{"id":38188,"date":"2024-02-24T12:00:00","date_gmt":"2024-02-24T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=38188"},"modified":"2024-02-27T12:16:24","modified_gmt":"2024-02-27T15:16:24","slug":"o-valor-de-navalny","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-valor-de-navalny\/","title":{"rendered":"O valor de Navalny"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Aleksei Anatolyevich <\/strong><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2024\/02\/saiba-quem-foi-alexei-navalni-lider-opositor-russo-morto-na-cadeia.shtml\"><strong>Navalny<\/strong><\/a> foi, de uma forma ou de outra, assassinado pelo regime de Vladimir Putin. Muitos pensavam que tinha os dias contados, j\u00e1 que h\u00e1 anos proliferavam os ind\u00edcios de que as autoridades russas pretendiam acabar com sua vida. Faltando apenas um m\u00eas para a pr\u00f3xima <strong>elei\u00e7\u00e3o presidencial<\/strong> da R\u00fassia, Navalny come\u00e7ava seu quarto ano consecutivo na pris\u00e3o. E seu caso poderia se tornar ainda mais inc\u00f4modo. Esse terr\u00edvel fato necessariamente exige reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um opositor persistente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Navalny dedicou sua trajet\u00f3ria p\u00fablica a questionar o <strong>regime de Putin<\/strong> (e o breve interregno de Dmitry Medvedev) atrav\u00e9s das redes sociais. Sua for\u00e7a foi liberada ao se tornar um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@NavalnyRu\">blogueiro<\/a> extremamente popular que denunciava a <strong>corrup\u00e7\u00e3o<\/strong> dos altos hierarcas da autocracia russa. Sua carreira pol\u00edtica come\u00e7ou cedo. Durante oito anos (1999-2007), ap\u00f3s concluir seus estudos universit\u00e1rios em finan\u00e7as, Navalny trabalhou no partido \u042f\u0301\u0431\u043b\u043e\u043a\u043e (\u201cma\u00e7\u00e3\u201d), de <strong>orienta\u00e7\u00e3o liberal<\/strong>. Embora compartilhasse essencialmente da ideologia do partido, seu <strong>nacionalismo<\/strong> e oposi\u00e7\u00e3o veemente \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o o levaram a deixar esse partido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2011, foi preso por duas semanas depois de reunir dezenas de milhares de seguidores que protestavam contra irregularidades cometidas nas elei\u00e7\u00f5es legislativas celebradas nesse mesmo m\u00eas. Naquela \u00e9poca, j\u00e1 havia criado a <strong>Funda\u00e7\u00e3o Anticorrup\u00e7\u00e3o<\/strong>, da qual produziu v\u00e1rios livros e document\u00e1rios. Com eles, acusou Medvedev, considerado por muitos como um fantoche de Putin, que foi presidente da Federa\u00e7\u00e3o Russa entre 2008 e 2012. Navalny n\u00e3o s\u00f3 foi preso v\u00e1rias vezes, mas tamb\u00e9m come\u00e7ou a sofrer <strong>agress\u00f5es f\u00edsicas<\/strong>. Em meados de 2019, depois de sair da pris\u00e3o, denunciou uma primeira tentativa de envenenamento ao ter rea\u00e7\u00f5es estranhas na pele.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sacrif\u00edcio por uma causa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas graves advert\u00eancias, no entanto, n\u00e3o conseguiram deter o <strong>dissidente<\/strong>, que continuou seu trabalho. Um ano depois, em 20 de agosto de 2020, o avi\u00e3o de passageiros em que ele viajava para Moscou teve que aterrissar com emerg\u00eancia diante dos <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/resenas\/navalny-mas-alla-envenenamiento\/\"><em>sintomas preocupantes<\/em><\/a> que&nbsp; Navalny apresentou subitamente. De imediato, os governos de Paris e Berlim solicitaram permiss\u00e3o para o acolherem. Moscou aceitou e, no dia seguinte, foi levado at\u00e9 um hospital da <strong>capital alem\u00e3<\/strong>, onde foi realmente determinado que ele havia sido envenenado.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas foi um <strong>evento incomum que definiria seu destino<\/strong>, bem como o sentido de sua vida inteira: cinco meses depois, em 17 de janeiro de 2021, Navalny regressou \u00e0 R\u00fassia com sua esposa, apesar das autoridades russas advertirem publicamente que o capturariam&nbsp; assim que sa\u00edsse do avi\u00e3o. Apesar dos protestos que ocorreram poucos dias depois em mais de cem cidades russas, Navalny foi levado de uma pris\u00e3o para outra. Enquanto isso, determinava-se judicialmente, de forma bem previs\u00edvel, sua culpa nas acusa\u00e7\u00f5es contra ele.