que ocorre no pr\u00f3prio espa\u00e7o do Estado e tem um impacto not\u00e1vel no curso geral da pol\u00edtica econ\u00f4mica e no projeto de mudan\u00e7a que esses governos est\u00e3o realizando. A maior dificuldade se d\u00e1 na \u00e1rea de investimento e em seu necess\u00e1rio incremento para viabilizar um crescimento sustentado compat\u00edvel com as tarefas de desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na Am\u00e9rica Latina, os bancos centrais, inclusive os de pa\u00edses com governos progressistas, aceitam o argumento monetarista que gera dificuldades adicionais para o crescimento e para executar pol\u00edticas econ\u00f4micas que reduzam a desigualdade e impulsionem o desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"author":64,"featured_media":37807,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17141,16716,16750],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-37826","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-monetaria-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"category-economia-pt-br","10":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/64"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37826\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37826"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=37826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}