{"id":38344,"date":"2024-02-22T07:00:00","date_gmt":"2024-02-22T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=38344"},"modified":"2024-02-27T16:14:28","modified_gmt":"2024-02-27T19:14:28","slug":"o-grande-capital-impulsiona-o-colapso-climatico-e-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-grande-capital-impulsiona-o-colapso-climatico-e-social\/","title":{"rendered":"O grande capital impulsiona o colapso clim\u00e1tico e social"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos em um mundo cada vez mais desigual. Um mundo cada vez mais dominado por grandes multinacionais que geram lucros exorbitantes enquanto pagam sal\u00e1rios cada vez mais prec\u00e1rios. Em 2023, Saudi Aramco, a grande petroleira saudita, registrou lucros de mais de 247 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Apple e Microsoft reportaram, respectivamente, 114 e 95 bilh\u00f5es. Enquanto isso, as rendas reais de muitos trabalhadores dessas e de outras empresas se mant\u00eam congeladas h\u00e1 anos. Esse grande poder empresarial est\u00e1 aprofundando as desigualdades. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, o faz enquanto causa uma degrada\u00e7\u00e3o constante de nosso planeta, com as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa que n\u00e3o param de aumentar, elevando as temperaturas m\u00e9dias globais em quase 2\u00ba Celsius (em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00edveis pr\u00e9-industriais).<\/p>\n\n\n\n<p>A gan\u00e2ncia e as desigualdades<\/p>\n\n\n\n<p>A gan\u00e2ncia do capital aumenta a pobreza e a desigualdade; os lucros s\u00e3o a prioridade acima de tudo. Jan Eeckhout, da Universidade Pompeu Fabra, explica em seu \u00faltimo livro, <a href=\"https:\/\/www.theprofitparadox.com\/\">The Profit Paradox<\/a>, como o \u00eaxito crescente das grandes empresas aumentou as desigualdades salariais. Al\u00e9m do poder empresarial, as grandes empresas obtiveram a maioria dos lucros derivados dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos. Assim, a desigualdade aumentou dada \u00e0 combina\u00e7\u00e3o entre poder de mercado e progresso tecnol\u00f3gico que favorece a produtividade de alguns em detrimento dos demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, trabalhadores que veem seus empregos cada vez mais mal remunerados, mecanizados ou deslocados para locais com sal\u00e1rios mais baixos. Por outro lado, consumidores pagam pre\u00e7os desnecessariamente altos. Nas palavras de Eeckhout, \u201cem vez de levar os benef\u00edcios das melhores tecnologias aos consumidores, essas empresas \u2018superestrelas\u2019 aproveitam as novas tecnologias para ganhar margens ainda maiores\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado \u00e9 um mundo cada vez mais desigual. Uma desigualdade que se reflete cada vez mais n\u00e3o tanto entre os pa\u00edses, mas dentro deles e, em particular, dentro das cidades. As maiores cidades do planeta, tanto em pa\u00edses ricos quanto nos pobres, concentram hoje tanto os mais ricos quanto os mais pobres. Em cidades como Londres, Paris, Xangai, Lagos, Cidade do M\u00e9xico ou Rio de Janeiro, aqueles que acumulam grandes fortunas vivem ao lado de milhares que passam fome todos os dias. Trata-se de din\u00e2micas que geram importantes fraturas urbanas que atualmente minam a coes\u00e3o social e est\u00e3o por tr\u00e1s do recente auge do populismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ressalta o \u00faltimo relat\u00f3rio sobre desigualdade da Oxfam International, <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org\/es\/informes\/desigualdad-sa\"><em>Desigualdade S.A.<\/em><\/a>, na hist\u00f3ria da humanidade, nunca existiu uma desigualdade de renda e riqueza t\u00e3o alta. Embora a riqueza dos cinco homens mais ricos do mundo tenha duplicado desde 2020, a riqueza dos 5 bilh\u00f5es mais pobres diminuiu. Este relat\u00f3rio tamb\u00e9m foca no grande poder empresarial das multinacionais com crescente poder de mercado, que minimizam os custos laborais e evitam o pagamento de impostos.<\/p>\n\n\n\n<p>A gan\u00e2ncia empresarial n\u00e3o s\u00f3 aumenta as desigualdades; tamb\u00e9m intensifica a grande crise ecol\u00f3gica que vivemos. As grandes multinacionais s\u00e3o as maiores respons\u00e1veis pelas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e pela destrui\u00e7\u00e3o de ecossistemas. As multinacionais s\u00e3o as maiores benefici\u00e1rias da deteriora\u00e7\u00e3o do nosso planeta e do sofrimento dos mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mudan\u00e7a clim\u00e1tica e desigualdade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas al\u00e9m da desigualdade nas emiss\u00f5es, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica gerada por elas j\u00e1 se tornou outro fator de crescente import\u00e2ncia por tr\u00e1s dos recentes aumentos na desigualdade. Com o aumento de temperaturas, as secas, enchentes e outras perturba\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas se tornam mais frequentes e intensas. E tudo isso, infelizmente, afeta de forma desproporcional os mais pobres.