<\/p>\n\n\n\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de seu cativeiro pioraram progressivamente. Isolamento, m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, priva\u00e7\u00e3o de sono, frio extremo e outras formas de puni\u00e7\u00e3o propiciaram suas greves de fome. Finalmente, em dezembro de 2023, o transferiram para uma col\u00f4nia penal na remota e gelada Kharp, onde morreu na semana passada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Finitude e sentido da vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com sua morte, Navalny nos obriga a pensar no sentido da vida. Todos sabemos que vamos morrer, mesmo que raramente saibamos quando e como. Exceto nas situa\u00e7\u00f5es mais extremas, o car\u00e1ter mediato e imprevis\u00edvel da morte tende a remov\u00ea-la de nossos pensamentos cotidianos. Entretanto, para o ser humano, viver n\u00e3o \u00e9 simplesmente existir. O caracter\u00edstico da vida humana \u00e9 a possibilidade de escolher; \u00e9 o desafio e a obriga\u00e7\u00e3o de construir uma hist\u00f3ria pessoal dotada de algum sentido, no marco das limita\u00e7\u00f5es que a realidade nos imp\u00f5e. Consequentemente, \u00e9 a nossa mortalidade comum que nos leva a buscar o sentido das nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a vida \u00e9 composta de a\u00e7\u00f5es, o sentido que damos a ela tende a moldar o de nossa vida em geral. Mas as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam um sentido intr\u00ednseco. Mediante a faculdade de julgamento, o outorgamos em dois planos que poder\u00edamos denominar de <em>dial\u00f3gicos<\/em>. Um \u00e9 o plano coletivo, em que a comunidade julga o valor da a\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, enquanto o outro \u00e9 o plano do indiv\u00edduo, que, em di\u00e1logo consigo mesmo, julga o valor de suas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es. Em ambos os casos, o sentido da a\u00e7\u00e3o \u00e9 geralmente determinado pelo <em>valor<\/em> que atribu\u00edmos a ela, onde o termo <em>valor<\/em> assume seu duplo significado de <em>utilidade<\/em> e <em>valentia<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transcend\u00eancia de uma decis\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quem sempre atua em fun\u00e7\u00e3o do <strong>julgamento coletivo<\/strong> tende a se acomodar \u00e0 ordem vigente e refor\u00e7\u00e1-lo. Quem, em troca, procura se comportar conforme sua pr\u00f3pria consci\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 conquista a si mesmo, mas exerce e reafirma a consci\u00eancia de sua exist\u00eancia individual para convert\u00ea-la, assim, em uma vida totalmente humana. \u00c9 por isso que geralmente se sup\u00f5e que a a\u00e7\u00e3o desenvolvida conforme a pr\u00f3pria consci\u00eancia requer um grande valor. Por isso que S\u00f3crates tamb\u00e9m disse que uma vida sem exame n\u00e3o merece ser vivida. \u00c0s vezes, entretanto, a consci\u00eancia pode ditar imperativos t\u00e3o exigentes que p\u00f5em em risco a pr\u00f3pria vida, como aconteceu com Navalny.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jorge Luis Borges<\/strong>, em uma de seus relatos de <em>O Aleph<\/em>, escreveu que \u00ab<em>qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, consiste na realidade \u201cde um s\u00f3 momento\u201d: o momento em que o homem sabe para sempre quem \u00e9\u00bb<\/em>. Para Navalny, esse momento possivelmente chegou quando decidiu retornar \u00e0 R\u00fassia no in\u00edcio de 2021. Tal decis\u00e3o choca quem o conhece, pela serenidade e o car\u00e1ter quase suicida com que se aproximou desse destino tr\u00e1gico, bem como a quest\u00e3o de sua utilidade. O enorme valor requerido para dar esse passo \u00e9 inquestion\u00e1vel, entendendo aqui <em>valor<\/em> como <em>valentia, <\/em>mas podemos dizer que o sacrif\u00edcio foi \u00fatil, que <em>valeu<\/em> a pena? Em termos pol\u00edticos, quais foram os resultados concretos que essa decis\u00e3o conseguiu produzir?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O exemplo que fica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em uma <strong>era de hiperconectividade<\/strong> como a atual, as ditaduras substitu\u00edram os massacres coletivos pelo <strong>castigo aos indiv\u00edduos<\/strong> mais exemplares. Essa iniciativa \u00e9 cruelmente eficaz, desde que as a\u00e7\u00f5es desses indiv\u00edduos n\u00e3o despertem uma rea\u00e7\u00e3o efetiva da sociedade contra o sistema autorit\u00e1rio. O usual, por\u00e9m, \u00e9 que o peso do que \u00c9tienne de la Bo\u00e9tie chamou de <strong>servid\u00e3o volunt\u00e1ria<\/strong> se imponha, infelizmente, sobre todo o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo quando isso acontece, o valor de pessoas como Navalny n\u00e3o deixa de nos desafiar profundamente. Decis\u00f5es como a dele decorrem da necessidade pessoal de que as a\u00e7\u00f5es estejam \u00e0 altura dos compromissos \u00e9ticos que ela se imp\u00f5e. Em outras palavras, Navalny n\u00e3o se decepcionou. Nesse apego \u00e0 sua consci\u00eancia est\u00e1 a <strong>exemplaridade<\/strong> e o valor de suas a\u00e7\u00f5es, bem como o sentido final de sua vida. Por outro lado, s\u00f3 Deus sabe quantas consci\u00eancias se acender\u00e3o pela centelha de sua determina\u00e7\u00e3o, ou at\u00e9 onde chegar\u00e3o as consequ\u00eancias diretas ou indiretas de seu exemplo. Todos sabemos que, sem pessoas como Navalny, a <strong>liberdade<\/strong> hoje n\u00e3o passaria de uma quimera. Cabe a n\u00f3s garantir que essa possibilidade n\u00e3o acabe se tornando realidade.<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>*Texto originalmente publicado no Di\u00e1logo Pol\u00edtico<\/em><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A liberdade hoje n\u00e3o seria mais do que uma quimera sem figuras como Navalny. 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