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aned\u00f3tico; a an\u00e1lise detalhada dos dados mostra como, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os aumentos das temperaturas ajudam a explicar a crescente desigualdade. Nas regi\u00f5es onde as temperaturas aumentaram mais, a concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza tamb\u00e9m aumentou (ver \u201c<a href=\"https:\/\/www.oxfam.org\/es\/informes\/desigualdad-sa\"><em>The far-reaching distributional effects of global warming<\/em><\/a>\u201d). Os pobres s\u00e3o os mais afetados por secas e desastres clim\u00e1ticos. Por dependerem, em muitos casos, de recursos naturais e da agricultura, s\u00e3o os mais vulner\u00e1veis por sua alta exposi\u00e7\u00e3o e baixa capacidade de adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os pobres geralmente vivem em \u00e1reas com maior estresse clim\u00e1tico e propensas a desastres como enchentes, deslizamentos de terra ou inc\u00eandios. Pior ainda, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 associada \u00e0 maior incid\u00eancia e intensidade de conflitos por recursos escassos, como a \u00e1gua. E tamb\u00e9m \u00e0 menor produtividade agr\u00edcola em \u00e1reas tropicais (onde vive a maioria dos pobres globais), maior desnutri\u00e7\u00e3o e mortalidade infantil. E, por sua vez, a maior incid\u00eancia de doen\u00e7as como a mal\u00e1ria e a tuberculose. Tudo isso n\u00e3o s\u00f3 aumenta as desigualdades econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m aumenta as diferen\u00e7as na expectativa de vida em regi\u00f5es onde ela ainda \u00e9 baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo disso \u00e9 a realidade de muitas regi\u00f5es da \u00c1frica Subsaariana, onde as chuvas quase desapareceram nas \u00faltimas d\u00e9cadas. A falta de chuvas devastou os meios de subsist\u00eancia de milh\u00f5es de pessoas, mergulhando-as na pobreza e em conflito e tornando v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o, como Sud\u00e3o, Sud\u00e3o do Sul, Som\u00e1lia e Eritreia, em verdadeiros estados falidos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Colapso ecol\u00f3gico e social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC, sigla em ingl\u00eas), j\u00e1 \u00e9 quase inevit\u00e1vel que <a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/site\/assets\/uploads\/sites\/2\/2019\/09\/SR15_Summary_Volume_spanish.pdf\">as temperaturas globais ultrapassem o limite de 2\u00b0C<\/a>, podendo chegar aos 4\u00b0C se n\u00e3o reduzirmos drasticamente nossas emiss\u00f5es de gases de efeito estufa. Esses aumentos j\u00e1 est\u00e3o desencadeando cat\u00e1strofes ecol\u00f3gicas de longo alcance. Os ecologistas estimam uma taxa atual de extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies ao menos 1.000 vezes superior \u00e0 normal,&nbsp; com at\u00e9 150 esp\u00e9cies desaparecidas a cada ano. Um colapso ecol\u00f3gico sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p>E o ser humano n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 margem disso. A mudan\u00e7a clim\u00e1tica e a degrada\u00e7\u00e3o de ecossistemas&nbsp; ao redor do mundo est\u00e3o a caminho de se tornarem o principal motor por tr\u00e1s das crescentes desigualdades globais, a maior barreira na luta contra a pobreza e, provavelmente, o principal motivo de conflitos em todo o mundo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como evitar o quase inevit\u00e1vel?<\/strong>O crescente poder empresarial, as desigualdades no aumento e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o problem\u00e1ticas bastante conectadas e caracter\u00edsticas de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-economia-a-servico-de-poucos\/\">um sistema econ\u00f4mico global que s\u00f3 funciona<\/a> bem para alguns, \u00e0 custa do sofrimento de muitos outros e de um planeta em preocupante deteriora\u00e7\u00e3o. Para evitar o colapso ecol\u00f3gico e social que enfrentamos, faltam reformas profundas nesse sistema econ\u00f4mico global, come\u00e7ando pela descarboniza\u00e7\u00e3o da nossa sociedade. Isso requer vontade e valentia pol\u00edtica, bem como ren\u00fancias a n\u00edveis de consumo totalmente insustent\u00e1veis. Ou agimos j\u00e1 ou o colapso \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para evitar o colapso ecol\u00f3gico e social que enfrentamos, faltam reformas profundas nesse sistema econ\u00f4mico global, come\u00e7ando pela descarboniza\u00e7\u00e3o da nossa sociedade. 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